Nos últimos 35 anos, eventos climáticos extremos causaram mais de 5.400 mortes no Brasil, deixando mais de 11 milhões de desabrigados e causando mais de R$ 600 bilhões em prejuízos materiais. Os dados são do Atlas Digital de Desastres do Brasil e refletem o agravamento das mudanças climáticas no mundo inteiro. Pensando nisso, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) dedicou a quinta edição da série “COP 30: Balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP 31” ao tema “Mudanças climáticas e saúde humana: riscos crescentes e respostas possíveis”.
Para o debate, a ABC convidou professora do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Gabriela Di Giulio; a Coordenadora-Geral de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde do Ministério da Saúde, Helen da Costa Gurgel; o chefe da Seção de Arbovirologia e Febres Hemorrágicas do Instituto Evandro Chagas (IEC), Pedro Fernando Vasconcelos; e o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Paulo Buss.
“Onda de calor” ou “calor extremo”?
Em novembro de 2023, o Rio de Janeiro enfrentou uma das maiores ondas de calor de sua história. No dia 17 daquele mês, durante um show da cantora americana Taylor Swift, uma fã de 23 anos faleceu em consequência da temperatura extrema. A morte chamou a atenção para os perigos que as mudanças climáticas oferecem para a saúde humana. “No mesmo período, foram registradas 800 mortes adicionais no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. O calor mata mais do que outros fenômenos climáticos, mas por estarmos num país quente, achamos que sabemos lidar”, alertou Helen Gurgel.
Para comparação, as enchentes recordes no Rio Grande do Sul em 2024 deixaram 185 mortos. Essa discrepância entre o perigo do calor e a forma com que ele é compreendido pela sociedade leva a servidora do Ministério da Saúde a sugerir uma mudança terminológica: não mais chamar os períodos de aumento anormal de temperatura de “onda de calor”, mas de “calor extremo”. “Ondas de calor passam uma imagem positiva, as manchetes associam à praia, é preciso enfatizar a gravidade desses eventos”, defende.
As principais vítimas do calor extremo são idosos, crianças e gestantes, sobretudo nas populações socioeconomicamente vulneráveis. Dessa forma, a adaptação precisa ser orientada aos territórios e sistemas em maior risco. Naquele mesmo dia de calor extremo em 2023, a UTI neonatal do Rio de Janeiro colapsou e quatro bebês morreram. “Temos que entender quais serviços terão maior demanda e melhor prepará-los”. Outro problema são os efeitos compostos da resposta à crise, que precisam ser considerados. “O sistema de alertas do Rio de Janeiro é um exemplo. Quando soa um alerta, os serviços se esvaziam, mesmo aqueles essenciais à resposta aos fenômenos extremos. Como resolver essa contradição?”, provocou.
Quanto menor o município, maior a vulnerabilidade
O peso do fator local para as respostas climáticas faz com que estas passem, necessariamente, pelos diferentes níveis de governo. Essa realidade traz desafios para o Brasil, dada a complexidade da relação entre o federal, o estadual e o municipal. Para Gabriela Di Giulio, o país segue mal preparado para os extremos climáticos. Ela coordena o projeto CiAdapta 2, que desenvolve índices para medir a adaptação urbana nacional, expondo uma realidade nada animadora.
“Através de um conjunto de indicadores básicos, tentamos entender quantos instrumentos estão disponíveis aos municípios para adaptação climática. O que observamos é que para a maioria dos municípios o único instrumento disponível é a Defesa Civil, que em muitos casos está sucateada. Poucos são os que possuem regras para proteção ambiental, monitoramento da qualidade do ar ou planos de ação, é um cenário preocupante”, reflete.
Quanto menor a população do município, pior a situação. A baixa capacidade de investimento leva a incapacidade de gerar respostas climáticas ou políticas de sustentabilidade, criando uma “armadilha da pobreza”, na qual esses municípios são incapazes de reduzir suas vulnerabilidades ou reagir de forma adequada às emergências. Mas mesmo as cidades que melhor pontuam no índice, como São Paulo ou Brasília, ainda possuem disparidades acentuadas entre as áreas ricas e pobres, apresentando alguma capacidade de resposta a desastres, mas pouca capacidade de diminuir vulnerabilidades.

Somem as matas, emergem os vírus
As mudanças climáticas não afetam a saúde humana apenas pelo calor extremo ou desastres naturais. A pressão sobre os ecossistemas naturais, particularmente sobre as florestas tropicais, faz emergir outro problema: o surgimento de novas epidemias a partir de patógenos que circulam nos animais desses biomas. “As áreas verdes são o equilíbrio do mundo, mas também podem ser fontes de zoonoses, como foi com o Ebola, no Congo, como foi com a covid, nas florestas chinesas. Precisamos trabalhar a Amazônia com esse cuidado”, afirmou Paulo Buss.
Algumas dessas doenças já são bem conhecidas do brasileiro, como a dengue, a zika, a Chikungunya, a Febre Amarela (causada por um protozoário) e a malária, todas transmitidas pela picada de insetos. Outras, como as febres do Mayaro e do Oropouche, ainda não estão no imaginário popular, mas já foram identificadas na Amazônia. Esta última, inclusive, foi associada à ocorrência de microcefalia, assim como a zika. “A pesquisa por arbovírus na Amazônia revelou uma quantidade enorme de vírus nas florestas ao redor das cidades, sobretudo Belém. Mas isso é apenas porque são os lugares mais estudados”, explica Pedro Vasconcelos. “Em resumo: quem procura, acha”.
A ocorrência de surtos está associada à urbanização não planejada, ao controle inadequado de mosquitos, às grandes populações de hospedeiros primários, como aves e mamíferos, deslocados pela destruição das matas, à abertura de estradas e pólos de mineração. Em síntese, à intromissão humana cada vez mais robusta na floresta. “A província mineral de Carajás, no Pará, é maior que o estado do Rio de Janeiro. Lá nós identificamos novos vírus associados à encefalite, que encontramos também em São Paulo. Será que só tem nesses dois estados? Eu não acredito”, alertou o pesquisador.
Saúde nas COPs
A COP 30 inovou ao trazer a saúde para o centro do debate climático, com um dia inteiro de discussões e um pavilhão na chamada Zona Azul, organizado pela Organização Mundial da Saúde. Também saiu da conferência o Plano de Ação em Saúde de Belém, primeiro acordo internacional focado em adaptar os sistemas públicos de saúde. Conforme explicou Paulo Buss, que dirige o Observatório da Fiocruz em Saúde Global e Diplomacia da Saúde, o acordo está baseado em três pilares:
“Vigilância e monitoramento, buscando integrar dados meteorológicos, ambientais, socioeconômicos e epidemiológicos para antecipar riscos; capacitação, desenvolvendo as capacidades institucionais e treinando profissionais para agir em emergências climáticas; e inovação e produção, com foco na resiliência da infraestrutura física de atendimento, como as unidades básicas de saúde, e de acesso à necessidades básicas, como água potável, eletricidade e insumos, durante as emergências”, resumiu.
Desde a COP 26, realizada em 2021 em Glasgow, Escócia, a Aliança para Ação Transformadora sobre Clima e Saúde (ATTACH), já vem angariando ministérios de saúde e de meio-ambiente dos países-membro da OMS para desenvolver sistemas públicos mais resilientes. Para Buss, a expectativa é que esses trabalhos, e o próprio Pavilhão da Saúde, permaneçam na COP 31. “Trabalhamos com a máxima do ‘pessimismo da razão e otimismo da vontade’”, brincou o pesquisador, citando Antonio Gramsci.
Assista ao debate entre 12m e 2h40m do vídeo abaixo: