No método científico, a experimentação é etapa central, quando as hipóteses são postas à prova. O farmacêutico Rafael Azevedo Baraúna, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), está acostumado a experimentar, seja na bancada, com pipetas e tubos de ensaio, ou na sua própria trajetória. Hoje especializado em genética, caminhos alternativos poderiam tê-lo feito farmacólogo, músico, ou até mesmo jogador de basquete profissional.
Nascido em Belém, Rafael viveu uma infância itinerante, viajando pelo Norte e Nordeste junto ao pai, conforme o trabalho demandasse. Por conta disso, a família morou em São Luís e Recife, mas logo voltava à capital do Pará, onde Rafael chegou à adolescência. Nesse período de descobertas, aventurou-se no esporte, treinando basquete profissionalmente por alguns meses; outra paixão, a música, aflorava conforme aprendia a tocar violão, guitarra e piano, e mergulhava na teoria musical. “Paralelamente, meus pais, Luiz e Marlise, eram incansáveis para proporcionar a melhor educação possível para os três filhos, eu e meus irmãos, Danilo e Fabíola. Valorizávamos essa entrega e correspondíamos com boas notas no colégio”, conta.
O empenho dos pais deu resultado, e cada um dos filhos seguiu por um caminho diferente. Fabíola estudou Letras, e hoje é colega de Rafael na Federal de Belém. Já Danilo se interessou pelas Artes Visuais, e hoje é pesquisador na Universidade de Newcastle, Inglaterra. Instrumentista e membro de uma banda, Rafael considerou cursar música e seguir sua veia artística na academia. Mas o interesse pela ciência, em especial a química e a biologia, falou mais alto. Em 2005, o jovem ingressou na graduação em Farmácia da UFPA.
A escolha de se tornar pesquisador viria na faculdade, mas não de imediato. Seu primeiro estágio, no Laboratório de Farmacologia, apresentou uma faceta da ciência que não era para ele. “Ao final dos experimentos, quando tínhamos de sacrificar os animais, percebia que não era a minha área”. A mudança para a genética se deu após cursar a matéria, no terceiro período, e enfrentar uma frustração inicial. “Tirei uma nota muito baixa na primeira prova, o que me fez estudar por dias para a segunda. Mergulhei nos livros didáticos e tive o primeiro vislumbre de uma área em que eu gostaria de trabalhar. Ao final, procurei estágio no Laboratório de Polimorfismo de DNA”, lembra.
Seu ingresso no laboratório se deu de maneira fortuita, Rafael foi um dos alunos de Farmácia escolhidos para ajudar a implementar a metagenômica na rotina do grupo. Também conhecida como genômica ambiental, a técnica permite sequenciar e estudar simultaneamente o genoma de múltiplos organismos presentes no ambiente, ao invés de se prender a extrações individuais. À época, a metagenômica ainda era pouco difundida no país. “Meus primeiros trabalhos de bancada foram sob supervisão das biólogas Silvanira Barbosa e Soraya Andrade, que até hoje trabalham comigo na UFPA. Elas foram as primeiras a me ensinarem como segurar uma pipeta, centrifugar amostras e extrair o DNA”.
Sob orientação da professora Paula Schneider, Rafael tocou o trabalho com metagenômica por dois anos, quando solicitou transferência para a área da proteômica. Enquanto a genômica investiga a carga de DNA de um organismo, a proteômica olha para as proteínas que o compõe. Em sintonia com sua veia experimental, Rafael embarcou em mais essa mudança. “Passei a trabalhar com a pesquisadora Alessandra Ciprandi, que fazia doutorado à época sob orientação do professor Artur Luíz da Costa da Silva, ela foi muito importante na minha formação”.
Como trabalho de conclusão de curso, Rafael vasculhou o conteúdo proteico da Chromobacterium violaceum para descobrir quais proteínas lhe conferiam resistência ao arsênio. Esse foi seu primeiro contato com a evolução da resistência bacterial, tema em que viria a se especializar. O trabalho se estendeu para o mestrado, dessa vez sob orientação direta do professor Artur, no qual estendeu a análise para a resposta bacteriana a outros metais pesados.
A parceria com Artur e Alessandra permaneceu para o doutorado, mas dessa vez seu objeto de estudo mudou. Em cooperação com o grupo liderado pela professora Vivian Pellizari, da Universidade de São Paulo (USP), Rafael passou a trabalhar com a Exiguobacterium antarcticum que, como o próprio nome sugere, foi isolada de amostras da Antártica após o derretimento de geleiras. “Logo nos primeiros seis meses consegui resultados promissores, como a identificação de possíveis proteínas associadas à resposta ao frio extremo”, conta.
O sucesso fez o futuro Acadêmico ser convidado para um período sanduíche na Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Lá ele ficou oito meses, aprendendo métodos de clonagem e expressão de proteínas heterólogas, ou seja, proteínas não originais ao organismo que as estão produzindo. Essas técnicas inovadoras permitem aos cientistas um leque maior de possibilidades para a engenharia genética. “Um exemplo prático foi a expressão de uma proteína envolvida na alteração da membrana celular para resistência a temperaturas abaixo de 0°C”.
Para além do crescimento técnico e científico, a experiência internacional proporcionou a Rafael um crescimento pessoal que ele traria na bagagem. De volta ao Brasil, o pesquisador obteve o título de doutor em 2014 e em 2015 passou no concurso para professor da UFPA. “Silvanira, Soraya, Alessandra, Artur e Paula foram, sem sombra de dúvidas, as pessoas que mais contribuíram para minha carreira. Hoje tenho a satisfação de continuar atuando nesse grupo e lecionando na instituição que me formou”.
Como bom experimentalista, Rafael passou por várias áreas dentro da genética de micro-organismos durante sua atuação como pesquisador-professor. Atualmente, seus dois principais focos são a resistência antimicrobiana ambiental e o microbioma associado aos crustáceos e moluscos da Amazônia. “A resistência antimicrobiana é muito associada às bactérias hospitalares, mas também se faz presente nas bactérias do ambiente, com influência na saúde humana e animal. Tento entender como esses mecanismos estão presentes na Amazônia e são influenciados pela poluição humana, que acaba selecionando as bactérias mais resistentes, que por sua vez chegam com mais força aos hospitais”, explica. Como parte desse esforço, Rafael aplica a metagenômica a amostras de esgoto, como forma de monitorar os patógenos que circulam na população.
Quanto aos crustáceos e moluscos, o Acadêmico explica que uma característica comum a esses animais é o modo de vida filtrador ou detritívoro, servindo como sensores naturais do conteúdo microbiológico que circula pelo ecossistema amazônico. “Utilizamos ferramentas moleculares para estudar a dinâmica microbiana desses animais em diferentes regiões e estações do ano, também investigamos como a microbiota está sendo alterada pelas mudanças climáticas. Além disso, crustáceos e moluscos são organismos de importância econômica na Amazônia e, por isso, estamos gerando bancos de dados genômicos para esses animais”.
Agora na ABC, o Acadêmico considera a diplomação um marco na sua carreira e sente-se convocado para defender e promover a ciência nacional. “O título revigora, transforma a trajetória e renova os objetivos da careira científica”. Fora da ciência, Rafael segue uma pessoa eclética e leva a vida rodeado pela família e pelos amigos. “Gosto de fazer muita coisa, seja sozinho ou acompanhado, tentando sempre equilibrar períodos de sossego e de agitação. Crescer numa família grande me trouxe essa característica”, conclui.