O silêncio também é uma resposta

Leia o Editorial do Jornal da Ciência, publicado em 16 de outubro de 2026:

No dia 9 de outubro, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) mandaram as mesmas dez perguntas para as duas candidaturas à Presidência sobre educação e ciência, temas decisivos para o futuro do país. As perguntas foram idênticas, com o mesmo limite de dois mil caracteres por questão e o mesmo prazo: 15 de outubro, ao meio-dia. As duas assessorias das candidaturas confirmaram o recebimento. Ao final do prazo, só uma respondeu, a candidatura Lula-Alckmin.

Cada pergunta solicitava cinco informações: o que fazer, qual meta alcançar, por meio de qual instrumento, em que prazo e com quais recursos. Eram seis dias para responder, e nenhuma das perguntas exigia concordância com teses da comunidade científica. A ausência de resposta também é uma escolha e, em uma disputa presidencial muito equilibrada, é importante registrar que ela deixa sem esclarecimento o lugar que ciência, educação, saúde, clima, tecnologia e desigualdade ocupam nas prioridades da candidatura. Quem não presta contas antes da eleição dificilmente prestará depois.

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A condução da candidatura silente reivindica ações do governo anterior, ciclo 2019 a 2022. Diante da ausência de respostas às dez perguntas sobre ciência e educação, vale olhar para o que aconteceu naquele período. O histórico da gestão é uma referência concreta para avaliar o significado desse silêncio nesta reta final da disputa.

Foram quatro anos de graves restrições ao financiamento da ciência. Em janeiro de 2021, o Congresso aprovou e o governo sancionou, com dois vetos, a Lei Complementar nº 177, que proíbe o contingenciamento dos recursos do FNDCT, principal fundo de financiamento da pesquisa científica e tecnológica no Brasil. Em outubro daquele ano, porém, R$ 600,2 milhões dos R$ 690 milhões inicialmente destinados à ciência foram redirecionados para outros ministérios. Restaram apenas R$ 89,8 milhões, cerca de 13% do montante previsto. Em maio de 2022, a Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência alertaram para novos bloqueios: R$ 2,5 bilhões do FNDCT e R$ 426 milhões do MCTI, totalizando R$ 2,9 bilhões, cerca de 42% do orçamento discricionário do setor, descontadas as despesas obrigatórias.

A desvalorização também atingiu quem faz ciência. As bolsas de mestrado e doutorado permaneceram dez anos sem reajuste, até que a correção foi anunciada em fevereiro de 2023.

Foram também quatro anos marcados pelo confronto com evidências científicas. Durante a pandemia, tratamentos sem eficácia comprovada foram promovidos publicamente, enquanto vacinas e recomendações de autoridades científicas foram desacreditadas, em um contexto de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas. Em 2019, o diretor do INPE foi exonerado após a divulgação de dados sobre o desmatamento na Amazônia que contrariavam declarações do governo. Eram informações produzidas por monitoramento científico e imagens de satélite, não opiniões. No mesmo ano, universidades públicas foram alvo de acusações de promover “balbúrdia”.

A ausência de respostas às dez perguntas não pode, por si só, comprovar quais serão as decisões de um eventual novo governo. Mas tampouco deve ser tratada como um fato isolado, dissociado do histórico da gestão. Quando uma candidatura reivindica realizações daquele período, é legítimo confrontar essa reivindicação com os registros de sua atuação e cobrar esclarecimentos sobre metas, instrumentos, prazos e recursos.

Em uma eleição presidencial, o silêncio também merece ser examinado à luz dos fatos. E o histórico de 2019 a 2022 oferece elementos concretos para avaliar o lugar que a ciência e a educação ocuparam naquela gestão.

O que a candidatura de Lula respondeu

Com uma das candidaturas sem apresentar respostas às dez perguntas, não é possível realizar uma comparação direta entre as duas propostas a partir desse instrumento. Apresentaremos os principais destaques das respostas da candidatura Lula-Alckmin, cuja íntegra está publicada no Observatório das Eleições 2026.

Para examinar a posição da candidatura Flávio Bolsonaro sobre os mesmos temas, recorremos ao plano de governo registrado no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Essa consulta permite identificar propostas e compromissos explicitados no documento, bem como registrar lacunas relevantes. O plano de governo, contudo, não substitui as respostas solicitadas, elaboradas para esclarecer metas, instrumentos, prazos e recursos. Ao final de cada tema registramos o risco decorrente do que o plano da candidatura Flávio Bolsonaro propõe, ou deixa de propor, e da ausência de resposta às perguntas que lhe foram feitas. Os riscos apontados dizem respeito a esse documento e a esse silêncio.

