Buscando soluções sustentáveis para a determinação de elementos químicos

Clarice Dias Britto do Amaral nasceu e cresceu em Ubá, Minas Gerais, em 1984, onde brincava na rua – jogava bola, subia e descia morros e escorregava com papelão, sempre acompanhada das irmãs e primas. “Minha família tem muitas mulheres e cresci cercada por elas. Sempre fui uma criança criativa, que gostava de inventar histórias e criar situações imaginárias. Adorava brincar de casinha, vestir as roupas da minha mãe e encenar personagens e cenas do cotidiano. Também fazíamos shows, com cenário, figurino e tudo mais”, contou.

Por outro lado, também gostava de passar horas sozinha, em silêncio, observando a natureza. Colegas da escola frequentemente iam à sua casa para que ela lhes explicasse o conteúdo das aulas. “Na época, isso era quase uma brincadeira para mim. Só muitos anos depois percebi que ali já existia uma vocação para a docência”, refletiu Clarice, que sempre foi boa aluna. “Geralmente, eu era a melhor da turma. No ensino fundamental, amava ciências; no ensino médio, química e língua portuguesa/literatura.”

Seu pai estudou até a quarta série do ensino fundamental, trabalhou como caminhoneiro e, posteriormente, teve uma fábrica de sofás e outra de biscoitos de polvilho, além de atuar como vendedor de madeira e produtos relacionados. “Ele era um homem extremamente inteligente e sensível, à frente de seu tempo”, recordou Clarice. A mãe, que concluiu o ensino médio, trabalhou ao lado do marido nas fábricas, mas, durante boa parte da infância das filhas, não exerceu atividades profissionais fora de casa.

“Meu pai faleceu em 2022. Foi um grande incentivador e tinha muito orgulho das filhas. Sempre acreditou que poderiam ser o que quisessem, que tinham capacidade intelectual para alcançar seus objetivos e elas cresceram acreditando nisso. A mãe não ficava atrás: sempre dizia que as filhas teriam formação superior, uma profissão e independência financeira. “O objetivo foi alcançado. Eu fui a primeira da família a ingressar na universidade. Minhas irmãs, que são mais novas que eu, Janaína e Karina, também estudaram na Universidade Federal de Viçosa (UFV): Janaína formou-se em engenharia de alimentos e Karina em biologia. Estão bem empregadas e são independentes”, relatou Clarice.

Clarice conta que só teve contato com machismo e sexismo depois que saiu da casa dos pais. Até então, nunca havia ouvido que uma mulher fosse menos capaz do que um homem ou que determinadas profissões fossem mais adequadas para um gênero do que para outro.“Vejo meus pais como minhas maiores inspirações e modelos de vida. Com eles aprendi valores fundamentais, como ética, honestidade, resiliência e dedicação ao trabalho.”

Interdisciplinar desde o primeiro contato com a ciência

Durante o ensino médio, Clarice ficou em dúvida entre nutrição, psicologia e química. Como sua opção era estudar na UFV, a universidade pública mais próxima de Ubá, e a instituição não oferecia psicologia na época, acabou escolhendo química, área pela qual também havia se interessado graças a uma excelente professora. Em 2003, iniciou na UFV a graduação em licenciatura e bacharelado.No final do terceiro período, Clarice iniciou sua trajetória científica no Laboratório de Mineralogia e Química de Solos do Departamento de Solos da UFV, ligado ao curso de agronomia. “Foi uma experiência que me mostrou, desde cedo, os benefícios e as possibilidades que surgem das colaborações interdisciplinares”, relatou.

Na iniciação científica, foi orientada pelos professores Maurício Paulo Ferreira Fontes e Raphael Bragança Alves Fernandes, ambos do Departamento de Solos da UFV, que considera pesquisadores extremamente competentes e generosos em sua formação. Foi nesse período que começou a se delinear o principal eixo de sua carreira científica: a determinação de metais tóxicos e de outros elementos químicos em diferentes matrizes, utilizando técnicas espectroquímicas. Também teve seu primeiro contato com um espectrômetro de emissão óptica com plasma indutivamente acoplado (ICP-OES), instrumento que permanece fundamental em suas pesquisas. Na época, as análises eram realizadas principalmente em amostras de solos, águas e plantas, temas que despertaram seu interesse e continuam presentes em sua atuação científica.

Da engenharia química à espectroanalítica

Em 2008, Clarice mudou-se para cursar o mestrado em engenharia química na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação do professor José Renato Coury. Estudou os mecanismos de geração de nanopartículas de cloreto de sódio a partir da atomização de soluções salinas, investigando a relação entre o tamanho das gotas formadas e o diâmetro e a concentração das nanopartículas geradas.

Em 2010, seguiu na UFSCar para o doutorado em química, orientada pela pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste Ana Rita de Araújo Nogueira, experiência que lhe proporcionou uma valiosa vivência nos laboratórios da instituição. “A professora Ana Rita foi uma grande inspiração para mim, não apenas como pesquisadora, mas também como profissional, mãe e ser humano”, declarou.

