Dois pesquisadores convidados, da Argentina e do Chile, participaram da 4ª Conferência Regional de Jovens Cientistas da TWAS-ROLAC (The Academy of Sciences for the Developing World – Regional Office for Latin América and the Caribean), realizada conjuntamente com a conferência Avanços e Perspectivas da Ciência na América Latina e Caribe, na Academia Brasileira de Ciências, entre os dias 1º e 5 de dezembro de 2008.

Membro estrangeiro da ABC, Francisco José Barrantes apresentou uma reflexão pessoal sobre o progresso da ciência contemporânea na Argentina. “Vejo certos sintomas de melhora no panorama científico do país, resultado da criação de um Ministério da Ciência e da realização de mudanças profundas na organização do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), que é a principal agência de ciência do Estado”, conta. O pesquisador considera o aniversário de 50 anos do Conicet em 2007 um marco importante para a ciência do país, uma vez que é a instituição com maior trajetória científica da história da Argentina.

Para ele, o desenvolvimento de um plano federal de criação de infra-estrutura e de recursos humanos para o período de 2008 e 2009 também auxiliou o fortalecimento da ciência argentina. Haverá um investimento de 133 milhões de dólares em 50 obras de 13 das 24 províncias existentes no país. “É um valor de pequena proporção, são 2,5 milhões de dólares por obra”, acrescenta.

De acordo com o pesquisador, a descoberta de uma lacuna jurídica incentivou o avanço do setor. “Até agora, não existia um marco técnico jurídico oficial para a concessão de subsídios de natureza privada, o que impedia que as empresas estatais alcançassem o seu potencial máximo”, esclarece. Com um projeto de lei estabelecido neste ano para estimular e incentivar a iniciativa privada a financiar projetos voltados para a ciência básica e para as aplicações tecnológicas, a eficiência do sistema de apoio científico foi intensificado.

Barrantes considera a cooperação bilateral com o Brasil extremamente importante. “É essencial a realização de programas de convênio entre os nossos governos e instituições, seja através de projetos, atuação individual, projetos conjuntos ou intercâmbio de recursos humanos”, conclui. Como exemplo, o cientista citou os convênios nas áreas de nanotecnologia, biotecnologia, biodiversidade, clima e física são fundamentais.

Segundo o pesquisador, o compartilhamento de recursos naturais entre aA Argentina e o Brasil é um ponto crucial para o desenvolvimento de estratégias e tecnologia. “A aplicação das fontes de energia renovável traz inúmeros benefícios para ambos os países e a metrologia, a ciência das medições, é um ponto importante para o desenvolvimento de estratégias comuns no Mercosul”, afirma. O cientista comemora o início de um estudo para a criação de um Centro Binacional de Metrologia, que já ampliou a colaboração entre os dois países.

De acordo com Barrantes, a Coréia, a União Européia, o Reino Unido, Israel e os Estados Unidos aplicam uma grande percentagem do seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisas científicas. “Nesta perspectiva, é importante destacar que o Brasil já investe 1% do seu PIB no setor. A Argentina custa a passar de 0,5%”, lamenta. O pesquisador afirma que, apesar da América Latina já possuir uma tradição científica, esta parcela dos continentes americanos não está unificada. “A união dos países latinos é uma necessidade primordial. As nações mais desenvolvidas científica e tecnologicamente devem auxiliar os países que possuem conceitos e instituições científicas fracas e inconsistentes. Com este foco, acredito que a TWAS-ROLAC possui um papel fundamental para prover um equilíbrio da ciência entre os países menos desenvolvidos”, finaliza.

Pesquisa em Neurobiologia

Graduado e doutorado em Medicina pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e atualmente Professor Titular do Departamento de Bioquímica, Biologia e Farmácia da Universidad Nacional Del Sur (UNS), o pesquisador considera a cooperação científica e a interdisciplinaridade cruciais para o avanço da ciência. “Atualmente a instrumentação é extremamente complexa. O genoma humano teria sido uma tarefa impossível para apenas um cientista. No entanto, quando se trabalha em equipe, tudo se torna muito mais fácil e rápido”, garantiu.

Barrantes trabalha com Neurobiologia, área que estuda a comunicação entre as células do sistema nervoso, que pode ocorrer no sistema nervoso central- o cérebro – ou no periférico, na comunicação entre a célula nervosa e o músculo. “Basicamente, eu trabalho com comunicação mediada por linguagem digital e elétrica, que são transformadas em linguagem química”, esclareceu Barrantes.