Soberania. A candidatura Lula-Alckmin associa soberania à capacidade de desenvolver e dominar tecnologias críticas em áreas como inteligência artificial, semicondutores, saúde, defesa e transição energética. Os instrumentos declarados são o FNDCT, a Finep e o BNDES, e a resposta compromete-se a assegurar a utilização integral dos recursos do Fundo, sem contingenciamentos — compromisso que responde diretamente ao que ocorreu no ciclo anterior. Prevê ainda ampliar a cooperação científica com a América Latina, a África e os países do Sul Global, com acordos baseados em reciprocidade.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, a soberania é definida como “a capacidade de uma nação governar a si própria, fazer suas leis e cuidar do seu território” (p. 61), e o tema também aparece no capítulo de segurança pública, com a afirmação de que “a soberania começa na porta da sua casa” (p. 13). Nos trechos examinados, a ênfase recai sobre autonomia política, território e segurança, sem vincular a soberania ao desenvolvimento científico e tecnológico. Mantida essa definição, o risco é que a política de soberania deixe de fora justamente aquilo que hoje determina a autonomia de um país: quem não domina a tecnologia depende da decisão de quem domina. E a pergunta que daria à candidatura a chance de esclarecer isso ficou sem resposta.

Democracia e segurança. A candidatura Lula-Alckmin propõe protocolos de proteção a pesquisadores ameaçados e o aperfeiçoamento do marco legal da autonomia universitária, incluindo gestão de recursos próprios, escolha de dirigentes e respeito aos colegiados, com previsibilidade orçamentária e regularidade dos repasses às universidades federais. Na segurança pública, assume políticas baseadas em evidências, integração de dados entre os entes federativos, enfrentamento dos fluxos financeiros do crime organizado e avaliação científica dos resultados.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, as medidas destacadas são de natureza predominantemente punitiva: redução da maioridade penal para 16 anos (p. 13), construção de cinco presídios no modelo de El Salvador (p. 14) e fim da progressão de regime para crimes hediondos (p. 15). Nos trechos examinados não há indicação de como essas medidas seriam avaliadas nem de quais indicadores permitiriam aferir seus resultados, e o enfrentamento à desinformação é enquadrado no debate sobre censura (p. 66). O risco desse desenho é duplo: política penal sem avaliação se repete a cada governo sem que se saiba o que funcionou, e tratar o combate à desinformação como censura deixa pesquisadores e instituições de ensino sem amparo diante de ameaça e intimidação. Nada disso foi esclarecido, porque a candidatura não respondeu.

Desigualdades. A candidatura Lula-Alckmin propõe manter a Lei de Cotas e a assistência estudantil e criar um Pé-de-Meia universitário destinado a estudantes cotistas inscritos no Cadastro Único, para reduzir as dificuldades financeiras que levam jovens de baixa renda a abandonar a graduação. Assume metas regionais de desconcentração dos investimentos em pesquisa, com acompanhamento público dos resultados, e estende a política de inclusão à pós-graduação e às carreiras científicas, com menção explícita a mulheres, negros, indígenas e quilombolas e à implantação da Universidade Indígena.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, as palavras “cotas”, “ação afirmativa” e “políticas afirmativas” não aparecem em nenhuma das 76 páginas; o tema é tratado por vocação econômica regional (p. 61). Essa ausência não permite concluir, por si só, qual seria a posição da candidatura, mas evidencia que o documento não explicita compromissos com esses instrumentos. Diante de um plano silente sobre o tema e de uma candidatura que não respondeu quando perguntada, o risco é que a continuidade de políticas que mudaram o perfil das universidades brasileiras passe a depender de decisão administrativa, sem compromisso público assumido. Quem paga por essa incerteza é o estudante que já está matriculado e as futuras gerações.

