Se o mundo busca talentos brasileiros, o Brasil sabe onde eles estão?

Anderson S. L. Gomes é físico e Titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Diretor-Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), membro da Academia Pernambucana de Ciências e professor da UFPE.

 

Em reportagem publicada no UOL, em 30 de setembro de 2026, a jornalista Aline Sordili chamou atenção para um movimento que merece reflexão por parte da comunidade científica brasileira: o crescente interesse de universidades norte-americanas em recrutar estudantes do Brasil. Segundo o 2026 US Talent Report, 32% das instituições consultadas colocam o Brasil entre os países prioritários para recrutamento de estudantes. Em 2025, entretanto, brasileiros representavam apenas 2,4% dos estudantes internacionais de graduação nos Estados Unidos.

O dado revela uma oportunidade de expansão, mas também uma questão estratégica. Entre 2010 e 2025, aumentou a participação de áreas como computação, engenharia e ciências entre os brasileiros que estudam nos Estados Unidos. Não se trata apenas de atrair estudantes estrangeiros. Existe uma competição internacional por competências científicas e tecnológicas consideradas essenciais para o desenvolvimento econômico e a soberania dos países.

Essa competição tem números expressivos. Estudantes internacionais receberam 51,3% dos títulos de mestrado em áreas STEM nos Estados Unidos em 2025 e 36,4% dos doutorados em 2024. Em ciência da computação, os percentuais chegaram a 64,9% dos mestrados e 54,9% dos doutorados. Entre os novos doutores internacionais pesquisados em 2024, 75,8% declararam intenção de permanecer naquele país. Os Estados Unidos, portanto, não apenas atraem e formam talentos internacionais. Procuram incorporá-los, de maneira duradoura, ao seu sistema de ciência, tecnologia e inovação.

E o Brasil? Conhecemos suficientemente as trajetórias dos talentos que formamos?

Dados levantados pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), por meio do Observatório de Recursos Humanos para Ciência, Tecnologia e Inovação, ajudam a dimensionar essa questão. Entre 2010 e 2024, 3.020 brasileiros concluíram doutorado em universidades norte-americanas. Desses, 1.330, aproximadamente 44%, apresentavam vínculo formal de emprego no Brasil ao final de 2024. É fundamental interpretar corretamente esse resultado. Os demais 56% não representam necessariamente pessoas que permaneceram no exterior. A base utilizada identifica vínculos formais de emprego no Brasil, mas não contempla todas as modalidades de ocupação, como trabalho autônomo, empreendedorismo ou bolsas de pós-doutorado. Portanto, os 44% constituem um piso de ocupação formal no país, e não uma medida direta de retorno ou permanência no exterior. Mesmo com essas limitações, os dados suscitam uma pergunta que deveria ocupar lugar central na formulação de políticas científicas: o que acontece com os talentos brasileiros que circulam internacionalmente?

Durante décadas, essa discussão esteve associada à expressão “fuga de cérebros”. Embora ainda relevante em determinadas circunstâncias, o conceito é insuficiente para descrever a complexidade das trajetórias científicas contemporâneas. A literatura internacional passou a incorporar a noção de brain circulation, ou circulação de cérebros. Mais recentemente, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) vem utilizando a expressão talent circulation, circulação de talentos, para analisar trajetórias entre países, instituições, setores econômicos e disciplinas científicas. A mudança não é apenas terminológica. Ela altera profundamente a perspectiva da política pública.

Um pesquisador brasileiro que realiza doutorado ou pós-doutorado no exterior e permanece trabalhando em uma universidade, laboratório ou empresa de alta tecnologia não representa necessariamente uma perda definitiva para o país. Pode estabelecer redes de colaboração, desenvolver projetos conjuntos com instituições brasileiras, formar estudantes, transferir conhecimentos, participar da criação de empresas e, eventualmente, retornar.

Da mesma forma, contabilizar apenas quantos pesquisadores regressaram ao Brasil não permite compreender o impacto da experiência internacional sobre a capacidade científica e tecnológica nacional. Precisamos conhecer melhor as trajetórias, as competências desenvolvidas, as redes de colaboração e, principalmente, as conexões que esses profissionais mantêm com o Brasil. Essa questão torna-se ainda mais importante quando examinamos os desafios tecnológicos das próximas décadas.

O caso das terras raras é particularmente ilustrativo. O Brasil dispõe de recursos minerais relevantes e pretende avançar na cadeia produtiva, superando a condição de fornecedor de matérias-primas para desenvolver capacidades de processamento, separação química e produção de materiais de maior valor agregado. Entretanto, estudo recente do CGEE sobre o caminho estratégico para terras raras no Brasil, identificou uma lacuna significativa de recursos humanos especializados. Apesar da existência de grupos científicos qualificados, o país ainda apresenta deficiência de profissionais com competências específicas em separação de terras raras e fabricação de ímãs permanentes. Uma estimativa citada no estudo indica menos de 50 pesquisadores brasileiros com formação específica em separação desses elementos, enquanto uma única refinaria pode demandar entre 80 e 120 técnicos e engenheiros especializados. Não se trata de uma dificuldade exclusivamente brasileira. Em agosto de 2026, o Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou a iniciativa PROSPECT, com previsão de até US$ 100 milhões para ampliar a formação de profissionais em minerais críticos. Em setembro, lançou uma competição de US$ 16 milhões destinada a universidades para acelerar o desenvolvimento dessa força de trabalho.

