*Texto original de Vitor Ramos para UFRJ
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu, no dia 7 de agosto, o título de professora emérita à docente titular aposentada do Instituto de Física (IF) [e Acadêmica] Belita Koiller. A homenagem, oficializada durante a sessão solene do Conselho Universitário (Consuni), ocorreu na sexta-feira, 7/8, no Salão Nobre da Decania do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), na Cidade Universitária. A iniciativa institucional visa ao reconhecimento de mais de cinco décadas de contribuições singulares de dedicação à pesquisa, ao ensino e à formação de novos cientistas.
Além da homenageada, a mesa de honra, presidida pela vice-reitora da UFRJ, Cássia Turci, teve a seguinte composição: o decano do CCMN, Cabral Lima; o diretor do IF, Bruno Souza de Paula; e o professor emérito Luiz Davidovich, orador da solenidade e um dos integrantes da comissão de honra, que acompanhou a entrada da docente na cerimônia. Juntamente com ele, estiveram os professores do IF Érica Macedo, Eduardo Fraga, Rodrigo Capaz e Thereza Lacerda.
A trajetória de Belita na UFRJ teve início em 1994, quando ingressou no corpo docente. De lá para cá, ela também exerceu funções de liderança acadêmica na Universidade, incluindo a direção do IF. Graduada em Física pela PUC-Rio, concluiu o doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1975. Com mais de uma centena de artigos científicos publicados, a professora tornou-se referência internacional na área de Teoria da Matéria Condensada. Atualmente, suas pesquisas concentram-se no comportamento quântico de sistemas eletrônicos e em sua aplicação no desenvolvimento de dispositivos quânticos.
Ao longo da carreira, a docente recebeu diversas distinções da comunidade científica. Em 1982, foi contemplada com a Guggenheim Fellowship, que lhe permitiu desenvolver pesquisas nos Estados Unidos. Em 1995, tornou-se a primeira mulher eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências na área de Ciências Físicas. Dez anos depois, foi agraciada com o International Award for Women in Science, em reconhecimento à relevância de sua produção científica.
Entre outras honrarias, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2010), foi eleita membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e da Academia de Ciências da América Latina, além de conquistar a Medalha Ângelo da Cunha Pinto (2021) e o Prêmio Joaquim Costa Ribeiro da Sociedade Brasileira de Física (2025).

Além de exaltar o rigor acadêmico da homenageada durante a cerimônia, Cássia Turci pontuou o compromisso de Belita com a infraestrutura da Universidade, mencionando sua persistência na construção do novo prédio do Instituto de Física, e celebrou seu entusiasmo inabalável pelo ensino e pelo sentimento de pertencimento à instituição, o que a torna uma figura brilhante e generosa na história da ciência brasileira.
“A presença da Belita no Instituto de Física não só incentivou o desenvolvimento de muitos projetos de pesquisa, mas também atraiu nossos jovens, principalmente as meninas, para a área de ciência. Belita não perde o entusiasmo, a dedicação para com a universidade. Valores que nós precisamos, de fato, incentivar aqui. A empatia e a preocupação em você preparar uma boa aula para os nossos estudantes, que são a nossa maior razão de ser”, disse Turci.
Em sua saudação, o professor Luiz Davidovich ressaltou que o título concedido a Belita simboliza que a Universidade se tornou “maior e melhor” por meio de seu trabalho e exemplo, integrando-a permanentemente à história da instituição. Relembrou a trajetória compartilhada desde os tempos de graduação na PUC-Rio e destacou o pioneirismo e a coragem de Belita ao enfrentar o doutorado em Berkeley como a única mulher de sua turma. Ele enfatizou que essa determinação em ocupar espaços majoritariamente masculinos, aliada a uma curiosidade científica sempre renovada, permitiu que ela construísse uma carreira brilhante, marcada pela sensibilidade em identificar e formular as questões científicas que realmente importam.
Além da excelência acadêmica, o orador exaltou a obra científica ampla e original da homenageada, especialmente suas contribuições fundamentais na área de computação quântica, que uniram de forma indissociável a ciência básica à inovação tecnológica.
“Belita defendeu a qualidade da ciência, a internacionalização da pesquisa brasileira, a formação de novas gerações e a construção de instituições sólidas. Defendeu também, com firmeza, a igualdade e oportunidades para as mulheres na ciência. É uma cientista de grande rigor intelectual, uma colega solidária e interlocutora generosa. Sua franqueza é conhecida por todos. Não evita os debates difíceis e não se acomoda diante de ideias estabelecidas; sua firmeza nasce sempre de um compromisso profundo com a ciência, com a universidade e com os colegas”, afirmou Davidovich.
O diretor do IF, Bruno Souza de Paula, enfatizou a dedicação de Belita ao coletivo, lembrando que ela exerceu a Direção do Instituto em um período especialmente desafiador: durante a pandemia de covid-19. Além disso, ressaltou sua contribuição acadêmica administrativa como coordenadora, por duas vezes, do curso de pós-graduação em Física.
Em vez de seguir o protocolo de um discurso formal, Belita Koiller optou por ministrar o que chamou de “seminário”, utilizando sua experiência didática para explicar as bases da física que permitem as tecnologias modernas. Tratou desde a evolução do átomo e da matéria, passando pela história dos semicondutores, da amplificação de sons e sinais, da criação de computadores portáteis, até falar do futuro na computação quântica.
“É muito gratificante ter esse reconhecimento, que eu não sei se mereço, mas também tem a parte triste que diz que é o fim de uma carreira. Me lembro do fato de eu ter vindo da PUC, onde as condições físicas eram excelentes. Sempre quis trazer para cá o mesmo conforto e dignidade que eu tinha em uma instituição particular. Sempre tentamos melhorar e acho que conseguimos. Nossas instalações estão cada vez melhores e hoje também está mais feminino”, ressaltou Belita.