Ciência e educação. A candidatura Lula-Alckmin compromete-se com a execução plena do FNDCT, inclusive do apoio não reembolsável, com o fortalecimento da Finep, do CNPq e da Capes, com um programa de atração e fixação de pesquisadores e com o reajuste regular das bolsas de pós-graduação. Prevê ainda incorporar as propostas da V Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e, na educação básica, cumprir as metas do PNE, ampliar o tempo integral e valorizar os professores.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, Capes e CNPq passam a priorizar o impacto produtivo e a governança do ensino superior é transferida do MEC para o MCTI (p. 36). O FNDCT e a Finep não são mencionados em nenhuma das 76 páginas. O documento propõe também deslocar a prioridade da pós-graduação para o lato sensu, remunerando instituições que formem “para o emprego que existe” (p. 37), e não esclarece quem responderá pela formação dos professores da educação básica. Adotado esse critério, o risco é retirar o financiamento tudo o que não tem contraparte empresarial imediata,  pesquisa básica, humanidades, educação, saúde pública e clima, e reduzir a formação de mestres e doutores quando o país mais precisa dela. A nossa pergunta pedia exatamente o mecanismo que protegeria essas áreas; a resposta não veio. Nenhuma das nossas maiores conquistas, da agricultura tropical ao pré-sal, da vacina pública à Embraer, teria sobrevivido a uma avaliação anual por impacto produtivo: todas levaram décadas e nenhuma tinha comprador no começo.

Saúde e SUS. É um dos compromissos mais concretos da candidatura Lula-Alckmin, com meta quantificada e prazo definido: atender, até 2033, 70% das necessidades nacionais com produção local, retomando a fabricação de insulina, concluindo a Hemobrás e produzindo radioisótopos no Reator Multipropósito Brasileiro. O instrumento declarado é o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com 31 parcerias para desenvolvimento produtivo firmadas desde 2024, encomendas tecnológicas, compras públicas estratégicas e pesquisa de insumos farmacêuticos a partir da biodiversidade amazônica, somados ao fortalecimento da capacidade regulatória da Anvisa.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, as medidas destacadas são a correção da tabela do SUS e a compra de exames da rede privada em horários ociosos (p. 37), sem meta ou prazo para ampliar a produção nacional de insumos. O risco de um plano sem essa meta não é hipotético: em novembro de 2024 faltou insulina na Farmácia Popular porque fabricantes globais redirecionaram sua capacidade por razões comerciais, decididas fora do Brasil. Sem compromisso de reduzir a dependência externa, e sem resposta à pergunta que o pedia, episódios como esse podem voltar a acontecer.

Clima. A candidatura Lula-Alckmin destaca a emissão de alertas de risco diretamente no celular de quem vive em áreas vulneráveis, com atuação do Cemaden e do INPE, articulada ao Plano Clima, que reúne oito planos setoriais de mitigação e 16 de adaptação. Prevê ampliar o AdaptaCidades, alcançando um conjunto de municípios que, somados, reúnem mais de 50 milhões de pessoas, com financiamento declarado pelo Fundo Clima, pelo Fundo Amazônia e pelo TFFF, além da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e do compromisso com o desmatamento líquido zero até 2030.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, a principal meta destacada é zerar o desmatamento ilegal até 2029 (p. 58), mas o documento não explicita, nesses trechos, o orçamento previsto, o efetivo necessário à fiscalização nem os órgãos responsáveis pela execução. O risco dessa formulação é que a meta permaneça no papel por falta de meio de execução, enquanto as cidades seguem sem política de adaptação. O custo disso já é conhecido: enchentes, secas e ondas de calor atingem primeiro quem tem menos recursos para se proteger.

Inteligência artificial. A candidatura Lula-Alckmin destaca a construção de infraestrutura própria, com supercomputação pública operada por instituições nacionais, plataforma nacional de dados e modelos de IA em língua portuguesa, além de regulação proporcional aos riscos. Prevê o Conselho Nacional pela Soberania Digital e o Centro Nacional de Transparência Algorítmica, para auditar decisões automatizadas e rastrear conteúdo sintético, e condiciona a expansão de data centers à avaliação de impactos sobre energia, água e comunidades.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, afirma-se que “mais do que usar a inteligência artificial, o Brasil tem tudo para produzi-la” (p. 56), com aposta na atração de data centers por meio da oferta de energia competitiva (p. 53), sem que os trechos examinados explicitem a base de pesquisa, a formação de pessoal ou o financiamento que sustentariam essa produção, nem propostas de regulação das plataformas digitais. Seguida essa aposta, o risco é o país entrar na transformação digital como fornecedor de energia e de dados e comprador de serviço: sem base computacional própria e sem regra para as plataformas, quem decide sobre os dados dos brasileiros é quem os hospeda.

