Unicamp sedia o novo Centro de Matemática China–América Latina

A criação de uma estrutura permanente para fortalecer a cooperação científica entre China, Brasil, América Latina e Caribe é o foco da proposta do Centro de Matemática China–América Latina (CLAMC). A iniciativa pretende ampliar a colaboração em matemática e áreas científicas correlatas, articulando pesquisadores e instituições dos diferentes países.

Mais do que estabelecer uma nova instituição, a proposta é criar um ambiente no qual essa cooperação possa ocorrer de forma contínua e sustentável. Entre os objetivos estão estimular projetos conjuntos de pesquisa, ampliar a mobilidade de pesquisadores e estudantes, promover formação avançada e eventos científicos e estabelecer conexões institucionais mais sólidas entre as regiões.

A abrangência da iniciativa se refletiu na diversidade das instituições envolvidas em sua discussão, reunindo representantes de universidades, academias de ciências, sociedades matemáticas, agências de fomento, governos e organizações científicas internacionais.

Ciência brasileira apresenta suas perspectivas

Participaram o vice-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernando Coelho; o chefe de gabinete da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Rubens Diniz, representando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); e a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena B. Nader.

Helena Bonciani Nader | Foto: Divulgação Unicamp/SBM

Pelo lado brasileiro, um conjunto de representantes de instituições científicas, acadêmicas e governamentais apresentou diferentes perspectivas sobre a criação e o potencial do CLAMC.

A presidente da ABC agradeceu o convite e afirmou que o Centro de Ciências Matemáticas e Desafios Globais proposto tem o potencial de transformar a cooperação entre China, Brasil, América Latina e Caribe em uma estrutura científica permanente. “Esta iniciativa, desenvolvida conjuntamente pela Unicamp e pelo Centro Yau de Ciências Matemáticas da Universidade de Tshingua, tem todas as condições para se tornar um grande centro. Ele poderá apoiar a pesquisa, a formação avançada, a mobilidade, projetos conjuntos e, sobretudo, conexões institucionais duradouras.”

Nader relatou que Academia Brasileira de Ciências conhece o valor da continuidade na cooperação científica. “O acordo da ABC com a Academia Chinesa de Ciências foi renovado em 2023 por mais cinco anos e tem apoiado workshops, intercâmbios e a cooperação científica. Nossas visitas à China reforçaram uma mensagem importante: a ambição científica exige visão de longo prazo, instituições estáveis e centros de excelência conectados em todo o país. Esse é um ponto que poderá servir de semente para o futuro do Centro.”

Na opinião de Helena, a Unicamp é uma sede excepcional, com grande força científica e capacidade para abrigar uma iniciativa de pesquisa dessa dimensão. O território científico, no entanto, deverá ser todo o país e, por vocação, a América Latina e o Caribe. “Esse caráter nacional deve estar presente em sua governança, em sua agenda científica e no acesso proporcionado às universidades. A presença do Centro nas diferentes regiões do Brasil deverá funcionar como uma rede de programas de pesquisa. Sua vocação regional deverá ser aprofundada por meio de uma liderança compartilhada com instituições de toda a América Latina e do Caribe”, ressaltou.

As ciências matemáticas são essenciais para o avanço do conhecimento e indispensáveis para enfrentar os grandes desafios do mundo contemporâneo, como mudanças climáticas, biodiversidade, saúde pública, inteligência artificial, energia e desenvolvimento social. “Um centro torna-se verdadeiramente nacional pela qualidade de suas pessoas. Que este Centro, sediado na Unicamp, pertença à ciência brasileira como um todo e se torne uma ponte permanente entre China, Brasil, América Latina e Caribe.”

Também contribuíram para a discussão a presidente da Academia Nacional de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Argentina (ANCEFN), Alicia Dickenstein; a chefe do TWAS-Lacrep (Parceiro Regional para a América Latina e o Caribe da Academia Mundial de Ciências), a Acadêmica Marie-Anne Van Sluys; a vice-presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), a Acadêmica Vanderlan Bolzani; e o presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Graeff.
Vanderlan Bolzani, Rubens Diniz, Helena Nader, Fernando Coelho, Marie-Anne van Sluys e Nancy Garcia (Unicamp), moderadora | Foto: Divulgação Unicamp/SBM

O diretor de Desenvolvimento Científico da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Acadêmico Carlos Aragão enviou uma mensagem em vídeo, compartilhando suas reflexões sobre a iniciativa. Ele registrou seu entusiasmo com a iniciativa e destacou o apoio local, com a disponibilização de um terreno para que o  Centro seja instalado.

