“A ciência mostra que a humanidade não está sozinha no mundo e que precisamos rever nossas ações se quisermos sobreviver enquanto espécie e se quisermos que outros seres vivos sobrevivam.” A reflexão é da biomédica Fabiana Quoos Mayer, membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) eleita para o período 2026-2030 e pesquisadora da área de Saúde Única.
Seu trabalho busca compreender como microrganismos, como bactérias e vírus, circulam entre animais e ambiente e de que maneira ações humanas, como desmatamento e poluição, podem interferir nesse ciclo. Para chegar até essa área de pesquisa, Mayer percorreu uma trajetória que começou no interior do Rio Grande do Sul, passou pela terapia gênica e pelas doenças raras e a levou à interface entre saúde humana, animal e ambiental.
Da curiosidade infantil à Biomedicina
Fabiana nasceu em 1987, em Rosário do Sul, cidade próxima à fronteira do Brasil com o Uruguai, na região da Campanha do Rio Grande do Sul. Teve uma infância marcada pela liberdade. Morava em uma rua sem saída, cheia de crianças, onde pega-pega, pique-esconde, bonecas, jogos de tabuleiro e quebra-cabeças preenchiam seus dias. Passava também longos períodos das férias na fazenda dos avós e, quando estava sozinha, adorava ler. Na adolescência, seu grupo de amigos era diverso e unido, desempenhando também um papel importante na sua formação pessoal.
O pai, engenheiro civil, trabalhava com a irmã, arquiteta, em um escritório de construção civil. A mãe formou-se em educação física, mas trabalhava como bancária na Caixa Econômica. Fabiana cresceu com duas irmãs mais novas e tinha irmãos mais velhos, com quem conviveu menos porque moravam em outras cidades. Foi a primeira entre eles a ingressar na universidade, embora o ensino superior já fizesse parte da história familiar: alguns de seus avôs e avós eram professores ou dentistas.
Curiosa desde pequena, Fabiana fazia seus próprios “experimentos” em casa, misturando produtos de limpeza, tintas e outros materiais. Na escola, tinha bom desempenho em todas as disciplinas, mas suas preferidas eram biologia e matemática.
O interesse pela carreira científica ganhou contornos mais definidos no ensino médio, quando leu em um jornal uma nota sobre a abertura do curso de biomedicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Encantou-se com a descrição do curso, especialmente com a possibilidade de atuar em pesquisa científica, e concluiu que estudar doenças poderia ser algo muito interessante.
Quatro aprovações e uma escolha
Decidir qual carreira seguir, no entanto, não foi simples. Fabiana sabia que gostava tanto de biologia quanto de ciências exatas. Além disso, havia uma questão prática: a família não teria condições de mantê-la em outra cidade e, ao mesmo tempo, pagar por uma universidade particular.
Para ampliar as possibilidades, inscreveu-se em vestibulares de várias universidades federais e escolheu um curso diferente em cada uma: Biomedicina na UFRGS, Farmácia na Universidade Federal de Santa Maria, Engenharia de Alimentos na Universidade Federal do Rio Grande e Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Pelotas. Foi aprovada em todas. Acabou optando pela Biomedicina na UFRGS, que, de fato, era sua preferência.
A aproximação com a pesquisa começou cedo. A partir do segundo ano da graduação, Mayer fez iniciação científica no Centro de Terapia Gênica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. “Éramos bastante estimulados a fazer pesquisa”, relata. Numa semana acadêmica da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, ela assistiu uma palestra da professora Ursula Matte, que foi membro afiliado da ABC entre 2008 e 2013. Fabiana ficou muito interessada pela terapia gênica e pelas doenças raras, conversou com a pesquisadora após a apresentação e iniciou sua trajetória na iniciação científica. “Aprendi diversas técnicas laboratoriais, incluindo trabalhos com modelo animal, análises moleculares e cultivo de células. E fui construindo uma rede de relacionamento”, afirmou.
“As gurias” do laboratório
A rotina não era fácil. A carga horária era intensa, mas Fabiana encontrava apoio também fora do laboratório. Estudava muito com as companheiras de apartamento, que eram suas colegas, especialmente Ana Paula Herrmann, atualmente professora do Departamento de Farmacologia da UFRGS, e Talita Giacomet de Carvalho, que hoje trabalha na área de reprodução assistida no Hospital Femina, em Porto Alegre. Esta também compartilhava com ela a rotina de iniciação científica. “A Talita foi minha companheira de iniciação científica, passávamos praticamente o dia todo juntas. A doutoranda que acompanhávamos no laboratório nos chamava de ‘as gurias’, e levou um tempo até saber quem era Fabiana e quem era Talita”, conta a Acadêmica.
