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Impactos da biodiversidade na saúde humana

 

Marcus Lacerda, Yvon Le Maho, Jean Luc Imler, Daniele Medeiros e João Batista Calixto

No dia 7 de junho, a sessão sobre saúde humana do Simpósio Brasil-França sobre Biodiversidade, realizado em Manaus pela ABC em parceria com a Academia de Ciências da França, reuniu especialistas com diferentes abordagens do tema.

Avanço no conhecimento requer parcerias diversificadas

O médico Marcus Vinicius Lacerda, que coordena o Centro Internacional de Pesquisa Clínica em Malária em Manaus desde 2007 e atua como diretor de Ensino e Pesquisa da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD, falou sobre doenças tropicais. Segundo ele, diversas destas doenças apresentam relevância na região amazônica. Entre elas, se destacam malária, febre amarela, leishmaniose, dengue, zika, chikungunya e doença de Chagas.
Ele falou sobre a pesquisa sobre malária, que tem uma rede de colaboração em pesquisa centrada no sudeste do país, embora a maior parte dos casos esteja concentrada ao norte. “O número de casos no Brasil vem caindo. Mas não na Amazônia”, apontou Lacerda.

Ampliar o financiamento de pesquisa para que se desenvolva realmente uma ciência da erradicação da doença é fundamental, na visão do cientista. “São poucas as drogas conhecidas que combatem a malária. A vacina tem pouca eficácia e há uma grande descrença da população em relação às possibilidades de erradicação efetiva da doença”, observou o palestrante.

Lacerda ressaltou a importância de fomentar a diversificação das parcerias em pesquisa para avançar no conhecimento sobre a doenças tropicais. Ele integra o Expert Scientific Advisory Committee (ESAC) do Medicines for Malaria Venture (MMV) e da World Wide Antimalarial Resistance Network (WWARN).

Legislação brasileira impede a pesquisa da biodiversidade amazônica

O vice-presidente da ABC para a Região Sul, João Batista Calixto , dirige o Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) em Santa Catarina. Suas principais áreas de atuação são etnofarmacologia, farmacologia autonômica e farmacologia bioquímica e molecular.

Em sua palestra, Calixto explicou que grande parte dos medicamentos é derivada de micro-organismos, plantas e animais. “Uma vez que a biodiversidade do Brasil é gigante, há grande potencial para o desenvolvimento de medicamentos a partir de produtos naturais”, apontou o Acadêmico.

Ele esclareceu que os produtos naturais são usados como fontes de agentes terapêuticos diretos, como drogas puras e como fitoterápicos. “Estes produtos servem também como matéria-prima para a elaboração de drogas semissintéticas”, disse Calixto, destacando que as plantas podem ser utilizadas como marcadores taxonômicos para a descoberta de novas drogas. “Hoje, 60 a 80% das drogas antibacterianas e anticâncer são derivadas de produtos naturais”, destacou.

No entanto, o Brasil não possui um programa robusto para explorar sua biodiversidade e gerar conhecimento científico de alto nível. E há dificuldades grandes para desenvolver pesquisas na área. Primeiro, porque não há uma legislação específica para controlar e facilitar o acesso às fontes biológicas em seus habitats naturais. Depois, porque é realmente difícil isolar, purificar e caracterizar quimicamente os compostos ativos, sendo este processo muito mais demorado do que o desenvolvimento de drogas sintéticas.

Ele citou diversos exemplos de parcerias com empresas no desenvolvimento de produtos cosméticos e fitoterápicos a partir do abacate, do babaçu, do cacau, do coco, do murumuru, do buriti, do açaí, do cajá e outros frutos.

“É importante que a legislação brasileira, em especial aquela que rege o acesso a biodiversidade, deixe de impor entraves burocráticos à pesquisa que visa o desenvolvimento de medicamentos a partir de produtos naturais”, defendeu Calixto.
Ele reforçou, por fim, a necessidade de um projeto estratégico de longo prazo do Governo Federal que ofereça condições adequadas para os pesquisadores terem acesso ao conhecimento genético para propósitos científicos e para inovação tecnológica, com facilidades para a geração de patentes.

Novos arbovírus introduzidos no país impactam a saúde pública

A pesquisadora em saúde pública do Instituto Evandro Chagas, em Belém do Pará Daniele Barbosa Medeiros é membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (2018-2022).

Ela explicou que as arboviroses apresentam forte impacto na saúde pública brasileira. “Surtos recentes de chikungunya, zika, e febre amarela são exemplos disso, e novas introduções de doenças podem acontecer”, alertou.