O exemplo evidencia uma realidade frequentemente subestimada: a competição internacional por tecnologias estratégicas é também uma competição por pessoas capazes de desenvolvê-las e dominá-las.

O mesmo raciocínio vale para inteligência artificial, semicondutores, tecnologias quânticas, biotecnologia, energia e outras áreas intensivas em conhecimento.

Talento científico e tecnológico é também infraestrutura estratégica de um país.

O Brasil construiu, ao longo de décadas, um sistema relevante de formação de mestres e doutores, sustentado por universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento. Essa conquista precisa ser preservada e ampliada. Mas formar recursos humanos altamente qualificados, por si só, já não é suficiente. Precisamos compreender como essas competências se distribuem, circulam e se conectam aos desafios nacionais.

O país dispõe de bases importantes sobre formação, produção científica e mercado de trabalho. Instituições como o CGEE, por meio de seus estudos e observatórios, já acompanham diferentes dimensões das trajetórias de recursos humanos em ciência, tecnologia e inovação.

A integração dessas informações, associada a novas fontes e metodologias, permitiria avançar na construção de algo ainda inexistente de forma abrangente: um mapa da circulação internacional dos talentos científicos e tecnológicos brasileiros.

Esse mapa não deveria simplesmente registrar quem saiu e quem voltou. Precisaria identificar competências, áreas de especialização, destinos, redes de colaboração, trajetórias profissionais e conexões efetivas com instituições brasileiras. Mais do que um retrato estatístico, seria um instrumento permanente de inteligência estratégica, capaz de antecipar lacunas de competências, orientar investimentos em formação, estimular cooperações internacionais e apoiar políticas de atração e retorno de pesquisadores.

A proposta dialoga com uma tendência internacional. O Research and Innovation Careers Observatory, iniciativa conjunta da OCDE e da União Europeia, organiza seus indicadores em três dimensões: desenvolvimento de talentos, mercado de trabalho e circulação de talentos. A preocupação central é compreender não apenas quantas pessoas são formadas, mas como suas capacidades evoluem e contribuem para diferentes sistemas de inovação. Para a comunidade científica brasileira, essa agenda tem implicações importantes. A internacionalização é parte constitutiva da ciência contemporânea. A circulação de pesquisadores, estudantes e conhecimentos amplia a qualidade da pesquisa, fortalece redes e abre oportunidades de cooperação. O desafio não é restringir essa circulação, mas assegurar que o Brasil tenha condições de participar dela de maneira ativa e estratégica. Isso significa criar oportunidades para quem deseja retornar, manter vínculos produtivos com brasileiros que trabalham no exterior, atrair pesquisadores estrangeiros e construir mecanismos institucionais de colaboração de longo prazo. Significa, também, reconhecer que a formação de recursos humanos precisa estar articulada a uma visão de desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social.

A reportagem do UOL, que motivou esta reflexão, revela que universidades norte-americanas estão olhando para o Brasil como uma fonte promissora de talentos. (Isto está de fato acontecendo! Tenho recebido mails de universidades americanas solicitando indicação de estudantes “talentosos”). Isso não deve ser interpretado simplesmente como ameaça. A internacionalização da ciência é desejável e necessária. Mas há uma assimetria que precisamos superar: enquanto outros países procuram identificar e atrair as competências de que necessitarão no futuro, o Brasil ainda conhece de maneira fragmentada as trajetórias internacionais de seus próprios talentos. A ciência brasileira já demonstrou sua capacidade de formar profissionais reconhecidos internacionalmente. O próximo passo é transformar essa capacidade em redes duradouras de conhecimento, inovação e desenvolvimento.

Se o mundo está procurando os talentos brasileiros, é hora de o Brasil saber onde eles estão, o que fazem e, sobretudo, como podem contribuir para construir o futuro do nosso país.

Referências para apoio editorial

  • SORDILI, Aline. “Brasil está entre as prioridades de recrutamento das universidades dos EUA”. UOL, 30 de setembro de 2026.
  • Doutores brasileiros titulados nos EUA, 2010–2024: participação de áreas STEM e inserção no emprego formal no Brasil (RAIS 2024). Outubro de 2026.
  • Research and Innovation Careers Observatory 2026: Key Indicators on Talent, Mobility and Working Conditions. 2026.
  • Estudos sobre recursos humanos e competências na cadeia produtiva de terras raras, 2026.
  • S. Department of Energy. Iniciativa PROSPECT, 2026.
(Anderson Gomes, Titular da ABC e diretor-presidente do CGEE)