Se o início foi trabalhoso, os passos seguintes de sua vida acadêmica aconteceram em ritmo acelerado. Nesse período, Mayer construiu vínculos que se mostrariam fundamentais para sua formação. Depois de ter uma bolsa para o exterior cancelada em cima da hora em razão de uma crise financeira mundial, Fabiana se viu em um impasse. Como pretendia sair do país, não havia participado da seleção para o mestrado. Seu orientador, o professor e Acadêmico Roberto Giugliani, conseguiu então uma bolsa de apoio técnico, que permitiu que ela permanecesse no laboratório e desse continuidade aos experimentos que seriam parte de seu mestrado.
Do mestrado direto à carreira de pesquisadora
No final daquele ano, o Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular da UFRGS abriu um processo seletivo para doutorado que não exigia mestrado. Fabiana foi aprovada e ingressou diretamente no curso. Nesse período, outro pesquisador teve papel significativo em sua trajetória. “Foi parte importante também da minha formação acadêmica o atualmente professor Guilherme Baldo, membro afiliado da ABC no período 2014-2018, do qual fui aluna de iniciação científica e depois colega de doutorado. Trabalhamos juntos em muitos estudos, e o aprendizado e parceria com ele foram muito importantes.”
Ao final do primeiro ano de doutorado, prestou concurso para uma vaga de pesquisador em Biologia Molecular no Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF). Ficou em primeiro lugar, mas havia um desafio: o doutorado era pré-requisito para assumir o cargo. Começou, então, uma corrida para concluir a tese a tempo. Mayer destaca o apoio de Ursula Matte e Roberto Giugliani, além do suporte de seu então namorado e hoje esposo, José Eduardo Vargas, que também atua na área científica, que foi essencial durante o período intenso de elaboração da tese.
Fabiana conseguiu concluir o doutorado em pouco menos de dois anos e iniciou na sequência sua carreira como pesquisadora no IPVDF. Em 2015, realizou estágio de pós-doutorado no Centro de Pesquisa em Genômica Agrícola da Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, onde estudou marcadores moleculares associados a características reprodutivas em suínos
Da saúde humana à saúde única
Atualmente, Fabiana Quoos Mayer é professora adjunta do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS, docente permanente do Programa de Pós-graduação da área e pesquisadora líder do Centro de Biotecnologia da Universidade. Foi a experiência no IPVDF que aproximou definitivamente a biomédica do conceito de Saúde Única, abordagem que considera de maneira integrada a saúde humana, animal e ambiental. “Entrei nessa área porque, trabalhando no IPVDF, instituto focado em medicina veterinária, percebi que minha formação com foco em saúde humana poderia ter uma relação com saúde animal”, relembrou Mayer.
Hoje, os projetos de pesquisa que coordena investigam como microrganismos, entre eles bactérias e vírus, circulam entre animais e ambiente e como as ações humanas podem alterar essa dinâmica. Desmatamento e poluição estão entre os fatores considerados. “Já se sabe que a maior parte das doenças infecciosas humanas tem origem em animais. Busco então entender, estudando o material genético desses organismos, a dinâmica dessa circulação, para poder pensar em estratégias de prevenção eficazes”, explicou Mayer.
A perspectiva dialoga com a reflexão que orienta sua visão sobre o papel da ciência: compreender que seres humanos, outros animais e ambiente fazem parte de sistemas interdependentes e que as escolhas humanas têm consequências para todo esse equilíbrio.
Reconhecimento que traz responsabilidade
A eleição como membro afiliado da ABC para o período 2026-2030 representa, para Mayer, tanto reconhecimento quanto responsabilidade. “Acredito que, enquanto membros, temos o dever de lutar por melhorias para a ciência, participando de debates e levantando demandas. Também acho que seja nosso papel estimular estudantes para que ingressem na carreira acadêmica e divulgar ciência para todos os extratos sociais. Não é fácil, mas é muito necessário.”
Para ela, portanto, fazer ciência não se encerra no laboratório envolve participar do debate sobre os rumos da pesquisa, contribuir para a formação de novas gerações e aproximar o conhecimento científico da sociedade.
Música, viagens e um pouco de vida fora do algoritmo
Fora da universidade, Fabiana gosta de se exercitar, assistir a séries na televisão, ler antes de dormir, caminhar com sua cachorra Penélope e conversar com os amigos. Adora dançar, ir ao teatro e viajar para conhecer lugares e culturas diferentes, com atenção especial a uma parte da experiência: as comidas.
Na música, suas preferências passam pela MPB, com nomes como Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Vitor Ramil, e atravessam as fronteiras brasileiras, chegando a artistas de países vizinhos, como Jorge Drexler e Mercedes Sosa. E mantém um hábito que, em tempos de recomendações personalizadas pelas plataformas digitais, ganha outro significado: gosta de ouvir rádio enquanto dirige. “É bom estar fora do algoritmo, às vezes.”