Além de enfoques de cunho médico, abordagens ambientais são essenciais para o entendimento dos ciclos de transmissão e de estratégias de mitigação dos impactos de arboviroses. “Para melhor compreender o comportamento destas doenças, é importante prestar atenção à Amazônia”, observou, destacando que antes do surto de febre amarela de 2016 o último caso registrado da doença no país havia ocorrido em 1942. “E o surto ocorreu muito mais amplamente na região amazônica, porque o vírus se adaptou muito bem ao ecossistema”, alertou a pesquisadora, apontando que isso pode acontecer com outros arbovírus mais à frente.

Drástica redução na população de pinguis-rei

O ecofisiologista francês Yvon Le Maho é diretor emérito de Pesquisa da Universidade de Strasbourg. Seu trabalho trata da adaptação de vertebrados marinhos às mudanças ambientais, com foco nos impactos do aquecimento global na população de pinguins-rei.

A biodiversidade é uma valiosa e ainda pouco explorada fonte de informação biomédica. Estudos envolvendo animais como ursos e pinguins-rei com o uso de robôs têm servido como exemplos de como podemos aprender a partir da fisiologia de organismos de vida livre.

Seus resultados de pesquisa indicam uma queda de 40% nos nascimentos destes pinguins nos últimos dez anos. Além disso, houve uma queda de 16% na sobrevivência de animais adultos e de 50% nos filhotes até três anos.
Yvon Le Maho, que é membro da Academia de Ciências da França, na seção de biologia integrativa, defendeu que a fisiologia de animais constitui uma promissora fonte de informação biomédica a ser explorada.

Manipulação genética de mosquitos podem impedir novas epidemias

O engenheiro Jean Luc Imler é diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) da Universidade de Strasbourg, na França. Desenvolve colaboração com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre a interação entre mosquitos e os vírus que transmitem doenças aos seres humanos, como a dengue e chikungunya.
Ele relatou que a pesquisa sobre o controle genético de infecções virais tem avançado muito nos últimos anos, em virtude do uso de moscas do gênero Drosophila como modelos de estudo.

A informação sobre biodiversidade de vírus, segundo Imler, pode ajudar a entender a dinâmica da competência dos vetores, a descobrir ferramentas virais para manipular mosquitos e assim prevenir epidemias de novos vírus.
“A biodiversidade representa uma fonte promissora de moléculas que exercem papeis-chave na resistência e resposta imune ao mais diversos tipos de infecções”, concluiu o palestrante.

Cooperação científica para a biodiversidade

Hernán Chaimovich, Marcelo Morales, Eric Karsenti (moderador), Marco Erlich, Olivier Fudym e Sandoval Carneiro

Representantes de diversas instituições discutiram o tema no último dia do Simpósio Brasil-França sobre Biodiversidade, em manaus, no Amazonas.

O CNPq e a biodiversidade

A primeira apresentação coube a Marcelo Marcos Morales, doutor em biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Morales apresentou um breve histórico da criação da instituição, fundada em 1951, após proposta do engenheiro Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva , então presidente da ABC.

Sob a prerrogativa de que a ciência e a inovação são as estruturas do desenvolvimento nacional, Morales apresentou os numerosos programas e ações que a instituição tem com a finalidade de preservar a biodiversidade, além de citar parcerias com instituições francesas, como o Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês) e o Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS, na sigla em francês), com quem já trabalharam em dezenas de ocasiões. Entre 2006 e 2015, o CNPq concedeu 218 milhões de reais para a biodiversidade. Esse dinheiro foi colocado em projetos para conservação de solos, conservação de biomas e pesquisas com fitoterápicos, por exemplo.

Por fim, ele destacou o projeto de implementação do Centro Nacional de Sínteses em Biodiversidade e Ecossistemas, que contará com a cooperação de outras agências de fomento brasileiras e também de pesquisadores internacionais.

O Instituto Tecnológico Vale: pesquisa, educação e empreendedorismo

O Acadêmico Sandoval Carneiro, doutor em engenharia elétrica e diretor de Tecnologia de Inovação da empresa Vale, apresentou o Instituto de Tecnologia da Vale (ITV), que conta com duas sedes: uma de desenvolvimento sustentável em Belém, no Pará, e outra de mineração em Ouro Preto, em Minas Gerais. As atividades do ITV, instituído em 2009, concentram-se na pesquisa, educação e no empreendedorismo.
O ITV de Belém conta com diversos projetos voltados para a biodiversidade da fauna e da flora da Serra dos Carajás. Um deles, que reúne 90 especialistas de 30 instituições, diz respeito à flora de cangas da região. Além deste, a instituto também realizar pesquisas nas cavernas da região, identificando plantas e mensurando a riqueza de espécies animais presentes nesses ecossistemas.

Em seguida, Sandoval comentou sobre parcerias com outras instituições na concessão de bolsas de pesquisa e em programas de pós-graduação. Em números, a Vale já contribuiu, por exemplo, com 1,5 milhão de reais em bolsas para professores visitantes ou pesquisadores no Brasil e no exterior, em parceria com CNPq. Já em parceria com a Capes, o ITV ajuda no financiamento de bolsas de mestrado e doutorado.

