Hoje biomédico, Tiago Gräf nasceu em 1986, em Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul. Filho de um bancário e de uma técnica de enfermagem que trabalhava no único posto de saúde da cidade, cresceu ao lado da irmã, cinco anos mais velha, que mais tarde teria influência importante em suas escolhas.
Na infância, além das brincadeiras habituais, Gräf demonstrava uma curiosidade particular por descobrir como as coisas funcionavam — o que muitas vezes significava desmontar seus próprios brinquedos e nem sempre conseguir reconstruí-los. “Eu era aquele tipo de criança que queria entender como tudo funcionava por dentro. LEGO era praticamente minha religião. Passava horas inventando coisas aleatórias que faziam sentido só na minha cabeça”, conta.
Na adolescência, outra paixão ganhou espaço: a música. Gräf mergulhou no rock e no metal e participou de diversas bandas. “Nada muito glamuroso, mas teve muito ensaio barulhento, equipamentos ruins e apresentações em lugares duvidosos”, diverte-se. A vida adulta reduziu o tempo disponível, mas não eliminou o hobby: até hoje, ele toca violão em casa para relaxar.
A curiosidade encontra a ciência
O interesse pela ciência também começou cedo, estimulado em parte pelos programas educativos a que assistia na infância, especialmente os clássicos da TV Cultura, como O Mundo de Beakman. Mas havia uma referência ainda mais próxima. Quando Gräf era adolescente, sua irmã deixou a pequena Arroio do Meio para cursar engenharia mecânica em uma universidade federal, em Porto Alegre. A experiência mostrou ao irmão que também seria possível sair de sua cidade, buscar uma formação de qualidade e construir uma trajetória acadêmica.
Isso não significa, porém, que Gräf tivesse um plano de carreira definido. Quando chegou a hora do vestibular, as possibilidades eram muitas. Pensava em alguma área das ciências exatas, talvez engenharia, por influência da irmã. Ao mesmo tempo, gostava muito de geografia, sua disciplina favorita na escola, e de biologia.
A escolha aconteceu quase por acaso. Um dia, uma amiga levou para a escola uma reportagem de jornal sobre o novo curso de biomedicina que seria oferecido, pela primeira vez, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. A amiga apresentou uma possibilidade particularmente atraente: com aquela formação, ele poderia se tornar uma espécie de “detetive de DNA” e ajudar a desvendar crimes.
A ideia conquistou o adolescente. “Naquele momento eu realmente não fazia ideia de onde estava me metendo. Não tive orientação vocacional nem um grande plano de carreira traçado. Foi muito mais uma combinação de curiosidade, oportunidade e intuição. Olhando hoje, deu mais certo do que eu poderia imaginar”, reconhece.
À procura de uma pergunta
A formação em biomedicina era fortemente voltada à pesquisa científica. Em praticamente todas as disciplinas, os estudantes precisavam ler, discutir e apresentar artigos, e a iniciação científica fazia parte quase naturalmente da trajetória acadêmica. Gräf passou por diferentes laboratórios tentando encontrar uma área com a qual realmente se identificasse. Paradoxalmente, quanto mais experimentava, mais se perguntava se alguma daquelas linhas de pesquisa seria capaz de mantê-lo interessado por toda a vida acadêmica.
A resposta surgiu no final da graduação, durante uma aula prática de bioinformática. A atividade parecia relativamente simples: baixar do GenBank sequências genéticas de HIV e SIV provenientes de diferentes primatas, alinhá-las e construir uma árvore filogenética. Para Gräf, porém, aquele exercício revelou algo muito maior. Pela primeira vez, ele percebeu como as informações contidas nas sequências genéticas de um vírus poderiam ser utilizadas para reconstruir a história do surgimento e da evolução de uma das doenças humanas mais importantes da atualidade. “Foi um momento marcante para mim. De certa forma, senti que finalmente tinha encontrado aquilo que mais me fascinava na ciência: usar sequências genéticas para reconstruir histórias invisíveis. Ali eu realmente me senti um ‘detetive de DNA’ — ou, nesse caso, de RNA.”
O detetive de RNA
O fascínio pela evolução dos vírus logo levou Gräf a uma questão científica que o acompanharia durante muitos anos. Os estados do Sul do Brasil apresentam características particulares na epidemia de HIV/aids. Na região circula um subtipo viral diferente daquele predominante no restante do país e, ao mesmo tempo, estão algumas das maiores taxas de incidência da doença. Haveria alguma relação entre esses fenômenos? A pergunta se tornou o foco de seu mestrado e doutorado em biotecnologia, ambos realizados na UFSC.
Como ocorre frequentemente na ciência, a resposta não era simples. Ao longo dos anos, Gräf percebeu que cada descoberta tendia a produzir novas perguntas. Ainda assim, considera que seus estudos contribuíram para ampliar a compreensão sobre as particularidades da epidemia de HIV/aids no Sul do Brasil e sobre os fatores que moldaram sua história.
A formação científica, entretanto, não se restringiu aos resultados obtidos nas pesquisas. Gräf destaca especialmente a convivência com orientadores, professores e colegas que lhe ensinaram não apenas técnicas e conceitos, mas também uma maneira crítica, colaborativa e responsável de fazer ciência. E a trajetória o levou do mestrado em Florianópolis ao pós-doutorado na África do Sul.
Ciência diante de uma epidemia
No período de 2016-2017, Gräf foi pesquisador em nível de pós-doutorado na Escola de Medicina Nelson Mandela, na Universidade de KwaZulu-Natal, África do Sul. Esse período foi especialmente marcante, porque além de aprofundar sua formação, teve oportunidade de colaborar com pesquisadores interessados em responder às próprias questões científicas diante de uma das maiores epidemias de HIV do mundo. A experiência ampliou sua percepção sobre as relações entre ciência, saúde pública e cooperação internacional e mostrou, na prática, como conhecimentos produzidos em diferentes regiões podem se complementar na busca por respostas a problemas globais.
Hoje, Gräf já não trabalha diretamente com HIV, mas permanece interessado na questão que orientou boa parte de sua trajetória: compreender como a evolução dos vírus pode influenciar o surgimento e a intensidade das epidemias. Pesquisador em saúde pública do Instituto Carlos Chagas na Fundação Oswaldo Cruz, ele atua como membro da Rede Genômica Fiocruz, desenvolvendo atividades de vigilância genômica, coordenação de projetos multicêntricos e capacitação em sequenciamento e bioinformática. Suas principais linhas de pesquisa são na área de evolução e epidemiologia genômica de vírus de RNA.
Vírus que não param de mudar
Seu principal — embora não único — foco atual são os arbovírus, grupo de vírus transmitidos por mosquitos e outros insetos e responsável por doenças como dengue, febre amarela e chikungunya. Esses vírus compartilham uma característica fundamental: sofrem mudanças genéticas muito rapidamente e, portanto, estão em permanente evolução. Ao longo do tempo, podem surgir novas variantes capazes de se disseminar com maior facilidade, provocar quadros mais graves ou escapar parcialmente da proteção adquirida por infecções anteriores ou por vacinas.
A pesquisa de Tiago Gräf busca compreender como essas mudanças ocorrem e quais podem ser suas consequências para a saúde pública. Acompanhando a evolução dos vírus, pesquisadores podem identificar mais rapidamente variantes potencialmente preocupantes e produzir informações que auxiliem as autoridades de saúde a definir estratégias de vigilância, prevenção e controle de epidemias.
“A pandemia de covid-19 tornou esse processo evidente para a população mundial. Em poucos anos, diferentes variantes do SARS-CoV-2 surgiram e se espalharam, cada uma com características próprias”, apontou. Para Gräf, a experiência mostrou de maneira contundente que a evolução viral está longe de ser apenas um conceito restrito aos laboratórios: trata-se de um fenômeno capaz de produzir impactos diretos sobre a vida de milhões de pessoas.
Histórias escondidas nos genomas
Uma das características da ciência que mais fascinam Gräf é justamente seu caráter provisório e permanentemente aberto a novas descobertas. “Na ciência, poucas verdades são definitivas. Muitas vezes, uma descoberta gera novas perguntas ou até mesmo desafia ideias que pareciam muito bem estabelecidas”, observa. Para ele, essa dinâmica contribui para tornar os cientistas naturalmente curiosos e dispostos a aprender e rever suas próprias certezas.
Em sua área, porém, há um aparente paradoxo: embora trabalhe para compreender problemas do presente e antecipar riscos futuros, Gräf é especialmente fascinado pelo passado. Por meio dos genomas virais, consegue reconstruir a história do surgimento de novas variantes, identificar como elas se espalharam e investigar os impactos que produziram sobre a saúde das populações. É, como ele próprio compara, quase o trabalho de um detetive tentando reconstituir um crime. A diferença é que desvendar o que já aconteceu pode ajudar a mudar o que acontecerá depois.
“Esse olhar para o passado tem uma aplicação muito prática. Ao entender como os vírus evoluíram e se disseminaram anteriormente, podemos antecipar riscos futuros e produzir informações que ajudam a planejar estratégias de vigilância, prevenção e controle de epidemias. Em outras palavras, estudamos o passado para nos prepararmos melhor para o futuro.”
Uma nova rede de colaboração
Eleito membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Gräf vê a participação na instituição como uma oportunidade para ampliar colaborações e participar de debates que ultrapassam sua própria área de pesquisa. “Pretendo compartilhar experiências adquiridas na minha trajetória acadêmica e contribuir no fortalecimento da ciência como instrumento para o desenvolvimento tecnológico, econômico e social do Brasil”, afirma.
A entrada na ABC representa, assim, mais uma oportunidade de integrar diferentes perspectivas científicas — algo que sua própria trajetória, da investigação sobre HIV no Sul do Brasil à experiência na África do Sul e aos atuais estudos sobre arbovírus, já mostrou ser essencial para enfrentar problemas de dimensão global.
Entre guitarras, futebol e Hot Wheels
Fora da ciência, algumas paixões da adolescência permanecem intactas. Gräf continua fã de rock e metal, toca violão com frequência e ainda alimenta a esperança de, algum dia, voltar a ter uma banda. Também gosta de jogar futebol, torce para o Grêmio e aprecia a leitura.
Atualmente, porém, há um pequeno chefinho definindo boa parte da agenda de lazer: seu filho de quatro anos. Como resume com bom humor, todos esses hobbies acabam restritos aos momentos em que “a Patrulha Canina não está em missão de resgate e os Hot Wheels não estão disputando uma corrida decisiva pela sala”.