Haroldo Valentin Ribeiro nasceu em 1986, em São José do Rio Preto (SP). Passou a infância em José Bonifácio e, depois, em Penápolis, onde viveu até os 18 anos. A mãe trabalhava em fábricas de calçados e o pai era motorista de caminhão. Seu irmão mais novo estudou publicidade e propaganda e hoje tem uma empresa no setor. O menino teve uma infância típica de cidade pequena do interior: gostava de jogar futebol na rua e soltar pipa. Aos 12 anos, descobriu outro interesse, o xadrez. “Cheguei a disputar alguns torneios pela escola e participei da criação do clube de xadrez de Penápolis”, contou.
Aluno de escolas estaduais, Haroldo guarda especialmente a lembrança de três professores do ensino médio, justamente das disciplinas de que mais gostava: Milton e Denisar, de física, e Jader, de história. A escolha pela física, no entanto, não foi planejada. Haroldo gostava de computação, programação e Linux e chegou a trabalhar como desenvolvedor antes da universidade. Prestou vestibular para ciência da computação, mas não foi aprovado. Decidiu então tentar física, tanto pela possibilidade de ingresso quanto pelas boas lembranças dos professores do ensino médio. Foi aprovado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Escolheu a UEM por influência de um colega do clube de xadrez que já estudava na instituição.
No início da graduação, sentia que lhe faltavam conhecimentos básicos, mas encontrou professores que o estimularam a persistir. “Encontrei professores muito bons, como Marcelo Cavalcanti (Cálculo I) e Perseu Santoro (Física I). Cada um à sua maneira, serviram de inspiração e motivação para que eu persistisse e buscasse melhorar meu desempenho”. Outro nome marcante foi o professor Renio Mendes, com quem desenvolveu seus primeiros projetos de pesquisa ainda na graduação e que, posteriormente, seria seu orientador de mestrado e doutorado.
Quando física e computação se encontraram
Foi durante a graduação na UEM, por meio da iniciação científica, que Haroldo começou a unir dois interesses que até então percorriam caminhos paralelos. “Esse período foi decisivo, porque me permitiu aproximar a formação em física do meu interesse anterior por computação”, relatou.
Os primeiros trabalhos envolveram simulações computacionais de sistemas físicos. Aos poucos, porém, seu interesse avançou para a análise de dados com ferramentas inspiradas na física estatística, abordagem que se tornaria central em sua trajetória científica. Foi nesse processo que Ribeiro percebeu que queria seguir a carreira acadêmica e fazer da pesquisa sua principal atividade. Concluiu a graduação em 2009, o mestrado em 2010 e o doutorado em 2012.
Uma experiência fundamental para sua formação foi o estágio pré-doutoral realizado com o professor Luís Amaral, na Northwestern University, em Illinois, nos EUA, entre o final de 2011 e meados de 2012. Além de ampliar sua visão sobre as pesquisas em sistemas complexos e possibilitar colaborações científicas que se mantiveram ao longo da carreira, o período no Amaral Lab permitiu que conhecesse de perto a dinâmica de um grupo de pesquisa consolidado — experiência que mais tarde o ajudaria a gerir seu próprio grupo na UEM.
Encontrando ordem em sistemas complexos
A pesquisa de Haroldo Ribeiro está ligada à física estatística de sistemas complexos, área que procura entender como muitos elementos interagindo entre si podem produzir comportamentos coletivos.
“Em vez de estudar apenas partículas ou materiais, elementos do imaginário das pessoas sobre física, eu uso ideias e ferramentas da física para analisar grandes conjuntos de dados sobre diversos sistemas, vários com origem física e muitos outros relacionados a aspectos sociais”, explicou.
Seu trabalho consiste, de modo geral, em procurar padrões, regularidades e leis em dados provenientes dos mais variados sistemas complexos. As aplicações são amplas: vão da compreensão do funcionamento das cidades ao desenvolvimento de ferramentas para analisar imagens, obras de arte, materiais e dados científicos.
O ponto comum é a tentativa de transformar grandes volumes de dados em informação útil, permitindo compreender melhor problemas que nos cercam e, em alguns casos, contribuir para tomadas de decisão mais bem fundamentadas.
A ciência que começa com uma pergunta
Para Ribeiro, um dos grandes atrativos da ciência é justamente a possibilidade de olhar para fenômenos aparentemente confusos, buscar regularidades, testar ideias e, aos poucos, construir explicações que ajudem a compreender melhor o mundo. E esse processo nunca se encerra completamente: cada resposta costuma abrir caminho para novas perguntas.
“Na minha área, em particular, a busca por padrões em sistemas de naturezas muito diferentes — como cidades, produção científica, obras de arte, sistemas sociais e ciências dos materiais — permite contato com diversas teorias e fenômenos”, relatou.
Ainda que não seja possível aprofundar-se igualmente em todos esses campos, o pesquisador se entusiasma quando um problema o conduz a uma nova literatura. “Ao longo da carreira, percebi que o contato com teorias de outras áreas, principalmente as de natureza social, me motiva bastante, e poder usar ferramentas inspiradas na física para tentar quantificar esses sistemas é especialmente gratificante”, contou.
Ciência produzida fora dos grandes centros
Para Haroldo Ribeiro, a eleição como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC) representa uma grande honra e um reconhecimento especial de uma trajetória científica construída integralmente na universidade pública e em colaboração com estudantes, colegas e parceiros de pesquisa. O cientista considera que a eleição também valoriza a ciência produzida na UEM e fora dos centros mais tradicionais do país.
“Ainda estou entendendo como poderei contribuir de forma efetiva com a ABC, mas espero participar das atividades da Academia sempre que possível, especialmente em ações voltadas para a formação de pesquisadores e para a ciência aberta, além de usar a influência da Academia para aproximar a pesquisa acadêmica de problemas concretos da sociedade.”
Uma vida atravessada pela pesquisa
A trajetória profissional de Haroldo Ribeiro sempre esteve conectada à vida pessoal. Boa parte do que faz, das pessoas com quem convive e dos interesses que cultiva no cotidiano passa, de alguma maneira, pela pesquisa e pelo ambiente universitário.
Para ele, essa integração é natural. “Tenho prazer no que faço: gosto de pesquisar, de conversar sobre ideias e problemas, de acompanhar os estudantes, de participar da construção coletiva de um grupo de pesquisa e, principalmente, de ter uma rotina em que sempre há algo a pensar, a desenvolver ou a compreender melhor”, concluiu o membro afiliado da ABC.