“Cooperação é sobrevivência”

Dando continuidade à sessão, Marco Ehrlich, subdiretor Científico e Tecnológico do Instituto Amazônico de Investigações Científicas SINCHI, na Colômbia, destacou a extensão do bioma amazônico, que é quase 10 vezes maior que o território da França e possui mais de 60% de sua área em território brasileiro.

O pesquisador mencionou o desafio de conservar tamanha riqueza na parcela colombiana da Amazônia. Segundo ele, a taxa de desmatamento é maior que 30%. O cultivo de coca pelos cartéis colombianos também toma mais de 40% da região, além de outras mazelas, como o roubo de terras, o aumento da desnutrição em algumas populações indígenas e ocorrência do menor IDH do país.

O SINCHI é uma entidade pública fundada em 1993, ligada ao Ministério do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, com autonomia financeira e administrativa e com a finalidade de promover apoio científico na implantação de políticas públicas. O instituto atua através de seis programas: Ecossistemas e Recursos Naturais, Sustentabilidade e Intervenção, Modelos de Funcionamento, Dinâmicas Socioambientais na Amazônia Colombiana, Gestão Compartilhada e Fortalecimento Institucional.

Ehrlich destacou a importância da união com parceiros locais, regionais e internacionais, além da comunidade. “Informação é poder. Os pesquisadores precisam aprender a usar isso para conservar a Amazônia e desenvolver respostas sustentáveis às mais variadas questões”, concluiu, destacando que cooperação é questão de sobrevivência.

Organização e disponibilização dos dados para estudos de biodiversidade

Olivier Fudym, diretor da filial brasileira do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS-Rio, na sigla em francês), falou em seguida e focou sua apresentação nos inúmeros projetos que a entidade realiza em parceria com outras instituições. Um exemplo é o projeto LIA MARRIO, que estuda a biodiversidade de esponjas existente entre a Martinica, um território insular francês, e o Rio de Janeiro. Outro ótimo exemplo é o LIA PALMHEAT, um projeto voltado para garantir a segurança alimentar em meio às mudanças climáticas, através da identificação de novos recursos genéticos e mecanismos moleculares que resistam ao estresse de temperatura.

Por fim, mencionou o desejo de criar o Centro de Síntese para a Biodiversidade, com o objetivo de reunir e combinar a numerosa quantidade de dados que a biodiversidade gera. “Isso facilitaria novas análises e traria uma nova abordagem às pesquisas em biodiversidade com o melhor uso das informações e conhecimentos disponíveis”, ressaltou Fudym.

Fapesp: ciência básica de qualidade para aplicações consistentes e adequadas

Para finalizar a sessão, foi a vez do Acadêmico Hernan Chaimovich falar sobre o tema. Ele é doutor em bioquímica e atualmente atua na Coordenação Adjunta de Programas Especiais e Colaborações em Pesquisas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Após breve histórico da instituição, Chaimovich destacou que, mundialmente, as pessoas enxergam a ciência como útil apenas quando ela torna os negócios mais competitivos, cura os doentes ou faz os pobres melhorarem de vida. Porém, para a Fapesp, a ciência que faz a humanidade mais sábia deve ser valorizada também. “Os impactos intelectuais são tão importantes quanto os impactos econômicos e sociais”, defendeu o Acadêmico.

Para tornar isto realidade, a Fapesp atua em parcerias internacionais através do financiamento conjunto com agências de fomento à pesquisa, universidades e companhia privadas. Essas parcerias ocorrem principalmente em três temas: bioenergia, mudanças climáticas e biodiversidade.

Falando da cooperação entre Brasil e França, ainda que o maior número de parcerias aconteça na área de computação, Chaimovich comentou que, nos 10 anos de parceria, cerca de 11,5 milhões já foram alocados em projetos.

Finalizando, o pesquisador apresentou o Instituto Virtual de Biodiversidade, uma rede de mais de 200 cientistas que identifica e caracteriza a biodiversidade do estado de São Paulo e define mecanismos para sua conservação e uso sustentável.

Acadêmico participa de seminário no Palácio Itamaraty

No dia 19 de junho, terça-feira, o Acadêmico Evaldo Vilela representou a ABC no Seminário “Diálogo com Grupos de Engajamento do G20”. O evento ocorreu na Sala San Tiago Dantas do Palácio Itamaraty, em Brasília, Distrito Federal.

O seminário teve como objetivo promover o diálogo entre o Governo Brasileiro e representantes da sociedade civil que participam nos sete grupos de engajamento do G20.

O Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), Evaldo Vilela, participou da Sessão “Academia de Ciências”, na qual falou por 25 minutos sobre as atividades da ABC no tema do S20 “Segurança Alimentar e Nutricional”, abrindo espaço para apresentar a obra “Challenges and Opportunities for Food and Nutrition Security in the Americas: The View of the Academies of Science“, lançada no mês passado.