O espaço de contato entre duas células nervosas – ou de uma célula nervosa e uma célula muscular ou glandular – é chamado de sinapse. Neste local, pequenas vesículas liberam os neurotransmissores que, segundo Barrantes, são parecidos com os hormônios. “A principal diferença entre os hormônios eos neurotransmissores é que os primeiros são liberados na corrente sanguínea e alcançam locais afastados do corpo humano, enquanto a liberação do neurotransmissor, que é extremamente veloz, é realizada dentro de uma área delimitada do organismo”, explicou.

Barrantes atua hoje em três linhas de pesquisa: estuda a neurobiologia molecular do receptor de acetilcolina, a patologia molecular dos receptores de neurotransmissores e o papel do ambiente em torno da membrana na modulação da estrutura e função do receptor. O médico acredita que a Neurobiologia é uma das principais disciplinas do século XXI. “A elucidação da natureza da consciência, da inteligência e das doenças associadas a defeitos são de elevada importância para a sociedade contemporânea, porque os humanos conquistaram um alto grau de longevidade e este benefício foi acompanhado pelo surgimento de algumas novas doenças, como o Mal de Alzheimer”, esclarece.

Para o cientista, um dos maiores desafios atuais das Neurociências é entender a função do sistema nervoso, para descobrir como curar e prevenir novas enfermidades. “Compreender a habilidade do cérebro de estocar, esquecer e recuperar informações e a capacidade humana de criar a arte e de tomar decisões inteligentes são questões essenciais para o avanço do conhecimento”, acrescenta.

Barrantes afirma que as Neurociências ainda estão no jardim de infância, quando comparadas com o grau de desenvolvimento de um ser humano. Seu estudo começou, seriamente, na virada do século XIX, através da Anatomia, da descrição e localização de diferentes segmentos do cérebro. “De certa forma, é uma nova ciência. O desenvolvimento de novas tecnologias no século XX também contribuiu muito para a nossa compreensão do órgão e do sistema nervoso em geral”, explica o professor, que acredita que a biologia molecular e o progresso da computação possibilitaram a abordagem de problemas e questões que eram inimagináveis há 20 anos atrás.

Diretor do Centro Científico Tecnológico Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas) da Bahía Blanca, na Argentina, Barrantes elogiou a atmosfera científica da conferência. Por ser membro da ABC e da TWAS-ROLAC, ele representou as duas instituições durante o encontro. “Tenho muito orgulho de ter colaborado com a organização do primeiro TWAS-ROLAC para Jovens Cientistas em Angra dos Reis, há três anos atrás. Alguns dos melhores pesquisadores latino-americanos das Ciências Biológicas participaram da conferência. Foi uma experiência maravilhosa”, elogia o cientista, que publicou mais de 170 artigos em revistas internacionais durante a sua carreira e recebeu o Prêmio Alexander von Humboldt, na área de pesquisa, da República Federal da Alemanha, em 1998.

Avanços e Perspectivas da Ciência no Chile

Costariquenho naturalizado chileno, Jorge Eduardo Allende é formado em Química pela Universidade do Estado de Louisiana e Ph.D. em Bioquímica pela Universidade de Yale, ambas nos Estados Unidos. É membro da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS), da Academia Nacional de Ciências dos EUA e da Academia Chilena de Medicina. Foi presidente da Academia Chilena de Ciências de 1991 a 1994, tendo recebido o Prêmio Nacional Chileno de Ciências Naturais em 1992.

Apresentando de início seu próprio trabalho, Allende, que pesquisa duas enzimas que, por serem responsáveis pela fosforilação (a introdução de grupos de fosfato em proteínas), são essenciais para o metabolismo celular. O cientista esclareceu que este processo influencia as mensagens que são enviadas durante a divisão das células. “A ciência pode regular este fenômeno, que é crucial para o câncer, uma vez que a doença surge através da perda de controle da divisão celular”,explicou. Segundo ele, os ritmos biológicos também são afetados pela fosforilação das proteínas. “Existem pessoas que têm essas enzimas modificadas e, por este motivo, possuem um período de sono mais curto.”

O pesquisador acredita que o grande desafio para o futuro da Biologia é compreender a complexidade dos múltiplos fenômenos que ocorrem simultaneamente dentro da célula. “O futuro desta pesquisa não é entender apenas uma única reação celular, mas sim como esses mecanismos interagem entre si”, esclarece. Allende explica que as células do corpo humano recebem uma variedade de sinais ao mesmo tempo. “Quando uma pessoa sobe uma montanha é enviado o aviso de que há um baixo nível de oxigênio. No mesmo momento, as células deste indivíduo também podem receber a mensagem de que a taxa de açúcar no sangue subiu. O organismo é um sistema integrado que responde a múltiplos sinais simultâneos”.

O bioquímico, condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico da República do Brasil, em 2002, considera a conferência uma oportunidade essencial para descobrir como as diferentes áreas da ciência brasileira são desenvolvidas no país. “Gostei de contar para os participantes do evento sobre o estado da ciência no Chile. Nós possuímos muitos problemas em comum e, juntos, podemos aprender importantes lições”.

Atuando na Ciência chilena há 46 anos, desde que obteve seu Ph.D. na Universidade de Yale e um pós-doutorado na Universidade Rockefeller, em Nova York, Allende relata uma grande mudança nas condições de pesquisa no país desde então, quando ainda não havia o Conicyt (agência correspondente ao CNPq), não havia programas de doutorado nem recursos locais. “Passamos ainda por dezessete anos de ditadura militar, durante os quais cientistas e professores universitários foram perseguidos e exilados por suas ideologias.”

Atualmente, ele tem uma visão otimista, por um lado, mas preocupada, por outro. Os aspectos positivos incluem o aumento da produtividade científica, que dobrou nos últimos doze anos. Em números absolutos, o Chile fica atrás do Brasil, México e Argentinana América Latina. Mas se for calculada a produção per capita, o Chile está em primeiro lugar. “Se tomarmos como referência o rankingde citações do Portal Scimago e considerando apenas os países que geraram mais de 20 mil documentos nos últimos doze anos, teremos a surpresa de encontrar o Chile em vigésimo lugar, claramente entre os países desenvolvidos”, observou Allende.

Nas Ciências da Terra e Ciências Planetárias, o Chile se encontra em primeiro lugar; em Medicina, Bioquímica e Biologia Molecular, em 25º lugar; em Química, num pobre 43º lugar. É evidente, para Allende, que o primeiro lugar em Astrofísica e Ciências Planetárias se deve à existência de grandes observatórios internacionais no país e ao fato de que os astrônomos chilenos têm 10% do tempo de observação e colaboram com os melhores do mundo nesse campo.

O percentual de colaboração internacional aumentou de 47% para 61%, enquanto que no mesmo período o Brasil caiu de 38% para 33% em publicações com colaboração internacional. A contribuição do Chile para com o percentual de publicações da América Latina se mantém em torno de 7.8%, liderado pelo Brasil, cujo índice subiu de 38% para 51%. Com relação à produção científica mundial, o Chile passou de 0.17% para 0.27%. “Essas são as boas notícias: o Chile está fazendo Ciência de boa qualidade, aumentando sua produtividade e bastante integrado na Ciência mundial”, resumiu Allende.

No entanto, existem os aspectos negativos. O primeiro é que a Ciência chilena é muito pequena para responder à demanda de que a pesquisa e a inovação precisam para que se tornem instrumentos de desenvolvimento socioeconômico.

No ano de 2005, a Academia Chilena de Ciências conduziu um estudo bastante completo denominado Análises e Projeções para a Ciência Chilena.Como parte do estudo, foram organizados onze comitês em áreas das ciências, formados por membros da Academia e especialistas das Sociedades Científicas, que fizeram um levantamento dos pesquisadores mais ativos em cada área nos últimos cinco anos. Chegou-se a um número de apenas 2.245 indivíduos, um total bastante deprimente para Allende. “Na Oceanografia, por exemplo, temos apenas 157 pesquisadores, num país dominado pelo Oceano Pacífico. O mesmo pode ser dito da área de Ciências da Terra, num país de mineração e com dezenas de vulcões, placas tectônicas e sob constante risco de terremotos.”

Além disso, estes poucos pesquisadores estão todos concentrados num pequeno número de universidades – mais precisamente, 70% deles estão em cinco instituições. A formação de novos pesquisadores também ocorre em números muito pequenos, embora tenha dobrado de 2003 até hoje.

A área mais difícil, Para Allende, é a de políticas públicas e de financiamento de C&T, que só foram consideradas fundamentais para o desenvolvimento do país nos últimos cinco anos, sendo mais valorizadas no governo Bachelet. Uma lei foi apresentada ao Congresso, propondo que parte dos lucros com a mineração de cobre seja revertida pra o financiamento de C,T&I. Os grandes produtores, porém, através dos senadores e deputados que os representam, querem que os lucros sejam dirigidos para os programas sociais que financiam nas regiões de minério. E a lei ainda está tramitando no Congresso.

Há também conflitos sobre qual instância irá gerenciar os recursos da área. Alguns defendem a criação de um Ministério de C&T e outros a criação de um Conselho Consultivo que se reporte diretamente ao presidente. Tudo dependerá, na opinião de Allende, de quem assumir a liderança da entidade e sua relação com os elaboradores diretos das políticas públicas do país.

As prioridades nacionais emC,T&I são outro problema. As universidades foram excluídas do debate e, portanto, os seus cientistas. Elas foram definidas por um grupo de consultores estrangeiros, o Boston Consulting Group.  Assim,não foram incluídas como prioridades a questão dos combustíveis alternativos, saúde, educação, coesão social e meio ambiente, ou seja,as grandes demandas sociais do país. As universidades fizeram então, em 2007, uma proposta alternativa, que foi enfim ouvida e algumas mudanças nas prioridades foram implementadas.

Isto é apenas o começo, no entender de Allende. “Precisamos agora elaborar um plano de ação que possibilite a construção de capacidade para atuar nessas prioridades”. As universidades estão apenas começando a romper as barreiras acadêmicas e estabelecer parcerias com o setor privado. Esse tipo de iniciatica, de acordo com Allende, deve ser incentivada.

Em maio deste ano, a presidente Michelle Bachelet anunciou a criação de um Fundo para Capital Humano Altamente Avançado, o que gerou forte comoção na comunidade científica chilena, embora ela não tenha sido consultada na elaboração do projeto. O governo só tem mais 11 meses antes da próxima eleição presidencial e, portanto, tem interesse em mostrar resultados.

A educação cinetífica no país

Os cientistas chilenos, segundo Allende, já tinham consciência de que a Ciência só se desenvolve e cresce numa sociedade se os cidadãos apreciarem e compreenderem a importância e o valor da ciência. Sabiam também que esta apreciação só será obtida pela educação básica e média.”A avaliação do PISA no Chile identificou o nível insatisfatório da educação científica no país”, conta o pesquisador.

Em função desta problemática, um pequeno grupo de cientistas se interessou por uma iniciativa das Academias de Ciências dos Estados Unidos e da França, que desenvolveram um Programa de Educação em Ciência baseada em Evidência, similar ao Programa ABC na Educação Científica – Mão na Massa.”Tomamos conhecimento deste método num encontro do Inter Academy Panel(IAP) em Tóquio, no ano 2000, e após conhecermos mais a fundo seus resultados conseguimos convencer o Ministério da Educação e a Fundação Andes de implantar um programa-piloto em 2003″, contou Allende.

Esta metodologia procura reproduzir em sala de aula o que os cientistasfazem no laboratório. Os alunos propõem questões, elaboram hipóteses, fazem experimentos, analisam os resultados, comparam conclusões com os colegas e extrapolam estas conclusões para problemas mais gerais. O material usado é simples o bastante para que possa ser utilizado nas salas de aula regulares, sem demandar laboratórios.

As crianças aprendem fazendo e por isso não esquecem o que aprenderam, ficando fascinadas com a possibilidade de responder às suas próprias questões. “A maior gratificação é ver o sorriso feliz das crianças fazendo ciência”, declarou Allende.
Em cinco anos o Programa cresceu muito e Allende acha possível dobrar o número de crianças e escolas atendidas nos próximos três anos. “Temos certeza que com esse método vamos formar gerações que gostarão de ciência.”

Um aspecto muito positivo do Programa, segundo Allende, é a forte colaboração entre as Academias de Ciências latino-americanas – através da Rede Interamericana de Academias de Ciências, da qual o vice-presidente da ABC, Hernan Chaimovich, é vice-diretor – e também com as Academias de outros países através do InterAcademy Pannel (IAP).

Allende acredita que a ciência já nasceu global e que o conhecimento desenvolvido em um país sempre foi divulgado para as outras nações. “A ciência é diferente da arte. As duas são atividades humanas extremamente criativas, mas, enquanto a criação artística transmite uma visão única e pessoal, a ciência é naturalmente uma ação coletiva”, compara. Ele argumenta que quando Galileu obteve os resultados de seus primeiros experimentos, a notícia foi transmitida para vários países da Europa. “Sempre foi assim. Diversos cientistas, de várias partes do mundo, contribuem diariamente para a construção do complexo e maravilhoso edifício do conhecimento”, finaliza o bioquímico, que valoriza a união e acredita na universalidade da ciência.