Carlos Aragão | Foto: Divulgação Unicamp/SBM

Ele acenou com a possível contribuição da FInep, que é a secretaria executiva do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O fundo atua por meio de 12 programas importantes, sendo que o primeiro deles é o Programa de Consolidação e Expansão da Infraestrutura (Proinfra) no Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação. “Nesse programa existem editais e chamadas públicas são lançados regularmente, em particular o Proinfra Expansão e o Proinfra Centros Temáticos, que podem ser efetivamente boas opções para obtenção de financiamento para o novo centro”. Destacou ainda o Programa 11, que é voltado para inteligência artificial, e o Programa 12, de desastres climáticos, “que é um programa onde métodos matemáticos modernos certamente serão muito bem-vindos para aprimorar a nossa capacidade de monitoramento e enfrentamento desses episódios.”

Aragão destacou que a matemática é uma ciência tão fundamental, tão transversal que, certamente, “com a criatividade dos pesquisadores chineses, latino-americanos e caribenhos teremos muitos bons projetos que poderão vir a ser submetidos nesses editais de chamadas da Finep.”

Uma ponte entre ciência, educação e governos

A construção de um Centro com visão de longo prazo exige não apenas excelência científica, mas também compromisso institucional, cooperação internacional e envolvimento educacional. Nesse contexto, a conexão entre pesquisa, ensino superior e educação básica foi apontada como particularmente relevante para ampliar, no longo prazo, os impactos da iniciativa sobre o desenvolvimento da matemática e da ciência.

A perspectiva chinesa e governamental foi apresentada pelo vice-cônsul do Consulado-Geral da República Popular da China em São Paulo, Zeng Jinghua; pelo diretor do Departamento Político e de Imprensa do mesmo Consulado, Zhuang Su; e pelo coordenador-geral de Ensino Fundamental, representando o Ministério da Educação (MEC), Victor Both Eyng.

Yitwah Cheung, Zhuang Su, Victor Both Eyng e Benilton de Sá Carvalho | Foto: Divulgação Unicamp/SBM

Também participaram a vice-presidente da Sociedade Matemática Chinesa, Liping Yuan, e o secretário do Comitê Consultivo Científico do CLAMC, Yitwah Cheung, reforçando a dimensão científica e institucional da cooperação com a China.

América Latina amplia a rede de colaboração

A dimensão regional da iniciativa ganhou destaque com a participação de representantes de sociedades matemáticas e importantes instituições científicas de diferentes países da América Latina, além de organizações internacionais.

Apresentaram as perspectivas de seus países e instituições a integrante do Comitê Consultivo Científico do CLAMC e presidente da Sociedade Colombiana de Matemática, Sofía Pinzón; o presidente da Sociedade Chilena de Matemática, Mauricio Godoy Molina; o diretor do Centro de Modelagem Matemática da Universidade do Chile, Héctor Ramírez; e o diretor do Instituto de Matemática da Universidade Nacional da Colômbia, Andrés Villaveces.

Participaram ainda a secretária-geral da Sociedade Matemática Mexicana, Fabiola Manjarrez Gutiérrez; o representante da Sociedade Matemática do Paraguai, Christian Schaerer; o representante da Sociedade Matemática da Venezuela, Wilfredo Urbina; o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa Operacional, Cristiano Torezzan; e a presidente do Centro Internacional de Matemática Pura e Aplicada (Cimpa), na França, a Acadêmica Helena Nussenzveig Lopes.

Uma rede permanente para a matemática

A diversidade de países e instituições representados evidencia uma das principais ambições do CLAMC: criar novas pontes entre comunidades matemáticas que já mantêm relações de cooperação, mas que podem ampliar significativamente sua capacidade de desenvolver projetos conjuntos, formar pesquisadores e promover a circulação de estudantes e cientistas.

O envolvimento de universidades, academias de ciências, organizações científicas internacionais, sociedades matemáticas, governos e agências de fomento mostra também que a consolidação do Centro dependerá de um amplo ecossistema institucional, capaz de transformar a proposta em uma iniciativa sustentável e de longo prazo.

Nesse sentido, o CLAMC pretende ir além de uma estrutura formal de cooperação. A proposta é criar um espaço permanente de encontro e intercâmbio entre diferentes sistemas científicos, aproximando instituições e novas gerações de pesquisadores da China, do Brasil, da América Latina e do Caribe.

A matemática, por sua própria natureza, oferece um terreno especialmente fértil para essa aproximação. Como linguagem compartilhada para além de fronteiras nacionais e culturais, ela pode funcionar também como instrumento de integração científica — conectando pessoas, instituições e países e transformando essas conexões em conhecimento produzido conjuntamente.

I Encontro Conjunto Clamc–Umalca de Matemática

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC, com dados da SBM/Unicamp)