A criação de uma estrutura permanente para fortalecer a cooperação científica entre China, Brasil, América Latina e Caribe é o foco da proposta do Centro de Matemática China–América Latina (CLAMC). A iniciativa pretende ampliar a colaboração em matemática e áreas científicas correlatas, articulando pesquisadores e instituições dos diferentes países.
Mais do que estabelecer uma nova instituição, a proposta é criar um ambiente no qual essa cooperação possa ocorrer de forma contínua e sustentável. Entre os objetivos estão estimular projetos conjuntos de pesquisa, ampliar a mobilidade de pesquisadores e estudantes, promover formação avançada e eventos científicos e estabelecer conexões institucionais mais sólidas entre as regiões.
A abrangência da iniciativa se refletiu na diversidade das instituições envolvidas em sua discussão, reunindo representantes de universidades, academias de ciências, sociedades matemáticas, agências de fomento, governos e organizações científicas internacionais.
Ciência brasileira apresenta suas perspectivas
Participaram o vice-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernando Coelho; o chefe de gabinete da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Rubens Diniz, representando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); e a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena B. Nader.

Pelo lado brasileiro, um conjunto de representantes de instituições científicas, acadêmicas e governamentais apresentou diferentes perspectivas sobre a criação e o potencial do CLAMC.
A presidente da ABC agradeceu o convite e afirmou que o Centro de Ciências Matemáticas e Desafios Globais proposto tem o potencial de transformar a cooperação entre China, Brasil, América Latina e Caribe em uma estrutura científica permanente. “Esta iniciativa, desenvolvida conjuntamente pela Unicamp e pelo Centro Yau de Ciências Matemáticas da Universidade de Tshingua, tem todas as condições para se tornar um grande centro. Ele poderá apoiar a pesquisa, a formação avançada, a mobilidade, projetos conjuntos e, sobretudo, conexões institucionais duradouras.”

O diretor de Desenvolvimento Científico da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e Acadêmico Carlos Aragão enviou uma mensagem em vídeo, compartilhando suas reflexões sobre a iniciativa. Ele registrou seu entusiasmo com a iniciativa e destacou o apoio local, com a disponibilização de um terreno para que o Centro seja instalado.

Ele acenou com a possível contribuição da FInep, que é a secretaria executiva do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O fundo atua por meio de 12 programas importantes, sendo que o primeiro deles é o Programa de Consolidação e Expansão da Infraestrutura (Proinfra) no Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação. “Nesse programa existem editais e chamadas públicas são lançados regularmente, em particular o Proinfra Expansão e o Proinfra Centros Temáticos, que podem ser efetivamente boas opções para obtenção de financiamento para o novo centro”. Destacou ainda o Programa 11, que é voltado para inteligência artificial, e o Programa 12, de desastres climáticos, “que é um programa onde métodos matemáticos modernos certamente serão muito bem-vindos para aprimorar a nossa capacidade de monitoramento e enfrentamento desses episódios.”
Aragão destacou que a matemática é uma ciência tão fundamental, tão transversal que, certamente, “com a criatividade dos pesquisadores chineses, latino-americanos e caribenhos teremos muitos bons projetos que poderão vir a ser submetidos nesses editais de chamadas da Finep.”
Uma ponte entre ciência, educação e governos
A construção de um Centro com visão de longo prazo exige não apenas excelência científica, mas também compromisso institucional, cooperação internacional e envolvimento educacional. Nesse contexto, a conexão entre pesquisa, ensino superior e educação básica foi apontada como particularmente relevante para ampliar, no longo prazo, os impactos da iniciativa sobre o desenvolvimento da matemática e da ciência.
A perspectiva chinesa e governamental foi apresentada pelo vice-cônsul do Consulado-Geral da República Popular da China em São Paulo, Zeng Jinghua; pelo diretor do Departamento Político e de Imprensa do mesmo Consulado, Zhuang Su; e pelo coordenador-geral de Ensino Fundamental, representando o Ministério da Educação (MEC), Victor Both Eyng.

Também participaram a vice-presidente da Sociedade Matemática Chinesa, Liping Yuan, e o secretário do Comitê Consultivo Científico do CLAMC, Yitwah Cheung, reforçando a dimensão científica e institucional da cooperação com a China.
América Latina amplia a rede de colaboração
A dimensão regional da iniciativa ganhou destaque com a participação de representantes de sociedades matemáticas e importantes instituições científicas de diferentes países da América Latina, além de organizações internacionais.
Apresentaram as perspectivas de seus países e instituições a integrante do Comitê Consultivo Científico do CLAMC e presidente da Sociedade Colombiana de Matemática, Sofía Pinzón; o presidente da Sociedade Chilena de Matemática, Mauricio Godoy Molina; o diretor do Centro de Modelagem Matemática da Universidade do Chile, Héctor Ramírez; e o diretor do Instituto de Matemática da Universidade Nacional da Colômbia, Andrés Villaveces.
Participaram ainda a secretária-geral da Sociedade Matemática Mexicana, Fabiola Manjarrez Gutiérrez; o representante da Sociedade Matemática do Paraguai, Christian Schaerer; o representante da Sociedade Matemática da Venezuela, Wilfredo Urbina; o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa Operacional, Cristiano Torezzan; e a presidente do Centro Internacional de Matemática Pura e Aplicada (Cimpa), na França, a Acadêmica Helena Nussenzveig Lopes.
Uma rede permanente para a matemática
A diversidade de países e instituições representados evidencia uma das principais ambições do CLAMC: criar novas pontes entre comunidades matemáticas que já mantêm relações de cooperação, mas que podem ampliar significativamente sua capacidade de desenvolver projetos conjuntos, formar pesquisadores e promover a circulação de estudantes e cientistas.
O envolvimento de universidades, academias de ciências, organizações científicas internacionais, sociedades matemáticas, governos e agências de fomento mostra também que a consolidação do Centro dependerá de um amplo ecossistema institucional, capaz de transformar a proposta em uma iniciativa sustentável e de longo prazo.
Nesse sentido, o CLAMC pretende ir além de uma estrutura formal de cooperação. A proposta é criar um espaço permanente de encontro e intercâmbio entre diferentes sistemas científicos, aproximando instituições e novas gerações de pesquisadores da China, do Brasil, da América Latina e do Caribe.
A matemática, por sua própria natureza, oferece um terreno especialmente fértil para essa aproximação. Como linguagem compartilhada para além de fronteiras nacionais e culturais, ela pode funcionar também como instrumento de integração científica — conectando pessoas, instituições e países e transformando essas conexões em conhecimento produzido conjuntamente.