Pioneira da paleontologia e da estratigrafia, Carlota Joaquina Maury construiu uma trajetória científica marcada por rigor intelectual, independência profissional e superação de barreiras impostas às mulheres no início do século XX. Especialista em moluscos fósseis do Período Terciário, realizou contribuições fundamentais para a compreensão da estratigrafia em diferentes regiões das Américas, incluindo o Brasil.
Nascida nos Estados Unidos, Carlota era filha do reverendo Mytton Maury e de Virginia Draper, e cresceu em um ambiente profundamente ligado à ciência. Era neta do físico John William Draper e prima do geógrafo Matthew Fontaine Maury. Sua irmã mais velha, Antonia Caetana Maury, destacou-se como astrônoma. Esse contexto familiar foi decisivo para sua escolha profissional.
Carlota estudou no Radcliffe College e obteve o doutorado em 1902, na Universidade Cornell, sendo uma das primeiras mulheres a alcançar esse título na instituição. Apesar da excelência acadêmica, enfrentou limitações em sua carreira docente, ocupando sobretudo cargos de assistente nos Estados Unidos. Sua experiência mais longa como professora ocorreu fora do eixo acadêmico central, em instituições como o Huguenot College e a University of the Cape of Good Hope, na África do Sul.
A partir da década de 1910, Carlota passou a atuar intensamente com microfósseis, área emergente impulsionada pelas demandas da indústria do petróleo. Tornou-se uma das primeiras consultoras independentes do setor, mantendo ao longo da vida uma estreita ligação com pesquisas aplicadas para companhias petrolíferas.
Entre 1911 e 1916, participou e liderou importantes expedições científicas na Venezuela e na República Dominicana, em um contexto político adverso. Os resultados desses trabalhos tornaram-se referências clássicas no estudo de moluscos terciários do Caribe. Sua liderança em campo representou uma ruptura significativa com os padrões de gênero vigentes na ciência da época.
Por volta de 1920, iniciou colaboração com o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (SGMB), então dirigido pelo geólogo Orville Derby. Embora não tenha visitado o país, analisou extensas coleções fósseis enviadas por geólogos brasileiros, incluindo Luciano Jacques de Moraes, realizando estudos que abrangeram diferentes períodos geológicos. Sua principal contribuição para a geologia brasileira foi a obra Fósseis Terciários do Brasil com Descrição de Novas Formas Cretáceas (1924–1925), na qual propôs correlações estratigráficas entre o litoral nordestino, o Caribe e o Golfo do México.
Carlota utilizou, em seus estudos, a teoria das pontes continentais, então amplamente aceita antes da consolidação da deriva continental. Reconhecida por sua eficiência, energia e autonomia intelectual, construiu uma carreira sólida em um ambiente científico predominantemente masculino.
Faleceu em 1938, após longa enfermidade. No ano seguinte, foi homenageada com um memorial publicado nos anais da Sociedade Geológica Americana, que destacou seu papel central no conhecimento das faunas terciárias das Américas. Seu legado permanece como referência na paleontologia e na história das mulheres na ciência.