Ele também deu um panorama geral sobre o trabalho da Academia em prol da ciência brasileira e internacional, além de apresentar alguns avanços científicos benéficos ao país.  Além disso, comentou sobre “Um Projeto de Ciência para o Brasil”, preparado pela ABC para orientar decisões prioritárias da pesquisa nacional, e também sobre a Carta aos Presidenciáveis 2018, com propostas para os pré-candidatos à Presidência da República.

ABC recebe a primeira pré-candidata à Presidência do Brasil

A ABC começou a receber os pré-candidatos à Presidência da República em sua sede para debater com membros da comunidade científica e jornalistas documento com propostas para um plano de Estado em ciência, tecnologia e inovação. Todos os pré-candidatos estão convidados.

A Academia defende que os setores da sociedade contribuam para a construção dos programas políticos para o país e cobrem os compromissos assumidos em campanha após a eleição.

O primeiro encontro foi realizado em 18 de junho, com a pré-candidata Manuela D’Ávila. Nascida em Porto Alegre, em 1981, a jornalista é filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Foi deputada federal pelo Rio Grande do Sul entre 2007 a 2015 e líder de seu partido na Câmara dos Deputados, em 2013. Exerce atualmente o mandato de deputada estadual.

Acompanhada por membros da sua equipe, pelo presidente estadual do PCdoB-RJ, João Batista Lemos e pela deputada federal Jandira Feghalli, Manuela foi recebida pelo presidente da ABC Luiz Davidovich  e por uma plateia cheia. Foram registradas as presenças dos Acadêmicos Alexander Kellner , Carlos Alberto Aragão , Diógenes Campos , Edmundo Albuquerque de Souza e Silva , Edson Watanabe , Fernando Rizzo , Carlos Gustavo Tamm de Araujo Moreira , Jerson Lima da Silva , José Murilo de Carvalho , José Roberto Boisson de Marca , Lucia Previato, Luiz Bevilacqua , Nicim Zagury , Otávio Velho , Paulo Diniz, Ronald Shellard  e Wanderley de Souza . Estavam presentes também a representante da Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG) Danielle Balbi; Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); e Fernando Lins, diretor do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem).

O presidente da ABC abriu a sessão demonstrando contentamento em começar a série de encontros com pré-candidatos que tem como objetivo a inserção de pautas de ciência tecnologia e inovação nos programas de governo, visando o desenvolvimento do país. Ele mostrou os documentos da ABC disponíveis no site com recomendações para educação em todos os níveis de ensino e destacou que no Brasil a ciência é feita por um número pequeno de pessoas, e que o problema começa na educação básica que, em vez de remover as diferenças sociais, as reforça. “Milhões de cérebros de brasileiros são desperdiçados nas favelas, nas periferias, nos mangues, nos sertões. A inclusão social tem que ser uma prioridade, pois o talento não escolhe onde nascer”, reforçou Davidovich.

Ele mostrou grandes feitos da ciência brasileira na agricultura, na área do petróleo com o pré-sal, na aviação, no enriquecimento de urânio e muitas outras contribuições expressivas que ecoam na melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro. Diversos estudos, de acordo com o presidente da ABC, demonstram o alto impacto dos investimentos em CT&I. No entanto, o país conta com muito pouco investimento privado na área, ao contrário dos países que tiveram expressivo e rápido crescimento recente, como a Coreia do Sul. “Menos de 1% das empresas brasileiras utilizam a Lei do Bem, por exemplo, que foi criada para incentivar o investimento privado em pesquisa e desenvolvimento”, apontou Davidovich. E isso se reflete no lamentável processo de desindustrialização por que o país vem passando. Cada vez mais o Brasil é refém das commodities.

O físico apresentou dados que mostram a queda brusca no financiamento de CT&I: os recursos realmente disponíveis hoje correspondem a um terço dos recursos de 2013. Ou seja: o país está andando para trás. Em fases de crise, a China, a Índia e a Rússia cortaram gastos de forma não linear, aumentando os investimentos em CT&I, porque sabem que essa é a fórmula para sair da crise. O Congresso norte-americano, inclusive, deu uma grande demonstração de força e de consciência recentemente aumentando em 20 bilhões de dólares o orçamento previsto para CT&I pela Casa Branca. “Mas aqui, não. O corte horizontal é uma prova lamentável de incompetência, mostra que não há uma agenda nacional de desenvolvimento sustentável.”

As agências de financiamento das áreas de CT&I e educação – Finep, CNPq e Capes – foram severamente atingidas com os cortes no orçamento da União. “E isso simplesmente impede a inovação no país. O Brasil agora está em último lugar nos BRICs em termos de desenvolvimento”, apontou Davidovich.