Nesse período, conviveu de perto e foi, de certa forma, coorientada pelo professor Joaquim de Araújo Nóbrega, integrante do mesmo grupo de pesquisa, sob cuja supervisão posteriormente realizou um pós-doutorado. “Ele é uma das maiores inspirações da minha carreira. Seu exemplo de ética, profissionalismo, competência e generosidade acadêmica, bem como seus conselhos ao longo dos anos, tiveram um impacto profundo na minha formação e continuam sendo referências para mim.”

Química verde para problemas reais

Em 2017, Clarice Amaral tornou-se professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Espectrometria, Sensores e Biossensores. Sua pesquisa concentra-se no desenvolvimento de métodos analíticos modernos para quantificar elementos químicos – como nutrientes essenciais e substâncias potencialmente tóxicas – em alimentos, amostras ambientais, materiais forenses, matrizes clínicas e materiais tecnológicos.

Seus estudos buscam ampliar a capacidade de detectar quantidades muito pequenas desses elementos, aumentar a confiabilidade dos resultados e desenvolver metodologias alinhadas aos princípios da química verde. Para isso, é necessário preparar adequadamente as amostras. “Na maioria das vezes, precisamos transformar materiais sólidos em soluções líquidas para que possam ser analisados pelos equipamentos. Nesse contexto, desenvolvemos novas estratégias de preparo de amostras mais eficientes e sustentáveis, utilizando solventes considerados ‘verdes’, isto é, menos agressivos ao meio ambiente e à saúde humana.”

As aplicações são diversas, abrangendo desde o diagnóstico e monitoramento de doenças, por meio da detecção de metais e outros marcadores em amostras biológicas, até a remoção de contaminantes tóxicos da água. As pesquisas de seu grupo também buscam desenvolver métodos mais sustentáveis de análise e extração de elementos químicos, aplicáveis a plantas medicinais, resíduos eletrônicos, cigarros eletrônicos, organismos aquáticos e amostras ambientais.

“Hoje, além da pesquisa em si, o que mais me motiva é o trabalho com as pessoas. Como cientista e professora, encontro grande satisfação em acompanhar a formação dos estudantes. Ver o entusiasmo, o amadurecimento e o crescimento profissional dos meus orientados é algo que realmente me inspira, me ensina e me entusiasma todos os dias”, declarou Amaral.

O dinamismo da ciência também a motiva. “Gosto da ideia de que, a partir de experimentos realizados na bancada, análises de dados, planilhas e muitas outras atividades que frequentemente passam despercebidas pela maior parte da população, podemos propor soluções para problemas reais e contribuir para melhorar a vida das pessoas. Vivemos com a constante possibilidade de descobrir algo novo e com a busca incessante por respostas.”

Na sua área, Clarice destaca ainda a diversidade dos desafios. “Em um estudo, podemos investigar a presença de metais tóxicos ou auxiliar na elucidação de um caso forense; em outro, avaliar se um alimento contém quantidades adequadas de macro e micronutrientes essenciais à saúde. Tudo isso buscando desenvolver abordagens alinhadas aos princípios da química verde. Essa combinação entre conhecimento fundamental, tecnologia e impacto social é algo que considero fascinante.”

 

O reconhecimento da ABC

Clarice Amaral conta que ficou surpresa com a eleição como membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “É um reconhecimento com o qual eu sequer havia ousado sonhar — e olha que sou uma pessoa bastante sonhadora. Recebo essa distinção como um reconhecimento da comunidade científica a uma trajetória construída com muito trabalho, dedicação, resiliência e persistência.”

Acostumada a transitar por ambientes interdisciplinares, ela vê na ABC um espaço fértil para novas conexões e projetos. “Tenho grande interesse em estabelecer colaborações com pesquisadores de diferentes áreas. Além disso, gostaria de contribuir para inspirar jovens meninas a seguirem a carreira científica. Se minha trajetória puder ajudar algumas delas a entender que mulheres podem ser e estar onde quiserem, já me sentirei realizada.”

Ciência e maternidade

Fora do ambiente de trabalho, Clarice Amaral gosta de ler romances e livros sobre desenvolvimento pessoal, assistir a filmes e séries de suspense e ouvir podcasts. Também aprecia caminhar ao ar livre, encontrar amigos e fotografar paisagens e flores. “Tenho um olhar bastante atento e sensível para o que está ao meu redor. Pequenos detalhes da natureza costumam chamar minha atenção.”

Clarice é casada com Pedro e mãe de Sophie. “Nós nos casamos no primeiro ano do doutorado. Ele é um grande companheiro, sempre presente, apoiando e incentivando meus projetos e decisões. Ter alguém assim ao meu lado certamente contribuiu para que eu chegasse até aqui”, declarou.

A maternidade ocupa um lugar especial em sua trajetória. “O nascimento da minha filha, em 2018, representou uma grande transformação na minha vida. Essa vivência me mostrou, na prática, o quanto pode ser complexo conciliar as demandas da carreira científica com a criação de um filho. Foi uma experiência intensa, desafiadora e profundamente enriquecedora, que me tornou uma pessoa mais forte e determinada”. E ressalta: “Me tornei uma cientista melhor depois que me tornei mãe. Uma frase que assumi para a minha vida, pessoal e profissional, foi: ‘Não tem como dar errado para quem continua tentando até dar certo’.”

(Elisa Oswaldo Cruz para ABC | Foto: Ariana Leitão)