Indústria e trabalho. A candidatura Lula-Alckmin propõe manter a Nova Indústria Brasil como eixo da reindustrialização, vinculando financiamento público a conteúdo nacional e a programas de desenvolvimento de fornecedores, com encomenda tecnológica, bônus tecnológico, subvenção econômica e poder de compra do Estado entre os instrumentos. Na agenda trabalhista, defende o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais sem redução salarial, além de proteção previdenciária e transparência algorítmica para trabalhadores de aplicativos.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, a ênfase recai sobre a redução dos custos do trabalho e a prevalência do negociado sobre o legislado (p. 43–45), com amplo revogaço regulatório (p. 27). O risco dessa escolha é apostar a competitividade no preço do trabalho em vez do conhecimento aplicado à produção: salário mais baixo não cria a vaga qualificada que o técnico formado pelo instituto federal estudou para ocupar, e o negociado sobre o legislado desloca para o trabalhador individual um risco que a lei hoje reparte.

Energia e minerais. A candidatura Lula-Alckmin propõe ampliar o processamento nacional de lítio, nióbio e terras raras e desenvolver materiais, componentes e equipamentos, por meio da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, com Finep e BNDES articulando crédito, subvenção, garantias e capital.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, também se defende agregar valor aos minerais no Brasil, mas o Estado é definido, no mesmo trecho, como “regulador e coordenador, não como empresário” (p. 55–56), sem que o documento esclareça quais instrumentos viabilizariam essa agregação de valor. Recusado o instrumento no mesmo parágrafo em que se afirma a intenção, o risco é que ela não encontre meio de se realizar e o país siga exportando matéria-prima e importando o produto acabado feito com ela, perdendo, junto com o valor, o emprego qualificado e a tecnologia.

Legado e futuro. A candidatura Lula-Alckmin explicita os indicadores pelos quais pretende ser cobrada: investimento em educação e pesquisa, alfabetização na idade certa, conclusão do ensino médio e superior, produtividade, renda, pobreza, índice de Gini, emissões, desmatamento e taxas de homicídios e feminicídios. Nomeia três transformações estruturais: colocar educação, ciência e conhecimento no centro do desenvolvimento, modernizar a economia com inovação e sustentabilidade, e reduzir desigualdades fortalecendo a democracia e a proteção social.

No plano da candidatura Flávio Bolsonaro, o horizonte destacado é o do próprio mandato, com a meta de crescimento econômico de 4% ao ano (p. 49). As expressões “2040” e “2050” não aparecem em nenhum dos dois documentos. O risco de um horizonte limitado ao mandato é conhecido de quem faz ciência: formar um pesquisador leva uma década, concluir uma transferência de tecnologia em saúde leva dez anos, e uma série de medições interrompida não se recupera. Ciclos assim não cabem em quatro anos. E, sem indicadores públicos assumidos, não há como cobrar o que quer que seja.

Também há o que cobrar de quem respondeu

Quem responde aceita ser cobrado. A pergunta sobre ciência e educação solicitava uma meta de investimento em pesquisa. A resposta da candidatura Lula-Alckmin propõe “elevar o investimento nacional”, mas não informa percentual do PIB nem ano de referência. A consulta trouxe informações novas sobre instrumentos de execução e fontes de financiamento que o plano de governo não detalhava. O número, porém, continua faltando. Essa será uma das primeiras cobranças no painel público de monitoramento.

Ao final, cumprimos o compromisso metodológico que assumimos antes de fazer as perguntas. Publicamos integralmente as respostas recebidas e registramos as ausências. A partir de 26 de outubro, os compromissos apresentados por escrito passarão a integrar um painel público de acompanhamento do governo eleito, que permanecerá no ar até 2030, independentemente do resultado da eleição.

As dez perguntas, as respostas recebidas na íntegra, a análise dos planos de governo e o registro da não resposta estão disponíveis na matriz do Observatório das Eleições 2026,.

Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

Helena Bonciani Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciência – ABC

(…)

Leia a matéria na íntegra, com as notas do “Especial da Semana – Perguntas para o Brasil”, no site do Jornal da Ciência

 

 

(Jornal da Ciência, 16/10/2026)