Ele passou então a palavra à convidada Manuela D’Ávila, para que ela expusesse suas reflexões sobre o tema.

A jornalista apresentou sua equipe, que conta com o cientista político Luis Manuel Rebelo Fernandes, ex-presidente da Finep (2007-2011; 2015), como coordenador de Programa de Governo. Ela relata que seu partido não indicava candidato à presidência desde a década de 40 e que ela se sente honrada pela pré-candidatura.

Manuela concordou com a análise apresentada de que há um projeto de desmonte do Estado, focado principalmente nas instituições ligadas à ciência, tecnologia, inovação e educação. O ensino superior público está sendo destruído, e ela credita esse movimento ao fato de termos uma elite financeira antinacionalista no Brasil.

“Nosso programa está sendo construído sobre a pauta da ciência, tecnologia, inovação e educação. Sobre democratizar o conhecimento, visando a saída desta crise. Mas o empobrecimento da população está se dando numa velocidade inacreditável”, alertou Manuela.

Ela destacou dados do jornal Folha de S.Paulo mostrando que 62% dos jovens brasileiros gostariam de sair do país. “Este desmonte da educação superior em dois anos vai contra todos os indicadores internacionais. O mundo está no ápice do desenvolvimento tecnológico e o Brasil andando para trás. Basta conferir o aumento de 70% nas ocorrências de queimaduras nos hospitais, devido ao aumento exponencial do número de brasileiros que voltou a usar lenha e álcool para cozinhar, dado o aumento extorsivo do preço do bujão de gás”, pontuou.

Manuela mostrou-se preparada: destacou que a média de investimento do PIB em CT&I nos países desenvolvidos é de 2%, enquanto que no Brasil é de menos de 1%. “Cortar essas áreas e na educação é o caminho para continuar ou piorar a situação”, ressaltou, dizendo que seu programa visaa recomposição da capacidade de investimento público através da tributação par aos mais ricos. “Temos que tributar grandes fortunas, heranças, lucros e dividendos. O Brasil tributa os mais pobres através do consumo e a classe média através do Imposto de Renda. Só quem sonega são os mais ricos”.

Sobre o grave processo de desindustrialização do país, Manuela não só concordou como acrescentou um dado: o nível de industrialização no Brasil hoje é igual ao de 1947. Ela diz que considera mexer nos juros e no câmbio, e que os parâmetros para o nosso país não devem ser os mesmos dos países desenvolvidos. “Precisamos sim de inovação tecnológica, mas precisamos também de indústria tradicional, básica, focada em infraestrutura. Queremos estimular os investimentos privados no país para reduzir a dificuldade em pesquisar, em patentear, enfim, em gerar desenvolvimento sustentável. Queremos qualificar a população para garantir os recursos humanos estratégicos para o desenvolvimento nacional.”

Assista a transmissão do debate na íntegra.

Faleceu o Acadêmico Evando Mirra

A ABC e a SBPC lamentam a morte nesta sexta-feira, 15, em Belo Horizonte, do professor Evando Mirra de Paula e Silva, de 75 anos, emérito da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A vice-presidente da SBPC *e Acadêmica Vanderlan Bolzani afirma que a notícia a pegou de surpresa e que ele era muito querido e especial. “Ele deu uma grande contribuição para o universo cientifico-tecnológico do País”, afirma ao lembrar que ele foi um grande cientista e um gestor importante. E completa, “Ele era fascinante com a sua visão de que para o país atingir patamares de primeiro mundo era preciso criar uma cultura inovadora, que infelizmente ainda não temos. Ele sabia que no Brasil falta o despojamento para utilizar o seu conhecimento e a sua ciência para fazer a inovação local. Porque é a inovação que eleva a competitividade industrial e que faz o Brasil se aproximar de países desenvolvidos”. Mirra foi conselheiro da SBPC de 1997 a 1999.

Bolzani citou ainda que sempre usa no final de suas palestras uma frase de Mirra que representava a sua visão de vida. “Num bosque verde e amarelo de incertezas, existia um universo fascinante de oportunidades”.

 

Trajetória

Professor emérito do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Escola de Engenharia da UFMG, Evando Mirra de Paula e Silva foi vice-reitor da Universidade na gestão 1990-1994 e pró-reitor de pesquisa, além de chefe de departamento e presidente de diferentes entidades do setor educacional, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

*Foi membro da Diretoria da ABC entre 2007 e 2014.

Com mais de uma centena de trabalhos publicados, Evando Mirra era membro de entidades como a Academia Brasileira de Ciências (ABC)*, Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais (ABM), Société Française de Métallurgie et de Matériaux (SFM), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), American Society for Metals – Internacional (ASM) e Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (SBEC).

Foi agraciado com condecorações e prêmios como Membre d´Honneur da Societé Française de Métalurgie et des Matériaux (França) e Membro da Ordem Nacional do Mérito Científico.

