Em setembro de 2026, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou o relatório “Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return” que, nas palavras da líder científica da COP 30, Thelma Krug, foi uma “virada de chave” para o debate climático. No centro está o conceito de “overshoot”, ainda sem boa tradução em português. O termo, que pode ser traduzido como “ultrapassagem” ou “ir além de” tenta dar conta de um mundo que já excedeu o limite no aquecimento de 1,5°C – sempre com relação ao período pré-industrial – mas que almeja voltar a estar abaixo dessa meta. “O ‘overshoot’ não tem uma definição única, mas, para o PNUMA e o IPCC é algo temporário, em que excedemos mas voltamos para o limite antes do fim do século”, explica Krug.
A pesquisadora foi uma das convidadas do seminário “Ciência e Negociação Climática rumo à COP 31”, realizado na sede da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no Rio de Janeiro, com apoio da Academia Brasileira de Ciencias (ABC), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). As quatro entidades já haviam colaborado para seminários sobre saúde e mudanças climáticas, em agosto de 2025, e adaptações urbanas às mudanças climáticas, em março de 2026.
Abrindo o encontro, a presidente da ABC Helena Nader defendeu o legado da COP 30, que pela primeira vez contou com um Pavilhão da Ciência, e o esforço brasileiro para manter vivo o multilateralismo e a busca por uma solução negociada. “Esse debate nos convida a olhar o ‘overshoot’ não apenas como um alerta, mas como um chamado por ações baseadas em evidencias. Que possamos compreender melhor os riscos e identificar caminhos concretos, reduzindo emissões e desenvolvendo uma transição que combine trabalho digno com sustentabilidade”, enfatizou Nader.

1,5°C: reação política à indicação da ciência
O coordenador científico do Departamento de Clima do Itamaraty, Pedro Ivo Ferraz da Silva, que é membro do Comitê Executivo de Tecnologia da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (UNFCCC) fez um breve histórico das negociações que levaram ao marco de 1,5°C. Segundo ele, este é um número que saiu das mesas de negociação, e não das pranchetas dos cientistas.
“O que a ciência trouxe foi o horizonte dos 2°C, que vem desde a década de 90. As primeiras convenções do clima falavam em termos de acúmulo de gases do efeito estufa, não de temperatura, só com o tempo convencionou-se a ideia de um limite em 2°C. Mas quando fizeram uma análise de risco dos 2°C, houve uma reação forte das pequenas ilhas, pois essas corriam o risco de desaparecer. Junto aos países mais pobres, em 2009, iniciaram um movimento pelo 1,5°C, no ano seguinte ele foi indicado como aspiração de longo prazo. Em 2015 o Acordo de Paris finalmente consagrou o 1,5°C”, explica. “Ou seja, foi uma reação política à uma indicação científica. No início, muitos cientistas torciam o nariz justamente por não o considerarem realista”.
Órgãos como o IPCC ou o próprio PNUMA não são exclusivamente científicos, mas nascem da interseção entre a ciência e a política, tão necessária para a crise climática. Todos os processos envolvem a interação próxima entre cientistas e representantes de governos, desde a definição das prioridades e a seleção dos autores, os governos indicam e os cientistas definem. “Todo esse processo, que pode parecer lento demais, é também a força, é o que dá legitimidade a esses órgãos perante a comunidade internacional”, defende Ferraz.
Segundo ele, a dinâmica entre ciência e política segue central às discussões atualmente sendo conduzidas no IPCC. O Brasil se posiciona por uma relação mais próxima entre o órgão e as COPs, defendendo que o próximo relatório seja concluído a tempo de poder influenciar o próximo Global Stop Take (GST), avaliações quinquenais que os países realizam sobre as próprias metas. O GST leva dois anos para ficar pronto, e o próximo está marcado para 2028. “O Brasil defende que o próximo relatório do IPCC seja concluído a tempo de influenciar essas avaliações, enquanto países como Arábia Saudita, China e Rússia são contra, defendendo independência do IPCC em relação aos processos políticos”, explica. “Queremos um GST que remonte ao relatório de 2022, quando vários dos últimos eventos climáticos extremos ainda não haviam ocorrido?”, provoca.

Enfraquecimento do IPCC e pontos singulares de falha
Para se ter uma ideia, basear-se em 2022 significa desconsiderar os dois últimos El Niños, o de 2024, que causou o desastre das enchentes no Rio Grande do Sul, e o atual. Para o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo, Titular da ABC, o relatório recente do PNUMA é apenas uma constatação de que já estamos vivendo globalmente acima dos 1,5°C. “Esse número não deve ser entendido como um limite a partir do qual os desastres aparecem, pois eles já apareciam antes. Mas o problema é que crescem de forma exponencial”, afirmou.
Na mesma linha, Thelma Krug defende que a partir de agora, mais do que nunca, cada grau importa. “Muitos governos e jornalistas perguntam qual a diferença entre 1,5°C e 2°C, mas deveriam estar perguntando qual a diferença entre 1,5°C e 1,6°C”, reforça. A matemática também demonstra preocupação com o futuro do IPCC. “O Painel só tem dinheiro para chegar até julho de 2027, os governos não estão mais garantindo a participação de autores dos países em desenvolvimento. Seria uma mensagem muito ruim se o IPCC não conseguir concluir o relatório a tempo do GST”, afirma.
Hoje à frente do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), Krug também alerta que o recuo no financiamento enfraquece dos mecanismos de monitoramento da crise climática. “Temos um novo relatório ainda por publicar que é angustiante. Ele alerta para reduções em observações cruciais do clima, que chamamos de pontos singulares de falha. São observações mantidas por um único pais ou instituição, por exemplo, um satélite americano que está chegando ao fim de sua vida útil e não será reposto. Nós vamos indicar onde estão esses pontos para incentivar outros países a assumirem. Esse é um problema que não é só dos EUA, hoje a Defesa se tornou mais importante que a ciência”, lamentou.
