A área da Saúde está se transformando no mundo inteiro. O envelhecimento populacional acelerado, os impactos das mudanças climáticas e seus eventos extremos, e a maior atenção à saúde mental são algumas tendências que se verificam ao redor do mundo e também no Brasil. Ao mesmo tempo, novas tecnologias digitais abrem possibilidades de integração valiosas e até então impensáveis. Olhando para o longo prazo, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Academia Nacional de Medicina (ANM) iniciaram a série de debates “Planejamento Estratégico de Saúde para o Brasil 2050” com um encontro híbrido, sediado pela ANM no dia 22 de outubro de 2026.
Anfitrião do debate, o presidente da ANM Antonio Egídio Nardi, Titular da ABC, defendeu que a medicina em 2050 será muito diferente, e o objetivo é que assim seja para todos os brasileiros. “O SUS precisará ser preservado e fortalecido, mas não podemos ignorar suas fragilidades. Precisamos discutir planejamento sustentável, eficiência de gestão, incorporação de tecnologias e valorização dos profissionais. Um sistema eficiente é aquele que utiliza adequadamente seus recursos, não apenas reduz despesas”, afirmou.


Já a presidente da ABC, a biomédica Helena Bonciani Nader, enfatizou a interdependência da saúde com as outras áreas da gestão pública. “O futuro da saúde não depende apenas da medicina, mas da educação, do saneamento, da segurança alimentar e hídrica, da redução das desigualdades, do meio ambiente, e, sobretudo, das decisões políticas baseadas em ciência”, salientou. “Nós não vamos sair daqui com todas as respostas, mas espero que possamos formular as perguntas certas. Nosso compromisso é contribuir com um projeto de pais”.
Considerações preliminares
Hoje com 98 anos e ainda participativo no debate científico nacional, o médico Eduardo Moacyr Krieger está unicamente bem posicionado para contribuir nesse debate. Krieger presidiu a ABC durante 15 anos (1993-2007) e é membro da ANM desde 1997. Ele enviou uma carta ao evento com suas considerações. “No SUS, precisamos entender melhor onde o recurso deixa de se transformar em resultado, na fragmentação do sistema, nas filas, na falta de interação entre setores, na imensa produção de dados que nem sempre são utilizados”, argumentou. “Novos medicamentos, novas terapias celulares e gênicas, diagnóstico molecular e inúmeras outras tecnologias poderão transformar a medicina. Como oferecer tudo isso dentro das possibilidades econômicas de um sistema universal num pais de renda média? Precisaremos avaliar o verdadeiro valor de cada tecnologia, negociar melhor e abandonar aquilo que traz pouco benefício”, completou.
Especialista em Saúde Pública, o médico Paulo Buss mostrou preocupações com o horizonte excessivamente distante da iniciativa, sugerindo a criação de comitês permanentes entre as Academias e linhas de contato com os três poderes da República. “Precisamos ser modestos, não cabe a nós apenas o planejamento estratégico, mas compreender o processo político e contribuir com a política de saúde do Brasil”, alertou. “Todo governo tem um plano quinquenal e nossa função é fazer com que esse plano incorpore nossas sugestões; também as Comissões de CT&I e Saúde do Congresso tem que receber nossas propostas já no início do próximo mandato. Por fim, precisaremos registrar nossas propostas também no Supremo Tribunal Federal (STF)”.
Os problemas do Brasil do futuro

Epidemiologista e especialista em nutrição, o Titular da ABC Cesar Victora apresentou o novo relatório “Ameaças Globais à Saúde no Século 21”, publicado em 11 de outubro pelo grupo editorial The Lancet, onde são listadas 17 grandes ameaças: obesidade; crise de saúde mental; envelhecimento não-saudável; conflitos armados; conflitos nucleares; uso malicioso de IA; tabagismo; alcoolismo; hipertensão arterial; resistência antimicrobiana; pandemias naturais; mudanças climáticas; poluição atmosférica; colapso do sistema de ajuda internacional; subnutrição infantil; baixa escolaridade; e desigualdade de renda.
De todas, a obesidade é disparada o maior problema verificado no mundo e também no Brasil, onde 60% dos adultos apresentam sobrepeso e 25% das crianças. Além desta, altas taxas de hipertensão, o histórico problema da desigualdade e a nossa particular vulnerabilidade às mudanças climáticas são os quatro fatores mais proeminentes no país, conforme analisa o relatório.
“Mas a comissão não capta bem algumas desigualdades brasileiras e foca muito na violência de conflitos regulares, que não são o tipo de violência do brasil. A subnutrição no Brasil diminuiu de 40% para 5% nas últimas décadas, mas ainda existe sobretudo entre indígenas e bolsões de pobreza. Na educação o Brasil segue abaixo do mínimo esperado e, quanto aos usos maliciosos de IA, podemos enxergar isso no problema das bets, na influência das redes na saúde mental de jovens e na própria política”, avalia Victora a partir do relatório.
SUS do Futuro: integração regional e bases de dados únicas

As contribuições ao longo da manhã convergiram para uma visão de um Sistema Único de Saúde (SUS) mais regionalizado, integrado e digitalizado, com foco em prevenção e não apenas em resposta. Conforme lembrou o radiologista Giovanni Cerri, a inflação da saúde frequentemente é maior do que a inflação média, como demonstram os 13% de aumento em 2025. Nesse sentido, conseguir reduzir custos é importante para uma trajetória sustentável, e muito dessa redução pode vir de um manejo mais eficaz do sistema. “Estima-se que a integração de dados pode reduzir em 15% o gasto global em saúde, evitando o retrabalho, a automação de certas etapas do trabalho também pode liberar 35% do tempo de trabalho dos médicos para o cuidado”, afirmou o médico a partir de experiências já em curso, como o HC Digital, do Hospital das Clínicas da USP.
O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão defendeu o que chamou de “uma reforma sanitária de segunda geração” para o país, ultrapassando um modelo de SUS ainda hospitalar, fragmentado e episódico para um modelo de atenção continuada e bases de dados integradas. Nessa nova agenda, a reforma da assistência médica é parte de um sistema mais amplo de atenção integrada ao longo de toda a vida, crucial para um país que deverá ter 30% de idosos em 2050. “Não se elabora estratégias concretas sem olhar para a determinação social da saúde. O termo ‘idoso’ no Brasil esconde mais do que revela, pois, embora existam aqueles com rede de apoio, renda e suporte, a maioria é de baixa renda, com doenças crônicas mal controladas e ausência de redes”, afirmou.
Para essa reforma ocorrer, Temporão defende pacto entre as três esferas de governo pela longevidade saudável e equitativa, com metas, indicadores e financiamento especifico, articulando saúde, assistência social, previdência, trabalho, educação, CT&I, cultura, segurança e meio ambiente. Ele defende ainda atualizar a relação público-privado na saúde brasileira, estendendo ao setor privado os mesmos padrões de regulação vigentes ao setor público, aumentando transparência, integração de dados e responsabilidade sanitária pelo coletivo. “Se a transição demográfica e as mudanças climáticas são testes civilizatórios, o SUS é a ferramenta mais adequada para enfrenta-los”, resumiu.
Impactos indiretos na saúde: o caso do Bolsa Família
Exemplo de uma política ampliada de saúde é o Bolsa Família. À primeira vista o programa de transferência condicionada de renda pode não parecer relacionado ao setor, mas números do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs – Fiocruz) contam outra história. Quem os traz é o pesquisador e Titular da ABC Maurício Lima Barreto. “Alguns resultados observados em estudos randomizados nos mostram uma redução de 30% nos nascimentos prematuros, de 16% na mortalidade infantil, de 17% na mortalidade materna, de 17% no abuso de substâncias e de 56% nos suicídios”, exemplificou.
A redução é explicada pelo enfoque que o programa original tinha nas consultas preventivas como condicionantes ao recebimento do benefício, dessa forma estimulando o cuidado nos setores de baixa renda e escolaridade que são os que sempre apresentaram taxas piores de prevenção. “Reduzir pobreza, desigualdade e estimular a proteção social deve ser parte integral dos esforços para uma população brasileira saudável. Como consequência, reduzimos a demanda pelo SUS, esse é o paradoxo da prevenção que só a ciência é capaz de verificar”, afirmou Barreto.
O que significa uma divisão regional da Saúde?
No Brasil, embora as responsabilidades de saúde sejam compartilhadas entre os três níveis de governo, o grosso da execução cabe aos municípios. Para o ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina, esse modelo gera fragmentação excessiva, portanto ele defende uma ampliação da municipalidade para a regionalidade. “Precisamos entender o que é a necessidade local de uma população, mas esse local não pode ser o município, porque eles variam muito e alguns são muito pequenos. Temos que pensar em “regiões de saúde”. Dependendo do conceito, podemos ter entre 350 e 400 regiões metropolitanas de saúde e é nelas que os gestores municipal, estadual e federal deverão tomar decisões”.