SBPC e ABC promovem debate sobre a Lei de Biodiversidade

Foi realizada na última quinta-feira, 3 de maio, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, a reunião conjunta ABC/SBPC para debater os pontos da Lei de Biodiversidade (13.123/2015), sua regulamentação e as dificuldades que os pesquisadores e instituições estão tendo em relação ao cadastramento de projetos de pesquisa no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen). Na reunião, que foi transmitida site Facebook da ABC, houve a participação de mais de uma centena de pesquisadores de várias universidades, como UFRJ, USP e UFMG, e de instituições de pesquisa do Rio de Janeiro, como Fiocruz, Embrapa, Jardim Botânico, Museu Nacional e outras.

De início, foi feita a apresentação das razões para o debate e a proposta de seu formato, pelos presidentes da ABC e da SBPC, Luiz Davidovich e Ildeu de Castro Moreira. Em seguida, falaram os representantes da comunidade científica no Conselho de Gestão do Patrimônio Genético do MMA (CGen), [o Acadêmico] Elibio Leopoldo Rech Filho (Embrapa), representante da ABC, [a Acadêmica] Mercedes Bustamante (UnB) e Laila Spindola (UnB), representantes da SBPC, além de Manuela da Silva (Fiocruz), coordenadora da Câmara Setorial da Academia no CGen, e Rafael de Sá Marques (MMA), presidente do CGen. Eles fizeram apresentações sobre o conteúdo da lei e das resoluções que estão sendo feitas pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético e esclareceram dúvidas em relação ao cadastramento de pesquisas no SisGen.

Na parte da tarde foi realizado um debate com os diversos segmentos da comunidade acadêmica, que levantaram críticas, questionamentos e dúvidas sobre as razões e a aplicabilidade da lei sobre a pesquisa científica básica. Havia uma preocupação generalizada quanto aos entraves que o cadastramento pode gerar para a realização das pesquisas.

No debate ficaram claros dois níveis de atuação: o primeiro se refere às resoluções e modificações que podem ser feitas no SisGen, na sua estrutura atual decorrente da legislação já aprovada, para que as dificuldades sejam minimizadas. Nesse nível, várias sugestões, entre as quais a de se analisar os prazos para o cadastramento, foram feitas aos membros do CGen, que vão encaminhá-las àquele órgão para que sejam ali discutidas e acolhidas. Um segundo nível de atuação da comunidade científica se refere a discutir de forma mais geral a própria estrutura e a interpretação da lei, e de sua regulamentação, visando possíveis aprimoramentos.

O debate foi bastante produtivo e como resultado foi constituído um Grupo de Trabalho, dentre os participantes e instituições presentes, que ficou encarregado de analisar com maior profundidade as definições de “Patrimônio Genético” e “Acesso ao Patrimônio Genético”, além de estudar um possível resgate da Resolução Normativa 21 (MMA) e eventuais formas de interpretação e aplicação da lei de Biodiversidade que não impeçam ou dificultem a realização das pesquisas. As sugestões do GT serão encaminhadas à ABC e à SBPC que, após uma discussão nacional mais ampla dentro de suas instâncias, possam atuar nos espaços adequados, como os ministérios ou o Congresso Nacional, para o aprimoramento das regras legais atuais.

Cientista brasileiro participa de edição especial do Young Physician Leaders

Em conjunto com o Encontro Regional da Cúpula Mundial de Saúde (WHS, na sigla em inglês), a InterAcademy Partnership (IAP) for Health realizou, nos dias 17 e 18 de abril, uma edição especial do programa Young Physician Leaders (YPL) em Coimbra, Portugal. Voltado para países de língua portuguesa, o evento reuniu 12 médicos com menos de 40 anos de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Nacional de Medicina (ANM), como representantes do Brasil no IAP for Health, indicaram o médico Luiz Fernando Ferraz da Silva para participar da atividade. Graduado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP), Ferraz é doutor em patologia e atua desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão como professor doutor no Departamento de Patologia da USP.

Participantes durante o YPL em Coimbra, Portugal. Foto: IAP

A fim de auxiliar jovens médicos com carreiras promissoras a desenvolverem suas habilidades de liderança, o programa promoveu discussões sobre teorias e estilos de liderança, dinâmicas para análise dos pontos fortes e fracos e identificação do perfil de liderança dos participantes.

Os cientistas também debateram sobre os desafios de liderança nos serviços de saúde e como integrar as demandas técnicas, humanas e sociais nos diferentes regimes de trabalho e sistemas de saúde. Ainda participaram de palestras sobre Big Data, inteligência artificial e estratégias para avaliação, vigilância e tratamento de doenças negligenciadas.

Nos dias 19 e 20 de abril, os jovens médicos participaram também do Encontro Regional da WHS. Durante a conferência, eles puderam entrar em contato com lideranças dos países participantes, incluindo ministros, diretores de instituições de ensino e diplomatas, para discutir aspectos da saúde global.

Os participantes da edição especial para países lusófonos do YPL. Foto: IAP

Sobre a experiência, o médico Luiz Fernando Ferraz relata: “Acredito que a participação no programa YPL foi extremamente relevante para a minha formação integral. O programa representou a oportunidade singular de dividir e compartilhar experiências com pessoas de diferentes países entendendo, assim, a relevância das variáveis sociais e culturais no desenvolvimento de liderança e na solução dos desafios que se propõem”.

O estudo da computação social

Para Fabrício Benevenuto, sua infância foi muito feliz. Nascido e criado no interior de Minas Gerais, em uma cidadezinha chamada Pará de Minas, ele tinha a liberdade de jogar futebol na rua e andar de bicicleta pela vizinhança. “A cidade era pequena, tranquila e segura. Além disso, as amizades eram sólidas. Alguns amigos que fiz aos quatro anos de idade estão presentes em minha vida até hoje”, conta.


Superando as dificuldades

Os pais de Fabricio trabalhavam fora: sua mãe era funcionária do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o pai, soldado da Polícia Militar do estado de Minas Gerais. Ele conta que ambos vieram de famílias pobres e foram criados em áreas rurais. “Meus avós eram analfabetos, mas eram também donos de uma notável inteligência”, emociona-se. “Antes de ingressar no INSS, minha mãe foi professora do ensino primário. Por isso, sempre buscou estimular o interesse dos filhos pela escola e pelos estudos”, justifica.
Embora contando com os benefícios da vida no interior, a situação financeira de sua família era apertada. “Eu e minha irmã sempre estudamos em escolas públicas e meus pais se esforçavam para que nunca faltasse nada. Eles nos deram toda a estrutura que precisávamos para nos dedicarmos aos estudos”, orgulha-se. Sua irmã, dois anos mais velha, cursou graduação, mestrado e doutorado em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na visão de Fabrício, ela foi uma grande influência em sua opção pela carreira acadêmica.


Paixão despertada ainda na infância

Nos estudos, sua área preferida era a física. Nas brincadeiras com os amigos, Fabrício gostava muito de videogames. Quando ganhou um de seus pais , o brinquedo virou a diversão da família toda. “Eram momentos ótimos, que possivelmente me fizeram desenvolver certa paixão pela tecnologia”, confessa.
Embora estudasse física com muito interesse desde pequeno, Benevenuto não estava certo sobre qual profissão seguir. Resolveu prestar vestibular para ciência da computação, embora o momento não fosse muito propício para a escolha desse curso. “Vivíamos o chamado boom da Internet”, afirma.
Esse período de sua vida de Fabrício é repleto de boas recordações. Ele e os três melhores amigos de escola, que sempre estudaram em escolas públicas, enfrentaram um dos vestibulares mais concorridos do país. “Não passava por nossas cabeças que um de nós pudesse ficar para trás, então resolvíamos exercícios e simulados juntos e fazíamos reuniões semanais para acompanhar e planejar nossos estudos”, recorda. E todo o esforço valeu a pena. Em 2000, todos se tornaram alunos da UFMG.
No entanto, o conceito de ciência não era muito concreto em sua mente e foi só quando ingressou na iniciação científica que seu gosto pela ciência da computação se confirmou. “Eu tive o privilégio de trabalhar sob a orientação de um membro titular da ABC, o professor Virgílio Augusto Fernandes Almeida. Além de excelente orientador, ele soube despertar em mim o interesse pela pesquisa científica, o que me levou a, posteriormente, fazer mestrado e doutorado na própria UFMG”, afirma. Foi assim que Benevenuto envolveu-se em um projeto de pesquisa relacionado à web, que resultou não só no tema de sua monografia de fim de curso, mas também em suas primeiras produções científicas.
Durante a graduação, além da iniciação científica, Fabrício foi administrador de rede da biblioteca setorial do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, trabalhou como monitor remunerado da disciplina de Algoritmos e Estruturas de Dados III e começou a envolver-se em campeonatos de programação. “Essa foi uma fase na qual participei ativamente de grupos de estudo de algoritmos e fui selecionado como integrante de um dos times da UFMG na ACM International Collegiate Programming Contest”, conta. Após participar do encontro como competidor três vezes, no ano de 2005 ele desempenhou o papel de técnico das equipes da universidade mineira.


Desdobramentos de sua formação

Durante o mestrado, que também contou com a orientação do Acadêmico Virgílio Almeida, Benevenuto começou a trabalhar em um projeto financiado pela Hewllet Packard do Brasil (HP). Nesse contexto, no ano de 2005, surgiu a oportunidade de um estágio de três meses no HP Labs, em Palo Alto, na Califórnia. “Durante esse estágio, pude conviver com alunos de doutorado de excelentes universidades americanas como Stanford, UCLA [Universidade da Califórnia] e a CMU [Universidade Carnegie Mellon], assim como com renomados pesquisadores da área. Isso me permitiu conhecer um ambiente de pesquisa diferenciado e me proporcionou uma ampla visão da arquitetura de sistemas reais da própria HP”, reconhece.
De volta ao Brasil, Benevenuto cursou o doutorado e, como resultado de seu trabalho, publicou mais de 60 artigos altamente citados e teve sua tese laureada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) através do Prêmio Capes de Teses do ano de 2011. Sobre o período em questão, ele comenta: “Um dos pontos mais importantes do meu doutorado foi um estágio de cinco meses realizado no Instituto Max Planck. Lá, tive a oportunidade de trabalhar diretamente com o pesquisador Krishna Gummadi, líder do grupo de sistemas. Também fiz contatos importantes com jovens pesquisadores de grande talento. Depois de terminar o doutorado, passei mais dois meses no instituto para planejar trabalhos conjuntos que perduram até hoje e já resultaram em diversas publicações conjuntas.”


Entendendo a estrutura das redes sociais online

Com menos de uma década envolvido em atividades de pesquisa, os resultados dos estudos de Benevenuto têm atraído a atenção das mídias convencional e especializada – dentre as quais o The New York Times, a MTV, a Revista Época, a Revista Galileu, o Jornal Estado de Minas, o Jornal O Tempo, o New Scientist, a Harvard Business Review e a Revista Info.
Professor adjunto da UFMG, suas pesquisas buscam entender a estrutura das redes sociais online e explorar comportamentos sociais nesses ambientes. Conhecida como “computação social”, ele explica tratar-se de um tema da ciência da computação experimental onde análises e modelos são desenvolvidos a partir de dados reais extraídos de mídias sociais como o Facebook e o Twitter.
Apesar de seus trabalhos envolverem, na maioria das vezes, um complexo processo referente à coleta de dados em grande escala em diferentes ambientes da web, o cientista conta: “Há também uma parte teórica, que diz respeito aos modelos construídos para representar artificialmente padrões de interação verificados no espaço online. Além de ser atual, o tema é extremamente relevante, visto que bilhões de pessoas passam um tempo considerável de suas vidas conectadas a esses sistemas.”
Defensor da ciência como um fator fundamental no desenvolvimento tecnológico do país, o pesquisador busca compreender os diversos tipos de comportamento – dentre os quais se encontram o social, o malicioso e o oportunista – de diferentes classes de usuários. “Boa parte da minha pesquisa explora aspectos do comportamento e das interações dos usuários para a criação de algoritmos eficientes na recuperação e distribuição de conteúdo nesses ambientes”, explica.
Fazendo uso de dados reais e em larga escala, seu trabalho permite que teorias e modelos sobre formação de elos sociais, difusão de inovações e aspectos relacionados à influência social sejam questionados. “Assim, alguns desses estudos possuem impacto não só na computação, mas também em outras áreas do conhecimento, como a sociologia e a economia”, finaliza.


“Investigar soluções e buscar avançar no conhecimento é fascinante”

Para Benevenuto, a metodologia científica é simplesmente fantástica. Além de ser constantemente motivado pela perspectiva de aumentar seu conhecimento, ele diz que a pesquisa científica permite o trabalho com pessoas muito interessantes, mantendo-o atualizado, conectado às novidades em suas áreas de interesse. Adepto da multidisciplinaridade, Benevenuto acha interessante aprender sobre teorias e conceitos propostos por outros campos do conhecimento, aplicando-as no contexto das redes sociais online. “É como se eu expandisse minha visão limitada do conhecimento e isso é fascinante”, afirma.
Em seu ponto de vista, um cientista deve ser, mais do que tudo, minucioso e criterioso. “É muito comum vermos cientistas apressados para publicar resultados, visando atingir metas e cumprir datas. Ideias brilhantes não surgem do nada. Uma pesquisa de impacto demanda tempo, dedicação e requer muito cuidado metodológico”, opina.
Benevenuto foi eleito membro afiliado da ABC para o período 2013-2017. “Esse título é algo que eu recebo com muito orgulho. Significa que o trabalho que venho desenvolvendo como pesquisador foi reconhecido pelos meus colegas e é um sinal de que minhas contribuições científicas têm impacto para a sociedade. Isso me deixa ainda mais motivado a dar continuidade às minhas atividades científicas.”
Ressaltando o benefício da interação com outros cientistas brasileiros, ele conta que é com grande energia que chega à instituição. Além disso, promete realizar o que estiver ao seu alcance no intuito de difundir a importância da ciência para o desenvolvimento tecnológico do país.
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