Nascida em Pernambuco, em 1919, Maria Laura Mouzinho atribuía a base de sua formação intelectual à escola primária, cursada no Grupo Escolar João Barbalho, no Recife, dirigido por Helena Pugó, em um contexto de modernização pedagógica conduzido pelo secretário de Educação Antonio Carneiro Leão. Durante o curso Normal (1932–1934), teve um encontro decisivo com Luiz de Barros Freire, que lhe revelou a matemática como atividade intelectual criativa e prazerosa — em contraste com a própria lembrança de que, na infância, afirmava “detestar” a disciplina.
Com a mudança da família para o Rio de Janeiro, em 1935, enfrentou o rigoroso exame de Madureza no Colégio Pedro II, estudou no Instituto Lafayette e no Colégio Sion, em Petrópolis, e, em 1938, tentou ingressar na Escola de Engenharia. Embora aprovada em Física e Matemática, foi reprovada em Desenho. No ano seguinte, descobriu a Universidade do Distrito Federal (UDF) e, com o apoio de Luiz de Barros Freire, então decano, foi matriculada no curso de Matemática com base em suas aprovações anteriores. Pouco depois, com o fechamento da UDF, o grupo foi transferido para a recém-criada Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), da Universidade do Brasil.
Na FNFi, foi aluna de Lélio Gama, Costa Ribeiro e Oliveira Junior, tornando-se monitora e, em 1942, assistente da Cadeira de Geometria. A chegada de professores estrangeiros, em especial do matemático português Antônio Monteiro, consolidou a FNFi como polo pioneiro de pesquisa em Matemática no Rio de Janeiro. Sob sua orientação, Maria Laura defendeu a tese Espaços Projetivos – Reticulado de seus subespaços, obtendo a Livre-Docência — então equivalente ao doutorado — e tornando-se a primeira doutora em Matemática formada no Brasil no âmbito universitário. Em 1953, assumiu a Cátedra de Geometria, atuando no Instituto de Matemática da UFRJ até abril de 1969, quando foi aposentada compulsoriamente pelo AI-5, ao lado do marido, o físico José Leite Lopes.
Durante o exílio, trabalhou em Estrasburgo, na França, no Institut de Recherches sur l’Enseignement des Mathématiques (IREM), aprofundando-se nos fundamentos da Educação Matemática. Com a anistia, retornou ao Brasil em 1980, reassumindo atividades na UFRJ e contribuindo decisivamente para a formação docente, especialmente por meio do Projeto Fundão (SPEC/Capes/PADCT), de amplo reconhecimento nacional e internacional.
Sua ligação com a Academia Brasileira de Ciências é central em sua trajetória. Maria Laura esteve entre as cinco primeiras mulheres admitidas na ABC e foi a primeira brasileira a ingressar como membra associada. Em 1976, ao organizar o I Seminário sobre o Ensino de Matemática, buscou apoio institucional e encontrou acolhimento decisivo do então presidente da ABC, Aristides Pacheco Leão, viabilizando o evento com patrocínio da própria Academia. Esse marco impulsionou a criação do GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Matemática), referência nacional desde então.
Ao longo da vida, Maria Laura defendeu que ciência, tecnologia e inovação exigem um sistema educacional sólido, com professores bem formados e valorizados — capazes não de “encher vasos”, mas de “acender lareiras”.