Cientistas repatriados divulgam manifesto sobre as eleições

O Coletivo Mais Ciência, formado por pesquisadores brasileiros repatriados pelo Programa Conhecimento Brasil, divulgou um manifesto sobre as eleições do próximo dia 25. No texto, os pesquisadores alertam que, em sua maioria, precisaram deixar o país para conseguir continuar vivendo da ciência durante o governo Jair Bolsonaro, devido aos profundos cortes orçamentários nas universidades e institutos de pesquisa federais.

O coletivo chama atenção para a falta de menção ao investimento em pesquisa, tecnologia e formação de cientistas no plano de governo de Flávio Bolsonaro e para propostas consideradas “temerárias” ventiladas por sua campanha nos últimos dias, como a retirada das instituições de ensino superior do guarda-chuva do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Para fins de comparação, o orçamento anual do MEC gira em torno dos R$ 270 bilhões, enquanto o do MCTI é de R$ 15 bilhões.

Leia o manifesto na íntegra:

“Manifesto de cientistas repatriados em favor da eleição de Lula

Somos um coletivo de um grupo composto por 600 cientistas brasileiros e viemos a público declarar nosso apoio à eleição de Lula e nossa rejeição às preocupantes propostas de Flávio Bolsonaro para ciência, tecnologia e ensino superior.

Fomos formados no Brasil, a maioria por instituições de ensino e pesquisa públicas. Sempre estivemos comprometidos com o desenvolvimento do nosso país, mesmo sob condições extremamente adversas, assim como a maioria dos demais professores e pesquisadores b rasileiros.

Porém, a maioria de nós teve que deixar o país no governo de Jair Bolsonaro para continuar sobrevivendo porque a produção de conhecimento e formação de cientistas no Brasil haviam sido congeladas por esse ex -presidente e seus ministros de educação, Abraham Weintraub , e de ciência e tecnologia, Marcos Pontes , através de profundos cortes no orçamento das universidades e institutos de pesquisa federais.

Recentemente, fomos chamados de volta ao país para gerar conhecimento e contribuir para a formação de nível superior e de novos cientistas através do Programa Conhecimento Brasil. Esse programa foi implementado pelo cientista, ex -diretor do INPE e do CNPq , Dr. Ricardo Galvão, sob o comando do presidente Lula, para reverter a maior fuga de cérebros da história do país, ocorrida no governo de Jair Bolsonaro.

Nos últimos 24 anos, nos governos Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, dedicamos nossas vidas à pesquisa e à formação de pesquisadores. Essas experiências, as ações concretas de governo, e os indicadores estatísticos mostram claramente que (1) Lula e Dilma tiveram e têm comprometimento com o ensino de nível superior, produção de ciência e tecnologia no país, e que (2) a família Bolsonaro nunca teve sequer respeito por esses temas.

O plano de governo e as declarações do candidato à presidência Flávio Bolsonaro, deixam claro que ele seguirá, de forma ainda mais brutal, a linha do seu pai, ex -presidente, atualmente condenado e preso, Jair Bolsonaro. Não há uma menção sequer sobre investimentos na pesquisa, tecnologia e formação de cientistas no Brasil no plano de governo de Flávio Bolsonaro. Ao contrário! Suas únicas propostas são extremamente temerárias: (1) a troca de abrigo ministerial das instituições de ensino superior, do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e (2) a reorientação da atuação de CAPES e CNPq, os dois órgãos de fomento à pesquisa no Brasil.

Ora, como o atual orçamento de 15 bilhões do MCTIC, que já está defasado e precisa ser em muito ampliado apenas para a produção científica, incluiria todas as instituições federais de ensino superior do Brasil, atualmente sob abrigo do MEC? Obviamente, com cortes drásticos na produção de conhecimento e formação de cientistas. Os cortes também são esperados no funcionamento e ampliação, também essenciais, das instituições de ensino superior.

Essa alteração ministerial e estrutural proposta por Flávio Bolsonaro irá não somente congelar e reduzir drasticamente a produção científica no Brasil, muito pior do que foi no governo de seu pai; irá provavelmente fechar as portas de instituições federais de ensino superior. É inviável abrigar o funcionamento de universidades, produção de conhecimento e formação de cientistas, deixando o orçamento de 270 bilhões do MEC, ficando somente com os 15 bilhões do MCTIC. Faça a conta!

As migalhas orçamentárias que estiverem disponíveis após essa mudança estrutural e orçamentária serão redirecionadas para ciência aplicada a temas de interesse da família Bolsonaro e da extrema direita brasileira. Acabará a pesquisa de base, que representa parte significativa da produção científica no país e sustenta toda a pesquisa aplicada que gera patentes e produtos. Tanto a reorientação de investimentos da CAPES e CNPq, quanto os alvos dessa reorientação são públicos no plano de governo de Flávio Bolsonaro.

Existe um plano explícito para acabar com a ciência, a formação de cientistas e de profissionais de nível superior no Brasil e promover uma nova fuga de cérebros do país, materializado no plano de governo de Flávio Bolsonaro, em suas declarações públicas, e na herança de seu pai, que ele, declaradamente, aprofundará.

Um país sem formação de cientistas, com cientistas calados, amarrados por falta de financiamento ou forçados a produzir conhecimento condicionado aos interesses do mercado ou para produção de commodities, está fadado a servir aos países que verdadeiramente investem em ciência, em uma sociedade global cada vez mais tecnológica e dependente de minerais críticos abundantes em território brasileiro. Essa subserviência está explicitamente planejada nas reuniões realizadas por Flávio e Eduardo Bolsonaro com, por exemplo, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

A ciência é apartidária e serve a todos, independentemente de sua orientação política. Mas nós, cientistas brasileiros, não podemos fechar os olhos ou apoiar, em hipótese alguma, as propostas de Flávio Bolsonaro, que acabarão com a ciência feita no Brasil.

Por essas razões, apoiamos o plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que visa o desenvolvimento científico, humano, tecnológico e soberano, através de cientistas brasileiros, em solo nacional.

11 de outubro de 2026

Coletivo Mais Ciência

Repatriada/os do Conhecimento Brasil

@coletivo_mais_ciencia”

 

Baixe o PDF do manifesto

(GCOM ABC)