
Tendo como coordenadora Fernanda de Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, e como palestrantes Maria Augusta Arruda (CNPEM), Helton da C. Santiago (UFMG) e Glaucius Oliva (IFSC), vice-presidente da ABC para a Região SP, a mesa redonda-sobre pesquisa e inovação em saúde no Brasil ocorreu no dia 29 de julho, na UFF, dentro da programação da 78ª Reunião Anual da SBPC.
Interação entre ICTs e empresas na inovação farmacêutica no Brasil

O vice-presidente da ABC para a Região São Paulo, Glaucius Oliva, coordena o Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), onde lidera uma equipe de pesquisas com composição multidisciplinar de físicos, biólogos e químicos. Também tem liderado projetos em colaboração com empresas farmacêuticas nacionais. Sua apresentação começou mostrando o alto faturamento da indústria farmacêutica no Brasil, que envolve 226 empresas. “Os produtos similares representam 16% do faturamento, os genéricos quase 14% e os específicos, pouco mais de 6%. A maior fatia, de 33%, fica com os novos medicamentos”, apontou.
O enorme progresso em genômica, big data, sistemas baseados em inteligência artificial e métodos biológicos e biofísicos avançados ampliaram a descoberta de novos alvos, bem como a mineração, planejamento e desenvolvimento de novos compostos. No entanto, desenvolver novos fármacos, como mostrou detalhadamente o biofísico, é um processo complexo.
“A tradução de resultados iniciais promissores em candidatos eficazes prontos para ensaios clínicos envolve muitos desafios”, explicou Oliva. É um longo processo que envolve etapas de planejamento, síntese química e avaliação, sendo que essa última acontece em múltiplas camadas. No Brasil temos feito muita triagem e muito pouco desenvolvimento efetivo de candidatos a novos fármacos”, lamentou.
Em paralelo, o movimento exige a necessidade de políticas públicas adequadas e arcabouço legal para compartilhar investimentos de risco. Envolve ainda o estímulo à criação de spin-offs, de laboratórios de pesquisa e de parcerias com empresas farmacêuticas ou fundos de capital de risco. “A interação entre as instituições científicas, tecnológicas e de inovação [ICTs] precisa ser incentivada para que o Brasil saia desse lugar em que está”, apontou o palestrante. “A ciência brasileira está pronta para atender à demanda por pesquisas aplicadas à solução dos grandes desafios nacionais e às empresas – mas precisa ser chamada e apoiada para tal”, ressaltou o biofísico.
Exemplos de sucesso no Brasil de como transformar conhecimento em riqueza já existem. Os maiores são a Petrobras, a Embraer e a Embrapa. Considerando uma agenda estratégica para CT&I em saúde, Oliva ressaltou que entre exemplos citados existem características comuns: uma quantidade expressiva de recursos humanos especializados próximos aos centros de inovação, empresas focadas em inovação e produção científica ampla e de qualidade nas respectivas áreas. “A chave para o sucesso translacional na descoberta e desenvolvimento de fármacos e vacinas, portanto, é a disponibilidade de pessoas qualificadas em todas as áreas técnicas e de gerenciamento de projetos, se possível especialistas com experiência na indústria farmacêutica”, de acordo com Oliva.
A inovação radical em saúde tem dois eixos de atuação: a prestação de serviços tecnológicos especializados no setor produtivo e apoio ao desenvolvimento de projetos de inovação radical em saúde. “Faltava no Brasil uma instituição que atendesse às necessidades do setor produtivo, de prestação de serviços e do setor de pesquisa e desenvolvimento. