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Novo relatório do IPCC foi tema de edição especial dos Webinários da ABC

Os participantes da edição especial dos Webinários da ABC “Brasil e as mudanças climáticas: Novo relatório do IPCC”

O papel do homem no aquecimento global é irrefutável. Essa é uma das conclusões do novo relatório realizado pelo grupo de trabalho 1 (WG1) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em inglês). O Painel é uma colaboração de 195 países, envolvendo especialistas do mundo inteiro para fornecer avaliações regulares sobre mudanças climáticas e suas diversas implicações. 

O documento publicado nesta segunda-feira (09/08) focou nas bases físicas do aquecimento. Para discutir as principais conclusões, foi realizado uma edição especial dos Webinários da ABC, contando com a participação dos pesquisadores Paulo Artaxo (USP, membro titular da ABC), Thelma Krug (IPCC), José Marengo (Cemaden, membro titular da ABC) e Lincoln Alves (Inpe), que participaram ativamente da elaboração do documento. O evento foi mediado pelo presidente da Academia Brasileira de Ciências Luiz Davidovich

Dados: IPCC, Tradução: Jornal da USP

Essa é a primeira vez que o relatório quantifica a influência humana no clima. Os efeitos antropogênicos já são responsáveis por um aquecimento médio global de 1,1°C, número que aumenta para 1,6°C nos continentes.  “É indiscutível que as atividades humanas estão causando mudanças climáticas, tornando eventos extremos como ondas de calor, chuvas torrenciais e secas mais frequentes e severas.” apontou Paulo Artaxo. 

Outro aspecto inovador do documento é a linguagem, mais enfática e direcionada do que nos anteriores, clamando por medidas imediatas em grande escala para reduzir emissões de gases de efeito estufa. Muitas das mudanças já são irreversíveis, mas podem ser mitigadas. O cumprimento dos objetivos do Acordo de Paris, por exemplo, pode ser a diferença entre termos, para 2100, um aquecimento médio de 1,5°C, no melhor cenário, ou de 4,3°C se nada for feito. “Os relatórios do IPCC têm papel importante na criação de pontes entre a ciência e a política” destacou Thelma Krug. 

Um dos efeitos mais diretos do aquecimento é a elevação do nível do mar, consequência do derretimento das calotas polares. Em uma das previsões de mais longo prazo, estima-se que até 2300, o potencial de aumento dos níveis oceânicos chega a 15 metros, o que traz implicações gravíssimas para todas as áreas litorâneas do globo. 

Relação entre o global e o regional 

O relatório também enfatizou estas conexões. As alterações nos ciclos hídricos são de especial atenção para a América do Sul, “que muito provavelmente assistirá a um crescimento nos níveis de chuva a noroeste (Colombia, Peru e Equador) e sudeste (Paraguai, Uruguai, norte da Argentina e sul-sudeste do Brasil). Ao mesmo tempo, é também provável a intensificação das secas no Nordeste e nas áreas centrais do Brasil, bem como no Chile e sul do Peru” ressaltou Lincoln Alves em sua apresentação. 

Esses dados são economicamente muito relevantes para o Brasil, uma vez que apontam para problemas na produção agrícola do país, seja no agronegócio ou na agricultura familiar. A intensificação da seca na região amazônica dificulta também o controle de queimadas, aumentando o desmatamento e criando um ciclo vicioso, no qual a floresta sequestra cada vez menos carbono e acaba se tornando mais uma emissora desse elemento para a atmosfera. Por outro lado, a maior precipitação no Sudeste indica que desastres naturais, como inundações e deslizamentos, podem se tornar cada vez mais frequentes. 

As metrópoles também foram analisadas do ponto de vista local. “É sabido que as cidades são hotspots de aquecimento, devido à verticalização, à falta de cobertura vegetal, aos efeitos do trânsito e da poluição do ar. Isso é particularmente relevante quando consideramos a estimativa de 80% da população mundial vivendo em cidades até 2050 ” disse José Marengo, destacando a importância de soluções verdes para os grandes centros urbanos. 

Uma novidade trazida desta vez pelo IPCC foi a criação de um Atlas Interativo, que permite ao usuário uma busca mais localizada de dados, podendo ser acessado por qualquer pessoa – o que pode contribuir para uma maior agilidade na elaboração de políticas públicas. 

Discussão 

O webinário contou com ampla participação do público nas perguntas para os convidados. Foi repetidamente enfatizado pelos palestrantes que o papel do IPCC é apresentar os dados que podem ser utilizados como orientação para os governos, mas destacando que o IPCC não formula políticas públicas nem impõe mudanças. Thelma Krug destacou que o Painel tem apenas 12 funcionários – todos os cientistas que elaboram os estudos o fazem voluntariamente.

Foi feito um breve panorama da evolução do órgão ao longo dos anos, o crescimento no número de participantes e a maior complexificação dos dados em relação a documentos anteriores. Um exemplo disso é que pela primeira vez gases com meia-vida curta foram considerados separadamente. O metano é o principal desses gases e o Brasil responde por grande parte das emissões mundiais. A redução desses níveis pode contribuir muito para frear o crescimento das temperaturas em um curto espaço de tempo. 

Foi lembrado também que este relatório é um precursor de outros dois documentos, cuja publicação é esperada para o ano de 2022 e que entrarão mais a fundo nos impactos e nas possíveis mitigações para o aquecimento global. Com relação a medidas a serem adotadas pelo Brasil, estas devem seguir diretrizes gerais que valem para o resto do mundo: acelerar a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis, estancar o desmatamento, sobretudo na Amazônia, e adaptar as economias urbana e rural para os efeitos futuros das mudanças climáticas. 

O relatório completo do grupo de trabalho 1 (WG1) do IPCC pode ser acessado aqui. 

O webinário na íntegra pode ser assistido no canal da ABC no YouTube. 

Segundo dia de atividades do InnScid + TWAS 2021 tem participação de Acadêmicos

Nesta quinta-feira (5/8) ocorreu o segundo dia de atividades da InnSciD SP + TWAS 2021. O evento é uma parceria entre a Escola de Diplomacia de Inovação e Ciência de São Paulo (InnSciD SP) da USP e Academia Mundial de Ciências para o avanço da ciência nos países em desenvolvimento (TWAS). O tema central das discussões é a diplomacia científica e como as relações internacionais moldam o desenvolvimento de pesquisa e inovação. 

A pandemia da COVID-19 trouxe a prática científica para o centro das discussões e deixou claro que a cooperação entre países é crucial para obter melhores resultados em um curto espaço de tempo. O workshop foi idealizado com o intuito de estabelecer o conceito de diplomacia científica e discutir os principais problemas enfrentados pela área.  

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) participou ativamente da organização do evento ao lado da TWAS. Esta segunda manhã de apresentações contou com alguns membros da ABC. 

Dimensão internacional das políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação 

Luiz Davidovich, presidente da ABC

Iniciando o dia de palestras, o presidente da ABC e secretário-geral da TWAS Luiz Davidovich conceitualizou a diplomacia científica como a atuação conjunta da comunidade internacional para a produção de conhecimento. Ele explicou que a ciência oferece valores universais, que podem servir para aproximar diferentes culturas e que os principais desafios da humanidade atualmente dependem de respostas científicas e internacionais. “Problemas em um país se tornam rapidamente globais”, apontou Davidovich, falando sobre o novo coronavírus. 

Vivemos em um mundo desigual e as inequidades tendem a se refletir nas diferentes áreas da ciência e tecnologia. O acesso à saúde, água, comida, energia elétrica, bem como outras necessidades básicas exibe um padrão muito claro de distribuição que está relacionado ao grau de desenvolvimento científico. Para superar esse ciclo vicioso de desigualdade é preciso colaboração, e nesse ponto foi enfatizado o papel de organizações internacionais e, particularmente, das Nações Unidas. Davidovich destacou que “países não investem em ciência porque são ricos, mas são ricos porque investem em ciência”. 

O palestrante apresentou exemplos de cooperação internacional e diplomacia científica em ação. “O Tratado Antártico é talvez o mais emblemático, onde todos os países que reclamavam territórios no continente se comprometeram a ocupar suas posses com expedições científicas, ao mesmo tempo que estabeleceram acordos de paz e não militarização”, apontou Davidovich. Existem diversos outros casos que atravessam fronteiras e, muitas vezes, antagonismos históricos, e mostram como a ciência pode servir de base para a diplomacia em seus diversos aspectos. 

Durante as perguntas do público, os temas discutidos foram aprofundados e algumas questões objetivas foram citadas como empecilhos para uma maior equidade científica. “As publicações científicas são um exemplo prático: o preço para se publicar em uma revista de ponta é proibitivo para países em desenvolvimento, o que leva a uma literatura enviesada para a ciência feita nos grandes centros”, argumentou Davidovich. 

Circulação de cérebros: a importância e os desafios da mobilidade científica 

Elisa Pereira Reis, membro titular da ABC

A segunda atividade do dia tratou da mobilidade científica. O tema foi abordado a partir do problema da fuga de cérebros, que tende a contribuir ainda mais para a desigualdade entre os grandes centros e as periferias da ciência. 

O painel contou com a participação da socióloga Elisa Pereira Reis, membro titular da ABC, que analisou a perda de cientistas para países desenvolvidos como um fenômeno antigo e cujas consequências foram mitigadas com a hiper conectividade do mundo moderno. “Antes, um pesquisador que emigrava tendia a perder contato com a comunidade científica local; porém, com o novo cenário tecnológico, cada vez mais essa relação é mantida e esses cientistas se tornam pontes entre seu país de origem e os grandes centros”, completou a Acadêmica.

A fala da pesquisadora foi toda no sentido de promover o intercâmbio científico e de reforçar laços entre os países. Elisa Reis salientou que “a comunidade científica deve transcender fronteiras e os países que se beneficiam da chegada de cérebros devem também agir por isso, encorajando que mais cientistas busquem trabalhar em países emergentes”. Reis observou que, no entatno, “para obter resultados consistentes a diplomacia científica depende não apenas de pessoas, mas de instituições”. 

Também participaram do evento a professora Ana Maria Carneiro, do Núcleo de Estudos em Políticas Públicas da Unicamp (NEPP/Unicamp), que ofereceu uma conceitualização e um panorama histórico do problema; e Slaven Misljensevic, membro da Comissão Europeia para elaboração de políticas públicas, que trouxe um pouco da experiência da União Europeia com a mobilidade científica dentro do continente. 

O tema da mobilidade científica foi debatido e estudantes de diversas partes do mundo tiveram a oportunidade de ponderar sobre as razões e consequências da emigração de cérebros. Por fim, Elisa Reis destacou o que acredita ser o foco das discussões: “o desafio da diplomacia científica é convencer países que a ciência é um bem coletivo”. 

O InnSciD SP – TWAS 2021 continua até o dia 13 de agosto com mais palestras e discussões sobre a diplomacia científica. 

Alguns dos participantes do painel “Circulação de cérebros: importância e desafios para a mobilidade científica”

Leia todas as matérias da ABC sobre o evento:

Cerimônia de abertura do InnScid reúne cientistas em debate

Introdução à diplomacia científica

Diplomacia científica 2.0

Painel Science Diplomacy Trail abre a segunda semana do InnScid + TWAS 2021

Painel do InnScid + TWAS 2021 tem participação de Acadêmicos

Cientistas planejam próximos passos na cerimônia de  encerramento do InnScid + TWAS 2021

 

Vacinar é preciso, viver é impreciso

Confira trechos do artigo escrito pelo professor do Instituto de Química da Unicamp Luiz Carlos Dias, membro titular da ABC. O texto, publicado em 5/8 no Jornal da Unicamp, esclarece algumas importantes dúvidas atuais sobre a pandemia e a vacinação contra a COVID-19: 

O Acadêmico Luiz Carlos Dias

O mundo está observando queda nos casos de internações, de ocupação de leitos de UTI e de óbitos causados pela COVID-19, resultado do aumento da vacinação em massa, acompanhado do uso de máscaras e medidas de distanciamento físico, mesmo num momento de relaxamento das restrições. Nos países onde se observa aumento no número de casos, isto está acontecendo principalmente nas populações não vacinadas. Nós estamos observando algo semelhante no Brasil, com a pandemia entrando em uma nova fase. É urgente acelerar a vacinação e garantir um regime de imunização completo para a população brasileira e mundial, pois o percentual de não-vacinados ainda é muito alto e esses estão vulneráveis à infecção pela variante Delta, correndo risco de desenvolver formas graves da COVID-19, podendo necessitar de atendimento hospitalar, o que pode levar a aumento do risco de óbitos. 

Vacinação deve ser pacto coletivo 

Só a vacinação em massa controlará a pandemia e propiciará a retomada econômica. As vacinas contra a Covid-19 só serão de fato eficientes se houver alta adesão da população. Vacinado você tem um grau de proteção individual, mas a vacinação deve ser um pacto coletivo. Com pessoas vacinadas com o ciclo completo de duas doses ou com a dose única da Janssen, todas e todos ficam mais protegidos, inclusive quem não pode se vacinar por razões médicas. Como o objetivo de todas as vacinas contra a COVID-19 é reduzir casos graves, hospitalização e morte, caso você seja infectado, mesmo vacinado, terá maior chance de ter um caso de COVID-19 mais leve, além de ter mais oportunidades de atendimento nos hospitais, pois as UTIs estarão mais vazias caso seja necessário. No final, a maior taxa de vacinação leva a menor número de casos graves e de óbitos pela doença. 

Mas, muita atenção: não é momento de relaxar nas medidas não-farmacológicas 

Nós não temos evidências e nem justificativas para relaxar nas medidas não farmacológicas como o uso de máscaras, distanciamento físico e hábitos de higiene das mãos. Precisamos manter essas medidas de controle sanitário e evitar locais fechados com aglomeração e pouca ventilação. É preciso rever as medidas de restrição, pois não pode haver precipitação, visto que relaxar nesse momento, com alta circulação e espalhamento rápido da variante Delta, é muito perigoso e precisamos evitar que pessoas vacinadas corram o risco de voltar a fazer parte de uma cadeia de transmissão do vírus. Isso poderá levar a um recrudescimento da crise sanitária, com aumento acelerado de infecção entre os não vacinados e com consequente aumento da infecção inclusive nos grupos vacinados, mesmo aqueles com as duas doses, independente da vacina. A variante Delta é bem mais infecciosa que o vírus original e mais transmissível que a variante Gama, deixando as pessoas infectadas com uma carga viral muito mais elevada

A vacinação no Brasil está lenta, mas acelerando. Dados do dia 4/8 mostram que 147.698.704 milhões de doses foram aplicadas, sendo que 104.049.682 milhões de pessoas (49,14% da população brasileira) tomaram a primeira dose e 43.649.022 milhões de pessoas (20,61% da população) tomaram a segunda dose ou dose única da vacina da Janssen desde o dia 17/01/2021. As pessoas que não tomam suas vacinas, independente da razão, colocam em risco todas e todos no seu entorno, prejudicam o programa de vacinação e a luta contra a COVID-19. 

Quem tomou a primeira dose tem que voltar para a segunda dose 

Com o avanço da vacinação, a média móvel de mortes por COVID-19 segue em uma tendência de queda, mas segundo dados do Ministério da Saúde divulgados no último dia 28/7, cerca de 4,6 milhões de brasileiras e brasileiros não voltaram para tomar a segunda dose e completar o ciclo de imunização. Vamos voltar, gente. Se você conhece alguém que não voltou, converse e mostre a importância de tomar a segunda dose. Como nessa pandemia nós nunca tivemos uma campanha nacional de conscientização da população brasileira por parte do governo federal, então tem que ser na unha mesmo, tem que ser de baixo pra cima. A recomendação para as secretarias de saúde é fazer busca ativa dessas pessoas, entrando em contato por telefone ou até enviando profissionais da área de saúde nos endereços cadastrados quando essas pessoas tomaram a primeira dose, mas fazer busca ativa de 4,6 milhões de pessoas é dose, né? Então vamos nos juntar a essa luta. 

E quanto às variantes de atenção e preocupação?  

Até o momento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou quatro variantes como sendo de atenção ou de preocupação. A variante Alfa está presente em 182 países, a Beta em 131, a variante Gama em 81 países e a Delta chegou a 132 países. A variante Delta preocupa e é responsável pelas novas ondas de infecções em Israel, Reino Unido, Estados Unidos, China e Indonésia. 

Com o aparecimento da variante Delta, mais transmissível e com maior capacidade de escapar da resposta do nosso sistema imunológico, nós vamos precisar vacinar um número maior de pessoas para diminuirmos o percentual de pessoas suscetíveis, impedindo o vírus de circular entre as pessoas mais suscetíveis. Um relatório do CDC, divulgado pelo jornal The Washington Post mostra ainda que a variante Delta é mais transmissível que o ebola e a varíola, pode infectar pessoas já vacinadas e causar doenças mais graves nas pessoas não vacinadas, quando comparada com as outras variantes de coronavírus anteriores e que tanto os vacinados como os não vacinados infectados pela Delta transmitem o vírus. 

O relatório confirma que as vacinas permanecem eficazes, principalmente após a aplicação de 2 doses, como outros estudos vem mostrando, vejam este estudo britânico  e este outro estudo. Os dados mostram que apenas pequenas diferenças na eficácia das vacinas contra a COVID-19 foram observadas com a variante Delta em comparação com a variante Alfa após o recebimento de duas doses das vacinas. As diferenças na eficácia das vacinas foram mais marcantes após o recebimento da primeira dose. Esses resultados mostram a importância da vacinação e que as pessoas precisam do esquema completo de duas doses. As vacinas existentes ainda funcionam contra a variante Delta, mas podem ser menos eficazes especialmente entre pessoas em que a resposta imune não seja suficientemente robusta após a vacinação, como os mais idosos e pessoas com comorbidades que tenham imunidade comprometida. 

(…) 

Terceira dose ou dose de reforço? Qual a diferença 

Primeiro, vamos esclarecer o que é terceira dose e o que é dose de reforço. A terceira dose consiste na aplicação de uma dose extra que serve para complementar um único ciclo de vacinação, algumas semanas após a aplicação da segunda dose. Uma dose de reforço, que pode ser com a mesma vacina aplicada anteriormente ou pode envolver outra plataforma vacinal, é aquela vacina que é aplicada anualmente ou com alguma periodicidade, para reforçar o primeiro ciclo de imunizações e assim por diante. 

No momento, nós não temos dados científicos mostrando que vamos precisar de uma terceira dose ou reforço vacinal para qualquer uma das vacinas contra a COVID-19. Nós ainda não temos resultados que comprovem a eficácia de uma dose de reforço, nem dados mostrando que isso seja necessário ou até benéfico. Então, temos que esperar os resultados dos estudos científicos sendo realizados, pois as decisões sobre a estratégia de vacinação futura devem ser baseadas em evidências científicas robustas. Nós não devemos simplesmente pensar que quanto mais doses de vacinas tomarmos, mais estaremos protegidos. 

Os especialistas lembram que a resposta imunológica contra qualquer antígeno de qualquer vacina, tende a cair depois de um tempo, e no caso da COVID-19, a Ciência ainda está tentando entender como essa queda acontece, depois de quanto tempo e qual o efeito de cada nova variante de atenção. 

Embora a vacinação esteja acelerando no Brasil, como colocado anteriormente, o grau de imunização coletiva ainda é insuficiente para termos uma queda sustentada na disseminação e espalhamento do vírus. Nós chegamos a 49,14% da população brasileira vacinada com a primeira dose e 20,61% da população que tomou a segunda dose ou a dose única da vacina da Janssen. Isso no período de 6 meses e meio, então nós precisamos acelerar ainda mais a vacinação. 

O importante é realizar estudos para identificar quais populações são mais vulneráveis à reinfecção pelas novas variantes ou mesmo a terem sintomas mais graves da doença, mesmo tendo sido vacinados com duas doses de qualquer vacina ou com a dose única da Janssen. Pode ser sim que uma terceira dose seja necessária, principalmente para pessoas imunossuprimidas, que fizeram transplantes de órgãos sólidos, pessoas mais idosas, pessoas com o sistema imunológico mais comprometido e profissionais da área de saúde, que estão mais expostos. 

É muito importante esclarecer esse ponto para não levar mais insegurança para a população. Alguns países europeus estão sim adotando uma terceira dose, sendo que Israel decidiu vacinar a população acima de 60 anos com uma terceira dose. Esses países estão bem mais avançados que o Brasil no ritmo de vacinação e a variante Delta está contaminando os não vacinados, e pode vir a infectar também os vacinados, principalmente os mais suscetíveis. 

No Brasil, o Ministério da Saúde encomendou um estudo que será conduzido pela Universidade de Oxford, com o objetivo de avaliar a necessidade de uma dose de reforço ou de uma terceira dose de vacinas contra a COVID-19. O estudo envolverá 1.200 voluntários maiores de 18 anos, que já tomaram as duas doses da vacina CoronaVac e vão tomar uma terceira dose de uma das quatro vacinas em uso no país: CoronaVac, AstraZeneca, Janssen ou Pfizer. 

O Butantan não vai participar destes estudos clínicos, mas avalia a aplicação de uma dose adicional da CoronaVac nos moradores da cidade de Serrana, no interior de São Paulo, onde foi realizado estudo com vacinação em massa que vem mostrando resultados fantásticos. O Butantan informou também que estuda a possibilidade de um reforço anual da vacina, o que não deve ser confundido com uma terceira dose, para ampliar a eficácia da CoronaVac. No caso de uma terceira dose das vacinas da AstraZeneca, Janssen e Pfizer, o objetivo é determinar qual a melhor opção como reforço vacinal para quem tomou as duas doses da CoronaVac. Este será um estudo de intercambialidade ou de vacinação heteróloga, pois envolve plataformas diferentes. 

(…) 

O que nós temos de fazer nesse momento é vacinar todo mundo rapidamente para reduzir a circulação do vírus, os casos graves e óbitos. E nesse sentido as vacinas estão dando uma resposta maravilhosa e extraordinária e estão mostrando o caminho para sairmos da pandemia. As vacinas sozinhas não vão fazer parar a transmissão comunitária, então as pessoas precisam continuar a usar as máscaras, ficar em lugares bem ventilados, fazer higiene das mãos, manter o distanciamento físico e evitar aglomerações e locais com pouca ventilação. Também é fundamental testar para isolar os infectados e seus contatos.   

Vacinar é preciso; vacinar é viver; viver é impreciso. 

Confira o artigo na íntegra no Jornal da Unicamp 

Science20 publica declaração conjunta alertando para prevenção de pandemias

Como preparação para a reunião da cúpula do G20 (Grupo dos 20) – constituído por ministros da economia e presidentes de bancos centrais dos 19 países de economias mais desenvolvidas do mundo, mais a União Europeia – que acontece nos dias 30 e 31 de outubro em Roma, Itália, as academias de ciências dos países membros (Science20) divulgaram a declaração conjunta “Preparação para Pandemias e o Papel da Ciência”. A vice-presidente Helena B. Nader foi a responsável por acompanhar a elaboração do documento por parte da Academia Brasileira de Ciências (ABC), contando também com o apoio do GT Futuro da Saúde nas etapas iniciais do processo.

Todos os anos, o Science20 se reúne em torno de um tema relevante para criar diretrizes que são apresentadas aos líderes do G20. Em 2021 os esforços foram liderados pela Accademia Nazionale dei Lincei, que representa a Itália, anfitriã do evento. 

A declaração alerta para a necessidade da criação de uma rede global de prevenção de pandemias capaz de identificar rapidamente surtos epidêmicos e que estimule a colaboração internacional e o compartilhamento de dados. Também urge a cooperação tecnológica, sobretudo auxiliando países em desenvolvimento na obtenção de vacinas, medicamentos, testes e equipamentos necessários para o controle pandêmico. 

Por fim, é ressaltada a importância de um Acordo Internacional de Preparação e Gestão Pandêmica, que discuta erros e acertos relacionados ao novo coronavírus e reforcem o Regulamento Sanitário Internacional (2005), de forma a torná-lo mais eficiente e integrado para oferecer respostas globais a crises de saúde. 

Neste ano, organizações ligadas às ciências sociais e humanidades dos 20 países membros (SSH20) também elaboraram uma declaração conjunta com o tema “Crises: economia, sociedade, legislação e cultura na busca por uma humanidade menos vulnerável”. O Brasil foi representado pela Academia Brasileira de Letras (ABL). 

O documento completo do S20 pode ser acessado aqui. 

Agricultura e Conhecimento: temas do 41º Webinário da ABC

Os participantes da 41ª edição dos Webinários da ABC: Murilo Flores, Elibio Leopoldo Rech Filho, Alysson Paolinelli e Roberto Rodrigues

Na tarde do dia 3 de agosto foi realizada a 41ª edição dos Webinários da ABC e o tema da vez foi “Agricultura: gerando riqueza com base no conhecimento”. O evento contou com a presença dos ex-ministros da agricultura Alysson Paolinelli e Roberto Rodrigues, e do ex-presidente da Embrapa Murilo Flores. A mediação ficou a cargo de Elibio Leopoldo Rech Filho, pesquisador da Embrapa e diretor da Academia Brasileira de Ciências. 

Enquanto o tema da segurança alimentar volta a ganhar destaque com o aumento da demanda mundial, o desequilíbrio climático e os riscos à biodiversidade trazem à tona a necessidade de se tratar com mais seriedade a questão ambiental. Enfrentar essas duas problemáticas é o desafio atual da agropecuária brasileira, e a ciência e tecnologia tem papel central nesses esforços. 

Histórico da agropecuária brasileira 

O primeiro palestrante foi o ex-ministro Alysson Paolinelli, premiado com o World Food Prize em 2006 e recentemente indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 2021. O agrônomo fez uma breve introdução histórica do abastecimento mundial de alimentos, contextualizando os fatores que inflacionaram os preços na década de 70, atingindo severamente o Brasil.  

“Naquela época o Brasil não possuía tecnologia para ser autossuficiente no setor. A resposta para a crise foi um alto investimento em pesquisas e tecnologia, com a criação da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias] e a capacitação de uma nova geração de profissionais, além do desenvolvimento de infraestrutura e o estímulo a cooperação público-privada”, relatou Paolinelli.  

O país viu o número de instituições de pesquisa na área dobrarem e viabilizou grandes áreas de cerrado à produção agropecuária, equiparando sua produtividade a de grandes centros mundiais. “Foi espantoso para nós a velocidade da mudança, eu fiquei surpreso com o que ocorreu nos cinco anos em que o Cerrado foi trabalhado física, química e biologicamente”, destacou o ex-ministro. 

Números e desafios atuais do agronegócio

O  ex-ministro Roberto Rodrigues ressaltou o retorno da questão da segurança alimentar para o centro do debate no mundo. “Organizações internacionais estabeleceram metas para o tema que só podem ser cumpridas com uma ampla participação brasileira”, afirmou. Rodrigues destacou que o país pode e deve servir de espelho para o desenvolvimento agrícola de outras regiões tropicais e apresentou alguns números de resultados obtidos nas últimas décadas. 

O agrônomo exemplificou alguns dos esforços na melhora de produtividade e o aumento da participação do setor na economia brasileira, explicando as bases econômicas que permitiram esse progresso e afirmando que ainda existe potencial de crescimento. Com relação a questão ambiental, citou o que acredita serem os pontos fracos da legislação brasileira e enfatizou a necessidade de uma maior fiscalização, com atuação séria contra as ilegalidades que vêm se alastrando, sobretudo na região amazônica. 

Sobre o futuro do agronegócio, Rodrigues defendeu que é possível antever um cenário em que a pressão dos próprios consumidores por sustentabilidade molde as práticas produtivas. “É uma tendência que a iniciativa privada participe cada vez mais do processo e  isso demanda uma reestruturação institucional e legislativa”. declarou o ex-ministro, salientando a importância das cooperativas e de acordos internacionais de comércio. 

Papel das pesquisas públicas e privadas na agropecuária

Murilo Flores, ex-presidente da Embrapa, contextualizou os processos de transformação de terras improdutivas em produtivas que ocorreram no Brasil. O pesquisador citou mudanças que estão ocorrendo nos hábitos alimentares e prioridades dos consumidores, ressaltando a importância de se perseguir uma produção mais sustentável. 

Com relação à pesquisa, ele destacou a entrada maciça do capital privado nas pesquisas a partir da década de 90, estimulada sobretudo pela Lei de Patentes (1996) e pela Lei de Proteção de Cultivares (1997). Flores argumentou que essa tendência se mantém ainda hoje e que é necessário redefinir os modelos de participação pública e privada nos investimentos, definindo áreas estratégicas para participação do Estado. 

O palestrante destacou três grandes ativos brasileiros para o desenvolvimento do setor: uma robusta estrutura produtiva construída nos últimos 50 anos, uma rede de ciência e tecnologia cada vez mais ampla e diversificada e a enorme biodiversidade do país.  

Para finalizar, Flores trouxe uma questão importante que é pouco abordada, que são os trabalhadores rurais na periferia dessa economia. “Há uma grande interrogação: o que fazer com milhões de pequenos agricultores que estão à margem desse processo: Qual o encaminhamento que a sociedade pode dar a essa situação? Esse é um grande desafio para o desenvolvimento de nosso espaço rural”, concluiu. 

Debate 

O primeiro grande foco de debate foi a participação dos setores público e privado no desenvolvimento de ciência e tecnologia agrícola. O presidente da ABC Luiz Davidovich ilustrou a questão com exemplos internacionais de aplicação de recursos e perguntou sobre perspectivas futuras para o agronegócio brasileiro, tendo em vista novas tendências globais.  

Roberto Rodrigues respondeu que o interesse da iniciativa privada fica mais restrito a produtos muito visados como soja, algodão, café e milho. Segundo o ex-ministro, ainda existem poucos estudos em diversos outros mercados potenciais, destacando o papel que o Estado poderia cumprir investindo em pesquisas relacionadas a essas áreas. Nessa linha, Murilo Flores reiterou o que havia dito sobre investimentos públicos em áreas estratégicas, com ênfase em pesquisa de base. Apontou também que iniciativas deste tipo devem ser acompanhadas por uma maior permeabilidade para recursos privados nos setores de maior interesse econômico. 

Outro tema recorrente foi a questão ambiental. Os debatedores afirmaram que o Brasil ainda conhece pouco seus biomas e que avança devagar na criação de uma bioeconomia que sirva aos interesses das populações locais. A Acadêmica Mercedes Bustamante participou das discussões, contextualizando alguns dados fornecidos pelos participantes e argumentando que o setor agrário ainda dialoga pouco com as ciências ambientais. Os debatedores mantiveram críticas feitas a alguns pontos da legislação florestal. O presidente da ABC informou que a ABC tem estudos recentes e bastante aprofundados sobre estes temas e citou alguns, disponíveis gratuitamente no site da ABC: o documento sobre o Código Florestal (2011), construído junto com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), alguns capítulos do Projeto de Ciência para o Brasil e o livreto Biomas e Agricultura (2019), produzido em parceria com a Fapemig. 

Com relação às crises climática e hídrica, cujos efeitos já são sentidos em vários segmentos agrícolas, foi destacada a urgência do tema, elencadas prioridades que devem ser estipuladas e áreas com potencial de desenvolvimento. Em particular, foi observado que a criação de peixes ainda é bastante subdesenvolvida para o país que possui as maiores bacias hidrográficas do mundo. 

Outro tópico debatido foi a utilização de inteligência artificial no aumento da produtividade. Rodrigues esclareceu que muita coisa já está em funcionamento, com agricultura de precisão e mecanização do campo, e apontou que a infraestrutura é muitas vezes insuficiente. “A falta de conectividade rural afeta de forma desigual os pequenos agricultores, que não conseguem ter cobertura de internet em todo seu território. Esse ponto ainda é um empecilho para o aumento de produtividade”, observou. Foi destacado o papel que as cooperativas podem desempenhar para solucionar essa questão de conctividade.

As atividades foram encerradas pelo presidente da ABC, que agradeceu aos participantes e ressaltou a importância do tema. 

Confira a íntegra do Webinário no YouTube da ABC. 

Comunicação Científica é tema de mais uma edição das Mentorias da ABC

Os participantes da mentoria (1/2)

No dia 30 de julho foi realizada mais uma edição das Mentorias da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e o tema da vez foi “Comunicação Científica”. O evento contou com a participação de diversos afiliados e ex-afiliados da ABC e também teve inscrições abertas ao público. 

O evento foi organizado pela afiliada Jaqueline Mesquita e a mediação ficou por conta de Elisa Oswaldo-Cruz Marinho, gerente de comunicação da ABC. As apresentações foram feitas pela jornalista Catarina Chagas, uma das autoras do livro “Manual de sobrevivência para divulgar ciência e saúde”; e pelo jornalista Herton Escobar, atualmente no Jornal da USP, que trabalhou com cobertura científica por 20 anos no jornal O Estado de São Paulo. 

Palestras 

A primeira apresentação foi feita por Catarina Chagas, que debateu alguns dados recentes sobre a percepção dos brasileiros quanto à ciência e tecnologia. Os números apontam para uma ideia majoritariamente positiva, porém superficial, do que é o trabalho científico, destacando que a grande maioria dos entrevistados não sabia citar um cientista ou instituição de pesquisa brasileira relevante. 

Ela também elencou alguns pontos importantes para se ter em mente na hora de divulgar ciência. “É crucial entender o público para o qual se fala, sabendo que o cientista não é o único ator discutindo esses temas e, portanto, não será o único a exercer influência no modo de pensar da população”, ressaltou Catarina. Por fim, ressaltou que fornecer ferramentas para tomada de decisões é mais eficaz do que simplesmente impor uma ideia que deve ser aceita. 

Herton Escobar destacou as diferenças entre divulgação científica e jornalismo científico. Embora a zona de atuação das duas áreas seja muitas vezes convergente, lidam com coisas distintas. “Nem tudo que é cientificamente importante é notícia, e vice-versa”, explicou. 

Escobar destacou  que o jornalismo científico de qualidade é crucial numa época de desinformação, que é preciso disputar a atenção do público contra correntes de pensamento anticientífico. “A pandemia deixou isso muito claro ao trazer para a luz tratamentos e práticas sem comprovação, mas que foram muito difundidas por partes interessadas”, ilustrou. 

Debate 

Após as apresentações foi aberto espaço para comentários e perguntas do público. 

O primeiro tema que surgiu foi a questão da simplificação de informações: até onde ir? Os convidados relembraram a necessidade de conhecer seu público e entender até onde descomplexificar um assunto pode ser didático ou paternalista. 

Aproveitando o comentário de um participante, que lembrou das dificuldades institucionais de se implementar práticas de divulgação dentro das universidades, a mediadora sugeriu a criação de uma rede integrada com as assessorias de universidades e institutos públicos. Elisa ressaltou a importância da interação para a especialização dos profissionais. “Essas assessorias poderiam se tornar grandes laboratórios para estudantes de jornalismo”, apontou. 

Com relação à difusão da ciência na mídia, os palestrantes afirmaram que o jornalismo científico pode ser feito pelas próprias instituições de pesquisa, sem depender da grande mídia para interlocução com o público. Essa prática permitiria uma maior independência no que se divulga, e pode, não obstante, render pautas para os jornais de maior circulação. Um participante expressou preocupações de que a utilização na íntegra dos materiais produzidos por jornais universitários poderia ser considerada “parasitária”. Herton Escobar discordou da afirmação, enfatizando que a divulgação da ciência para um público amplo deve ser estimulada. “O importante é que a ciência feita nas universidades, com dinheiro público, repercuta na sociedade. Se os jornais ganham com isso, ótimo. É  bom para todos os envolvidos”.

Os debatedores citaram projetos de sucesso em comunicação científica no Brasil e no mundo. Catarina Chagas acredita que a oferta de cursos e oportunidades de especialização vem crescendo no país e outros participantes lembraram as recentes alterações curriculares nas universidades que deram bastante destaque a prática da extensão, espaço considerado no debate de grande interesse para cursos de comunicação e divulgação de ciência. 

Uma pergunta surgiu sobre a ênfase dada pelo jornalismo científico aos resultados em detrimento dos métodos, que se torna um problema quando inverdades começam a circular amparadas em metodologias erradas. Catarina e Elisa reconheceram a atualidade do tema e enfatizaram a necessidade de desenvolver nas pessoas senso crítico que lhes permita diferenciar estudos fortes e fracos. Herton complementou que isso é necessário, porém complicado num mundo em que a informação é muitas vezes superficial e que, dependendo do assunto, um argumento de autoridade pode ser a forma mais rápida de convencimento. 

Por fim, a coordenadora agradeceu a todos os participantes pelo interesse e destacou que eventos similares estão sendo pensados para o futuro.

Assista ao evento na íntegra pelo canal da ABC no YouTube.

 
Os participantes da mentoria (2/2)

Década Oceânica foi o tema do 40º Webinário da ABC

Os participantes da 40ª edição dos Webinários da ABC: Almirante Ilques Barbosa, Edmo Campos, Luiz Drude, Luiz Davidovich e Jailson Bittencourt de Andrade

 

Os Webinários da ABC chegaram à sua 40ª edição no dia 20 de julho, reunindo Acadêmicos e pesquisadores para debater a conservação dos oceanos. Intitulado “Endosso da ABC à Década do Oceano”, o webinário reuniu os Acadêmicos Edmo José Dias Campos (USP) e Luiz Drude de Lacerda (UFC), além do Almirante Ilques Barbosa, da Marinha do Brasil. O evento foi mediado por Jailson Bittencourt, vice-presidente da ABC para a região Nordeste, e contou com a participação do presidente da ABC Luiz Davidovich.

O encontro celebrou o início da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), conforme determinado pela ONU. Desde 2009, a ABC se posiciona frequentemente no debate sobre a preservação do mar territorial brasileiro – desde antes de isso ser considerado um problema pelas autoridades. A ABC participa ativamente da elaboração de documentos e manifestos internacionais e, mais recentemente, produziu seu próprio documento, que aponta os desafios para atingir as metas da Década do Oceano no Brasil. A elaboração do documento, intitulado “Década do Oceano: Declaração da Academia Brasileira de Ciências sobre a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável”, foi coordenada por Luiz Drude de Lacerda. 

A necessidade da Década Oceânica

“Estamos no limiar de uma mudança planetária gigantesca, que os cientistas já haviam previsto há algum tempo”, disse Drude, logo no início de sua apresentação, antes de apresentar como surgiu a iniciativa da Década do Oceano.

Iniciada oficialmente em 2021, a Década do Oceano foi promovida pela ONU em 2018 e foi uma das pautas debatidas na edição de 2019 do Science 20 (S20), reunião anual com os presidentes das Academias nacionais de ciências dos países do G20. A Década foi pensada em função das ameaças aos ecossistemas marinhos, riquíssimos e pouco conhecidos. Nesses eventos, concluiu-se que a preservação dos oceanos é fundamental para o desenvolvimento da humanidade.

Segundo Drude, o que reduz a velocidade da mudança nas condições ambientais planetárias é a existência de um oceano relativamente saudável. “Entretanto, ultimamente, tem ficado claro que esse oceano já não tem mais a mesma capacidade que tinha antes – de servir como “tampão” para as alterações que a humanidade vem causando no planeta”, explicou o Acadêmico. Essa redução de capacidade acarreta em problemas como a acidificação oceânica, a desoxigenação dos mares, o superaquecimento e aumento do nível do mar. Diante desses problemas, não há vencedores: do transporte de pessoas e mercadorias à produção pesqueira, todas as áreas são afetadas. “A atividade mais prejudicada por essa situação é a pesca. Há queda na qualidade dos peixes e estagnação nos níveis de produtividade. Há três décadas, os índices da produção global extrativista não aumentam”, alertou Drude. “Inclusive, a Amazônia Azul, parte do oceano sob responsabilidade brasileira, é proibida de exportar pescados in natura para a Europa devido à precariedade na qualidade do produto, afetada também pela contaminação por mercúrio e pelas condições das embarcações de pesca”, relatou.

O Acadêmico afirmou que o Brasil ainda precisa resolver muitos problemas internos para que sua contribuição para as ciências oceânicas possa ser pelo menos paritária com o tamanho da área oceânica que o Brasil dispõe hoje em sua responsabilidade. Ele apontou três ações fundamentais que o governo precisa promover para melhorar a interação do país com o oceano:

  1. A governança da ciência oceânica no país, que ainda é muito fraca. Falta um grande instituto de pesquisa na área. As ciências do mar no Brasil ainda são muito dependentes da Marinha e realizadas quase em sua totalidade em institutos de pesquisa universitários.
  2. Ampliação da capacidade observacional, não limitada apenas à participação em programas internacionais de observação oceânica. Esses programas, no entanto, auxiliam na manutenção de uma observação eficiente no território gigantesco da Amazônia Azul.
  3. Criação de uma regulamentação urgente para reverter os níveis de degradação costeira brasileira. Atualmente, há diversos ambientes costeiros degradados por tratamento inadequado de resíduos sólidos urbanos, incluindo plásticos, e águas servidas, efluentes das principais cidades litorâneas brasileiras.

Segundo Drude, ao menos a questão da regulamentação não pode ser associada à falta de recursos: “É simplesmente uma questão de falta de ação política e falta de reconhecimento da importância dessas áreas.”

 

“Será que o aquecimento global é reversível ou já atingimos um ponto sem retorno?”

A pergunta que nomeou a apresentação do Acadêmico Edmo Campos, professor emérito do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), foi explorada ao longo de sua fala.

Campos apresentou uma breve introdução ao funcionamento do sistema climático, resultado das trocas de energia entre diferentes aspectos do ambiente. Dentre estes, o impacto humano desempenha um papel fundamental. O pesquisador destacou que, se a temperatura continuar aumentando no mesmo ritmo dos dias de hoje, em 2100 a temperatura média global será a maior registrada nos últimos 10 milhões de anos. Campos alertou: “As consequências das ações humanas estão se refletindo nas águas da região abissal, a mais profunda camada do oceano, que corresponde a 70% da biosfera do planeta.”

Se a emissão de gases estufa continuar, de acordo com Campos, a Terra poderá se tornar uma estufa em pouco tempo. Complementando a fala de Drude, Campos afirmou que o oceano é o “regulador do clima”. O cientista explicou: “Durante todo esse período em que o ser humano está injetando uma grande quantidade de gases estufa na atmosfera, o oceano está subtraindo a energia resultante desse processo.” O Acadêmico afirmou que, de 1900 a 2015, o oceano sequestrou carbono equivalente a cinco bombas de Hiroshima explodindo por segundo.

Campos explicou que o oceano controla o clima em todo o planeta através de um processo lento, causado por gradientes de temperatura e salinidade, intitulado circulação termohalina. O aumento de temperatura provoca alteração na salinidade do oceano, fatalmente alterando todo o padrão de circulação. A água doce resultante do derretimento de geleiras continentais e oceânicas no Atlântico Norte podem levar a um colapso da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), que é o componente zonalmente integrado de correntes superficiais e profundas no Oceano Atlântico. É caracterizada por um fluxo para o norte de água morna e salgada nas camadas superiores do Atlântico, e um fluxo para o sul de águas mais frias e profundas, que fazem parte da circulação termohalina. “A resposta sobre a estabilidade do clima está na AMOC”, apontou Campos.

O Acadêmico afirmou que a preservação dos oceanos só virá com investigações continuadas por décadas e com efetiva colaboração internacional. “A colaboração da sociedade é importante, mas os programas decadais não podem depender só da participação dos indivíduos”, defendeu o pesquisador.

Sobrevivência e prosperidade na Década do Oceano

O Almirante de Esquadras Ilques Barbosa fez sua apresentação voltada para os desdobramentos oceanopolíticos e questões de sobrevivência atreladas à Amazônia Azul.

Ele destacou a importância da Constituição sobre Direito do Mar produzida pela ONU em 1992, responsável por impor diretrizes e promover iniciativas por parte da Marinha e de instituições globais de pesquisa e proteção do mar. No entanto, após quase 30 anos de sua criação, novas políticas precisam ser criadas. O Almirante mencionou a urgência de um ordenamento jurídico adequado para regular mais de 60 mil navios cruzando os mares, de modo a controlar crimes ambientais, alterações de rumo e o crime organizado, como tráfico de armas e drogas. Em caso de contaminação ambiental, as correntes marinhas ainda transportam o contaminante para outras áreas, espalhando-o, como no recente episódio de contaminação por óleo ao longo de todo o litoral nordeste brasileiro. Esses exemplos mostram o quão indispensável é o acompanhamento geopolítico dos oceanos.

Barbosa destacou problemas à economia marítima devido à pesca predatória, promovida por países como China e Espanha, que exploram além da capacidade de sobrevivência de determinadas regiões do oceano, incluindo a costa da América do Sul. Na região Nordeste do Brasil, os pescadores, em grande parte artesanais, não contam com financiamento ou apoio científico para localização e preservação de cardumes.

Os oceanos também asseguram a soberania nacional, por reterem cabos submarinos que conectam os países a diversos centros financeiros internacionais. Assim, preservar os oceanos e esses cabos garante a segurança dos dados de milhares de cidadãos e a segurança econômica do país.

O Almirante prevê uma mudança do padrão energético do planeta nos próximos anos. O Brasil, por exemplo, tem alto potencial de produzir outros tipos de energia não provenientes de hidrelétricas, como energia eólica e maremotriz.

O Almirante destacou a necessidade de ações de conservação dos mares para diversos setores do país, desde a economia até o turismo: “É necessário aprimorar técnicas para melhoria das águas em algumas regiões de mar aberto e áreas costeiras – um exemplo disso é a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A água chega em um estado tão ruim, tão corrosiva, que reduz significativamente a vida útil das bombas de navios mercantes, afetando a segurança das embarcações. Para progredir na vertente econômica, e também na vertente de turismo, é fundamental que a vertente ambiental seja atendida.”

Visando promover um maior controle sobre o mar territorial brasileiro, é necessário que a Marinha cresça exponencialmente. Para que isso ocorra, novas medidas precisam ser elaboradas. No Rio de Janeiro, o fruto dessa necessidade é a criação do Cluster Tecnológico e Naval do Rio de Janeiro, que possui grandes planos de expansão. Barbosa almeja que a iniciativa marque a retomada na indústria naval de turismo e lazer, além de estabelecer conexões com vários segmentos da sociedade civil. A ferramenta visa ser uma referência de articulação ordenada e sustentável das atividades econômicas relacionadas ao mar, através da reunião de empresas, governo e academia em prol da sociedade. Ele também destacou a importância apartidária do projeto. A ABC faz parte do conselho consultivo, científico e tecnológico do projeto.

O Boletim Geocorrente mencionado pelo Almirante pode ser conferido aqui.

 

Debate: One ocean, one planet, one health

Após a apresentação dos palestrantes, o moderador Jailson Bittencourt de Andrade comentou que “o homem conhece bem mais do espaço do que aquilo que está bem mais perto dele: os oceanos”. O vice-presidente da ABC para a Região Nordeste e Espírito Santo comentou que, apesar de haver a delimitação de sete continentes e quatro oceanos – agora, cinco, com o novo oceano ligado à Antártida –, no fim das contas, toda a porção de água da Terra forma apenas um grande oceano. O moderador pediu que os participantes comentassem o conceito “One ocean, one planet, one health”.

A interação do planeta com o oceano e a atmosfera foi destacada por Drude: a saúde dos oceanos está diretamente associada à saúde dos ecossistemas e dos seres humanos. “Há apenas um oceano no planeta.” O webinarista destacou que alterações no oceano global impactam no mundo todo, desde a indústria de pesca brasileira até as mudanças climáticas no Canadá. “Os oceanos acumulam calor há anos”, relatou. “Vai demorar para recuperar sua temperatura normal e a quantidade de oxigênio original.”

Segundo Edmo, “não existem vários oceanos, existe um. Mas infelizmente muitas pessoas ainda continuam com essa divisão arbitrária.”

Ilques Barbosa defendeu que essa denominação é muito mais terrestre do que oficial em si. “Nós estamos todos no mesmo barco”, disse. “O planeta Terra é um ser vivo que precisa ser cuidado por todos.” Em seu ponto de vista, de nada adiantam divisões que façam com que “um lado faça uma coisa e o outro não faça nada”. Isso claramente não dá certo, conforme disse o Barbosa, “é um exemplo disso a forma como o planeta lidou com a pandemia.”

Davidovich questionou os participantes acerca da falta de estudiosos da área de oceanografia no país.

Segundo Barbosa, a principal lacuna da área é em termos de densidade e oportunidade de trabalho. Apesar de haver programas de graduação e pós-graduação em oceanografia em praticamente todos os estados litorâneos brasileiros, falta um esforço político nessas áreas, que inclusive melhoraria a qualidade da pesca e do turismo. “Sem base científica não há como avançar politicamente”, ressaltou o Almirante.

Ele também destacou o envelhecimento dos oceanógrafos brasileiros de renome, que em breve não poderão mais exercer suas funções, e a falta de novos pesquisadores para assumirem esses postos: “O ideal é que haja mais cientistas e mais navios para consolidarem a nossa posição nessa área.”

Outro problema levantado por Edmo Campos é a má distribuição de profissionais pelas subáreas da oceanografia, apesar da formação de um número considerável de oceanógrafos. Reter os profissionais no Brasil, com as atuais condições de trabalho, também se tornou uma adversidade: Campos confidenciou que recebe com frequência pedido de colegas para indicar jovens cientistas brasileiros da área para oportunidades no exterior. “Precisamos de políticas para incentivar a permanência de jovens cientistas no país”, sinalizou o Acadêmico.

Drude mencionou que até 2005 havia três cursos de graduação em oceanografia no país, já hoje, são mais de 15. Resultado do esforço de instituições de ensino superior, da CAPES e do CNPq. Para o Acadêmico, entretanto, falta continuidade das ações que dificultam alavancar o estudo na área no país, planejando a criação de programas de pós-graduação para formar bons pesquisadores. “Ultrapassar o entrave de governança, criando políticas para o Brasil trabalhar e pensar nos oceanos em âmbito internacional também é outra alternativa”, observou o pesquisador. Ele referiu-se ainda ao Grupo de Pesquisa da ABC focado na Década do Oceano, cujo trabalho pode ser conferido aqui.


A cada duas semanas, a ABC traz um debate  inovador com pesquisadores de renome sobre diversos tópicos relacionado a ciência. Confira o evento completo em nosso canal do YouTube. Afinal, como disse o presidente da ABC, “se nós não cuidarmos dessa questão global, a civilização humana pode não sobreviver.”

 

Fiocruz e Butantan recebem o prêmio Faz Diferença 2020

A Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan, responsáveis diretos por 86,5% das imunizações no Brasil até agora, foram condecorados com o prêmio Faz Diferença 2020 na categoria “Ciência e Saúde”. A premiação é uma parceria do jornal O Globo com a Firjan. 

A presidente da Fiocruz Nísia Trindade, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, destacou a importância de ambas no combate à pandemia e ressaltou a necessidade de que se continue investindo na pesquisa pública do país. “Nesta pandemia as duas instituições vêm entregando ao SUS as vacinas, que estão efetivamente protegendo a população, e já com dados de pesquisa sobre sua efetividade, reduzindo as hospitalizações e os óbitos no país. É importante que esse ‘fazer a diferença’ continue, com o necessário reforço à pesquisa em ciência e tecnologia e aos laboratórios públicos do país”, defendeu Trindade em entrevista ao jornal O Globo. 

Confira a matéria completa no site do jornal. 

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