Na mesma linha, José Luiz Gomes do Amaral afirma que a descentralização do SUS tem sido mal interpretada. “Hoje o que temos é total independência das três esferas de governo, e na mesma medida às instituições contratadas ou próprias reservam-se ao direito de decidir o que e como oferecer, muitas vezes as margens das necessidades regionais. Regionalização e regulação são fundamentais”, reforçou.
Novas tecnologias e integração público-privado

Atual secretário estadual de saúde do Rio de Janeiro, o médico Ronaldo Damião conta que um dos principais desafios é enfrentar o absenteísmo, que no estado chega a 40%. Para isso, estão sendo testadas estratégias com base em IA, em que agentes automatizados cuidam da marcação de consultas e da confirmação com os pacientes. “Logo quando chega na unidade de saúde o paciente deixa dois telefones, uma vez confirmada a data de retorno um agente de IA será responsável por entrar em contato faltando 10 e 3 dias para confirmar com o paciente se ele poderá comparecer”, explica. “Também estamos investindo em Telesaúde. Para uma simples retorno de exames, por exemplo, não há necessidade do paciente voltar a transitar num ambiente hospitalar”, adicionou.
O médico Raul Cutait defendeu a existência de centros regionais de referência, inclusive através de parceria com o setor privado. “Às vezes não é preciso montar um grande centro do zero quando existe um privado na região que poderia ser integrado. Quando trabalhei em Mainz, na Alemanha, vi como existiam exames que nosso centro simplesmente não fazia porque a menos de 50 quilômetros, em Frankfurt, existia um centro especializado capaz de atender”, exemplificou.
A pandemia expôs a dependência brasileira de insumos farmacêuticos produzidos no exterior. Pensando nisso, o Titular da ABC Manoel Barral Netto fez uma defesa dos investimentos no Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS) promovidos desde 2023. “Um pais com a capacidade cientifica do Brasil não pode depender do exterior, é uma questão de Defesa em situações de emergência. Claramente precisamos envolver o CEIS”, defendeu. Por outro lado, Gonzalo Vecina lembrou que o multilateralismo seguirá sendo necessário. “Nunca teremos condições de produzir tudo o que gostaríamos em saúde. Mesmo o CEIS fala em produtos e empresas estratégicos, definir o que é ‘estratégico’ é o que precisamos discutir”.
Formação médica nacional: o surgimento do Enamed e gargalos ainda existentes
No ano 2000 o Brasil possuía 100 faculdades médicas, número que quintuplicou desde então, sobretudo pela expansão do ensino superior privado. Mas a qualidade muitas vezes não acompanhou. Em 2025 foi aplicado pela primeira vez o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), com resultados reveladores. “As faculdades privadas foram responsáveis por 74% das notas 1, 2 e 3, as mais baixas do exame”, alertou o médico Marcelo Morales.
Na avaliação de Morales, o Enamed expôs as deficiências, mas levou a uma precipitação por parte do governo. Através da Medida Provisória 1370, condicionou-se a obtenção do registro profissional aos resultados do exame, levantando questões sobre a diferença entre averiguação da qualidade acadêmica e profissional. Após uma controvérsia, chegou-se a um consenso no qual o Enamed será aplicado ao longo da formação e o conselho responsável pela prova será composto por representantes do Ministério da Educação (MEC), do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Medicina (CFM), com pesos diferentes para cada etapa da formação, com o CFM influenciando mais na etapa final, mais perto da conclusão.
Outro problema na formação médica nacional é a falta de vagas para residência médica. O Brasil forma de 30 a 35 mil médicos todos os anos, mas abre apenas 15 mil vagas de residência, o que significa que de 15 a 20 mil médicos vão para o atendimento sem passar por essa etapa de formação prática. Conforme explicou Ronaldo Damião, um modelo que vem sendo testado para suavizar esse problema no Rio de Janeiro são as UPAs Acadêmicas, que tentam fornecer um pouco de experiência prática aos médicos sem residência antes de redistribuí-los pelo sistema de saúde do estado.
Falando da pós-graduação médica, a ex-presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e hoje chefe da seção de Ciência da Unesco, Denise Pires de Carvalho, lembrou que de todos os atuais programas de pós-graduação em saúde brasileiros 80% são acadêmicos e 20% profissionais, mas que há uma certa sobreposição entre eles. Assim como o resto dos programas, houve uma queda na procura pós pandemia e só agora voltaram a níveis parecidos com 2019. Há uma relação entre o número de alunos e bolsas disponíveis parecida com a média dos demais programas, mas o número de bolsas efetivamente utilizadas segue abaixo do 90% considerado ideal. Quanto à qualidade, os programas médicos estão acima da média nacional, sobretudo por causa das instituições públicas.