No dia 28 de outubro, Dia do Servidor Público e três dias depois do segundo turno das eleições, a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, participou da Semana de Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Educação Básica da Universidade Federal do Alagoas (UFAL). Nader aproveitou o momento para reafirmar o valor da democracia, da soberania nacional e das instituições republicanas. “Eu vivi a ditadura, a democracia não é um presente definitivo, mas uma construção permanente que exige participação. Foi isso que nossos jovens fizeram, exercendo seu direito e se tornando símbolo para a juventude no mundo”, declarou.
Emocionada, a biomédica de 78 anos elogiou a união de forças entre as gerações. “Assim como em tantos outros momentos decisivos da nossa história, jovens e idosos exerceram seu direito de participação política. Foi emocionante ver jovens levando seus avós as urnas. Compartilhamos essa responsabilidade, os idosos trazem a memória histórica e os jovens trazem novas linguagens e inquietações. Não é preciso romper com a memória para construir novos caminhos, nem os jovens precisam se limitar a herdar o mundo que os entregamos. Isso é a Democracia”.
Defesa de programas para a diversidade e permanência
A interação entre experiências distintas, tão fundamental para a sociedade democrática, é também indispensável para a ciência do século 21. A presidente da ABC fez uma defesa enfática da educação pública, da creche à pós-graduação. “Quem tem acesso à produção do conhecimento influencia nas perguntas que serão feitas e nas conclusões a que se chegarão. Ações afirmativas são um reparo do Brasil pelos anos de descaso com uma parcela gigante da sua população, são a diversidade encontrando a representação e o conhecimento deixando de ser privilegio. Quem terá a oportunidade de construir o Brasil do futuro?”.
Como parte desses esforços, Nader defendeu a continuação do programa Pé-de-Meia, que remunera estudantes por completarem o Ensino Médio. “Não podemos aceitar que jovens abandonem suas capacidades por falta de condições de permanência. Não podemos aceitar que a ciência tenha CEP, que o lugar onde alguém nasceu determine onde ela irá chegar”.
Outro ponto de defesa foi a escola em tempo integral. “A formação de um cientista começa muito antes da universidade, começa na curiosidade de uma criança para saber porque o céu é azul ou as plantas são verdes. A escola não pode ser apenas um espaço de transmissão de informações, mas de estímulo a curiosidade. Tempo integral não significa, necessariamente, mais matérias, mas mais espaço para a curiosidade, onde um erro é uma oportunidade de pesquisa e aprendizado”.

Contra alternativas que representem o desmonte da ciência
Helena Nader lembrou quando, no governo Bolsonaro, o físico Ricardo Galvão foi exonerado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por divulgar dados de satélite sobre o desmatamento amazônico. “A ciência não será tutelada!”, clamou.
Mas o enfraquecimento do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação não ocorre apenas no nível individual, mas principalmente no nível institucional. A ciência exige continuidade, pois um laboratório ou uma rede de pesquisa não são construídos do dia para a noite, mas, quando o financiamento é cortado, alunos abandonam a carreira, equipamentos ficam obsoletos, as perdas se dão muito rapidamente. “Perder memória institucional é perder capacidade de desenvolvimento”, resumiu.
A presidente da ABC se mostrou preocupada com a perda de procura das novas gerações à carreira científica. “Nós não estamos valorizando a ciência se não estamos oferecendo oportunidades na ciência. A pesquisa precisa ser uma oportunidade real de vida e trabalho. As bolsas precisam ser valorizadas e os profissionais também”, defendeu.
Para isso, o ecossistema científico do país não pode depender apenas das instituições públicas, o setor privado precisa participar. “Os países que deram certo são onde o mercado e a indústria também investiram nos jovens”. Mas a biomédica também admitiu que as universidades precisam se adaptar aos novos tempos. “Nossos currículos não são mais adequados ao século 21. Nenhuma geração produz respostas definitivas, o conhecimento não se desenvolve pela repetição de certezas, mas pela formulação de novas perguntas”, refletiu.
Por mais mulheres no topo da ciência
Ao fim, Helena Nader fez uma defesa enfática da participação e valorização feminina na ciência. Elas já são maioria nas áreas de Educação (76%) e Saúde (54%), mas ainda são poucas nas engenharias (36%) e muito poucas em tecnologias da informação (16%), os dados são do Censo da Educação Superior de 2024. “Existem barreiras culturais e sociais. A participação feminina não começa no vestibular, mas quando na infância a menina é estimulada ao cuidado e o menino à experimentação”.
A ainda persistente participação desigual nas tarefas de cuidado ainda se faz sentir nas trajetórias de ambos os sexos. Na pandemia, a produção científica de mulheres caiu drasticamente, enquanto a dos homens apresentou uma leve melhora. “Reflitam bastante sobre o que significa essa informação”, pediu Nader.
Além desses obstáculos adicionais, mulheres ainda enfrentam seleção negativa institucional, que se demonstra pela queda na participação feminina à medida que a carreira avança. De acordo com o CNPq, elas são 56% das bolsistas de iniciação científica, 55% das de mestrado e 52% das de doutorado, mas apenas 39% das bolsistas de produtividade, o nível mais alto de bolsas da instituição. Globalmente, mulheres são 32% dos pesquisadores, mas 19% das membras de academias nacionais. “Ainda temos um longo caminho a percorrer”, afirmou Nader.