“O principal problema dos oceanos é o acúmulo de calor, que se intensifica durante o El Niño”, o diagnóstico é do biólogo Luiz Drude de Lacerda, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Ele coordenou a Reunião Magna da Academia de 2026, cujo foco foram os oceanos frente às mudanças climáticas, e, no dia 1º de setembro, abriu o terceiro debate da série “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31”, que antecedeu a cerimônia de diplomação dos novos afiliados ABC para a regional Nordeste e Espírito Santo, realizada na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Maceió.
Drude destacou que o calor causa impactos visíveis, como a morte dos recifes de corais, e invisíveis, como a acidificação das águas. Seja qual for a natureza das consequências, é certo que elas continuarão a afetar, com cada vez maior intensidade, sobretudo as populações da costa brasileira. Reagir a tal cenário, segundo o pesquisador, requer uma abordagem multidisciplinar e a humildade de ouvir as populações locais. “Para o oceano, pouco importa se você é biólogo, físico ou químico, e qualquer comunidade de pescadores entende muito mais da sua praia do que nós cientistas que vamos lá de vez em quando”, provocou.
Mares brasileiros aquecem acima da média global
O sudoeste Atlântico, que banha a costa brasileira, está aquecendo mais do que a média global dos oceanos. As correntes marinhas que correm pelo litoral estão se deslocando para o sul, trazendo águas mais quentes sobretudo à região entre Cabo Frio, no Rio de Janeiro, e a Argentina. Quem traz esse ponto é a bióloga Margareth Copertino, professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). “Estamos observando uma ‘tropicalização’ da fauna litorânea, inclusive de mar profundo. Florestas de macroalgas de zonas temperada estão morrendo, inclusive no Brasil, enquanto aumentam as espécies invasoras. Há uma explosão populacional de ouriços no mundo inteiro”, afirma.
Esse fenômeno é acompanhado pelo aumento na intensidade, frequência e duração das ondas de calor marinhas. Segundo Copertino, essa dinâmica vem desde a década de 80 e até o fim do século deve constituir uma “onda de calor permanente” no nosso pedaço de Atlântico. “80% das espécies de pescado brasileiras já são sobre-exploradas, some a isso o aquecimento e podemos perder 75% do nosso estoque pesqueiro”, alertou.
Recifes de corais: o canário na mina de carvão
Termômetro para a qualidade dos ecossistemas oceânicos, os recifes de corais são as principais vítimas do aquecimento das águas. Formados pela simbiose entre pólipos (a fase fixa do ciclo de vida das águas-vivas) e cianobactérias fotossintetizantes, estas últimas deixam os recifes quando a temperatura aumenta, causando o branqueamento e matando todo o colorido ecossistema que evoluíra conjuntamente aos recifes. Especialista no tema, a bióloga Beatrice Padovani, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), compara os recifes aos canários nas minas de carvão. “Os mineiros levavam canários em gaiolas para seus turnos de escavação, quando o animal apagava era porque as condições estavam impróprias e era preciso voltar. É o mesmo com os recifes”.
Padovani conta que os recifes de corais brasileiros resistiram até 2019, mas desde então dois episódios de branqueamento diminuíram significativamente a resiliência desses ecossistemas. “Em 2020 tivemos um fenômeno localizado, que não observamos ao redor do mundo, já em 2024, com os recordes de temperatura, tivemos um branqueamento global”, explica. Mesmo os recifes de Fernando de Noronha, historicamente mais resistentes por estarem em águas mais profundas, também estão sofrendo. “Precisamos de uma unidade de conservação na região, que não irá proibir totalmente a pescaria, mas a pesca de grande escala, que realiza arrastos de fundo, precisa acabar”, alerta a pesquisadora.

A fuga dos manguezais
Se os ecossistemas aquáticos estão ameaçados, o mesmo pode ser dito dos terrestres. Localizados na fronteira entre mar e terra, os manguezais precisam ser compreendidos em conjunto com os oceanos, pois o impacto das mudanças climáticas, sobretudo o aumento no nível do mar, traz consequências para esses biomas. Especialista nos mangues, o oceanógrafo Mário Luiz Gomes, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), compartilhou sua experiência de pesquisa e assessoramento de políticas públicas de conservação.
O pesquisador trabalhou durante anos nos manguezais de Guaratiba, a oeste da cidade do Rio de Janeiro, onde fez uma previsão inédita, recebida com dúvidas pela comunidade científica, mas que acabou se comprovando. “Há 30 anos, previmos que as planícies hipersalinas localizadas atrás dos mangues se tornariam verdadeiras florestas de manguezais, com a ocupação por vegetação cada vez mais alta, em resposta à elevação no nível do mar. É como se o sistema todo estivesse migrando em direção ao continente”, explica.
Esse fenômeno traz implicações concretas para a conservação: não basta apenas preservar os mangues, é preciso manter as regiões imediatamente atrás livres da ocupação humana, como alternativa de “fuga” para o bioma. Apesar de não ter sido aceita de imediato, as descobertas do pesquisador gradualmente começaram a moldar políticas públicas nacionais. “Duas novas reservas extrativistas criadas recentemente na Região Norte passaram a incorporar essa nossa visão, de preservar as áreas de fuga. Isso só foi possível porque abandonamos a simples geração de conhecimento e adentramos o processo político”, afirmou.
Oceanos e os serviços ecossistêmicos: oportunidades para o Brasil
Tanto os oceanos quanto as regiões costeiras não influenciam apenas o Brasil, mas provém vantagens, os chamados serviços ecossistêmicos, para o mundo inteiro. Quando juntamos o oceano brasileiro e a Amazônia, temos um país que contribui para resfriar o planeta, mas que se compromete com metas muito parecidas às dos países que mais contribuem para o aquecimento. Para o engenheiro e pesquisador da Rede CLIMA, Moacyr Araújo, professor da UFPE, o Acordo de Paris erra ao desconsiderar o histórico de cada país. “Não temos o direito de sermos inocentes, a passagem do Protocolo de Kyoto para o Acordo de Paris foi uma vitória para o Norte Global”, criticou. ”Enquanto os 10% mais ricos são responsáveis por 50% das emissões de gases do efeito estufa, os 50% mais pobres emitem apenas 8%”.
Mas as águas mais quentes do litoral brasileiro também representam uma oportunidade para a geração de energia limpa. O pesquisador é um defensor das tecnologias de conversão de energia térmica oceânicas (OTEC, da sigla em inglês), ou seja, a geração de eletricidade através da diferença térmica entre águas superficiais quentes e águas de fundo frias. A tecnologia precisa de uma diferença de 20°C entre as duas, condição comum no Brasil, sobretudo no Nordeste. “O litoral nordestino é a região mais propicia do mundo para essa tecnologia. Nós já temos instalações de petróleo que podem ser adaptadas e regiões propícias muito perto da costa”, propõe o pesquisador.
Assista ao debate entre 1h10m e 2h53m do vídeo abaixo: