Primeira brasileira a assumir, em 80 anos de existência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Diretoria-Geral Assistente da organização, especificamente no setor de Ciências, a cientista e médica brasileira Denise Pires de Carvalho deixa a presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e chega ao novo posto com uma agenda marcada pela defesa da ciência como instrumento de desenvolvimento, redução de desigualdades e cooperação internacional.
Carvalho leva para a organização a experiência de políticas voltadas à redução das assimetrias da pós-graduação brasileira e de programas como o Capes Global.edu, que estimula a colaboração entre instituições de diferentes regiões do próprio País e dialoga com a Agenda 2030 das Nações Unidas.
O pioneirismo aparece em diferentes momentos da trajetória de Denise Pires de Carvalho. Primeira mulher eleita reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela esteve à frente da universidade durante a pandemia de covid-19, em um contexto político marcado pelo negacionismo científico e por fortes pressões sobre as universidades. Mesmo diante desse cenário, manteve decisões baseadas em evidências científicas, com a criação de comitês de gestão e assessoramento, ações de diagnóstico da covid-19, de produção de álcool para fins hospitalares e a exigência de vacinação para a retomada presencial. Foi essa atuação, segundo ela, que a levou à Brasília.
Na Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), participou da revisão da Lei de Cotas, que passou a incluir a pós-graduação, e das discussões da lei sobre assistência estudantil e autonomia universitária, antes de assumir a presidência da Capes.
Essa trajetória ajuda a explicar também a agenda que Carvalho pretende levar agora para a UNESCO, em Paris. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, ela defende que os mesmos princípios que orientaram parte de sua atuação no Brasil ganhem escala nas relações internacionais, aproximando países e instituições do Sul Global e substituindo parte da lógica de competição que historicamente marcou a ciência por uma cultura de maior cooperação. Para ela, enfrentar desafios como mudanças climáticas, inteligência artificial e desigualdades exige mais interdisciplinaridade, multilateralismo e redes científicas capazes de atuar para além dos interesses específicos de cada país. “Este não é o século da hierarquização do conhecimento. Este é o século de trabalhar pela humanidade. Nós, cientistas, não podemos mais nos encastelar”, afirma.
Confira alguns trechos da entrevista a seguir:
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