Quando era menino, no interior de São Paulo, Adalberto Luis Val costumava contemplar o lago onde seu pai o levava para pescar e se perguntar como todas aquelas criaturas que nadavam sob a superfície conseguiam sobreviver. Certo dia, capturou alguns peixes com uma rede, colocou-os em um recipiente e os levou para casa para observá-los. Na manhã seguinte, estavam todos mortos. Val ficou arrasado, mas também intrigado.
“Eu precisava entender como os peixes conseguem viver”, conta.
Avançando até os dias atuais, chegamos a Manaus, cidade situada na floresta amazônica brasileira e lar adotivo de Val desde o início da década de 1980. Ao longo das últimas cinco décadas, ele ajudou a transformar a região em uma fronteira da pesquisa científica sobre o clima tropical.
Premiado por suas contribuições à ecofisiologia, Val, hoje com 70 anos, dedicou-se a compreender as brânquias, os gases e os mistérios bioquímicos que permitem aos peixes sobreviver extraindo oxigênio da água — e que podem levá-los à morte quando o clima sofre alterações extremas. Foi assim que o tambaqui despertou seu interesse.

Tradicionalmente, canários em gaiolas eram utilizados nas minas de carvão como um sistema de alerta precoce para a presença de gases tóxicos. Na floresta amazônica, castigada pelas mudanças climáticas, esse papel cabe ao tambaqui. Muito apreciado pelos amantes da gastronomia, esse grande peixe de água doce (Colossoma macropomum), capaz de respirar próximo à superfície, sobe quando o aumento das temperaturas reduz o oxigênio dissolvido na água a níveis críticos e eleva a concentração de dióxido de carbono.
Trata-se de uma adaptação evolutiva aperfeiçoada pelo tambaqui ao longo de milhões de anos, graças a um lábio inferior protuberante, que lhe permite captar a água mais oxigenada da superfície. As pesquisas de Val sugerem que acompanhar o comportamento do tambaqui também pode ser uma das melhores maneiras de avaliar a resiliência da própria floresta amazônica.
“Durante 65 milhões de anos, tivemos um clima relativamente estável e previsível na bacia amazônica, com os níveis de oxigênio na água aumentando durante as noites mais frias e diminuindo ao longo dos dias mais quentes”, explica Val. “A partir da Revolução Industrial, tudo começou a mudar.”
Pesquisador de destaque do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Val constatou que os peixes tropicais, muito mais do que seus equivalentes das regiões temperadas, são extremamente sensíveis às variações de temperatura, umidade e composição química da água e do ar.
Some-se a isso a intensa pressão humana sobre a floresta, que vai da agricultura baseada em derrubadas e queimadas ao garimpo ilegal e ao escoamento de substâncias químicas para os cursos d’água, e muitas espécies emblemáticas da fauna aquática já se encontram à beira do colapso. Depois de anos documentando o agravamento das alterações climáticas na Amazônia, o trabalho de Val finalmente começa a atrair a atenção mundial.
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Os pesquisadores descobriram que o aquecimento excessivo eleva a temperatura da água, reduz os níveis de oxigênio dissolvido e provoca danos aos sistemas vasculares, ao metabolismo e à fisiologia dos peixes dos rios.
Mas havia muito mais em jogo do que a sobrevivência de uma única espécie da floresta tropical.
“Os tambaquis transportam sementes ao longo dos rios”, explica Val. “Portanto, a redução de suas populações compromete a capacidade de regeneração da própria floresta.”

Fora do laboratório, sua equipe observou como a elevação acentuada das temperaturas prolongou a estação seca, com consequências devastadoras. As secas recordes consecutivas de 2023 e 2024 provocaram mortalidade em massa de peixes e botos em toda a bacia amazônica.
Recentemente, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão brasileiro responsável pela conservação da biodiversidade, incluiu o tambaqui na lista de espécies ameaçadas de extinção.
As pesquisas de Val também alertam que os ambientes aquáticos tropicais são extremamente vulneráveis a outras perturbações ambientais provocadas pelas atividades humanas.
O desmatamento e as queimadas lançam fuligem e cinzas tóxicas na atmosfera e nas bacias hidrográficas. O escoamento de substâncias químicas provenientes da mineração e da agricultura em grandes plantações chega aos rios e aquíferos, comprometendo a qualidade da água potável, contaminando os peixes e provocando doenças nas populações humanas devido à presença de elementos e substâncias perigosas, como cobre, mercúrio, microplásticos e pesticidas.
Uma Amazônia mais quente e úmida também poderia favorecer a proliferação de algas tóxicas ou aumentar a população de mosquitos e, consequentemente, a incidência de doenças transmitidas por vetores, como malária, dengue e chikungunya.
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O trabalho de Val é um lembrete de que o que acontece na Amazônia importa para todo o planeta e de que não é possível compreender, muito menos conter, a devastadora crise climática sem pesquisas científicas de ponta nos biomas tropicais e nos sistemas aquáticos que os sustentam.
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Leia o artigo original em inglês
Fonte: The Guardian, 3 de novembro de 2026.
Título original: The Amazon’s canary in the coalmine: what a tropical fish can tell us about climate upheaval.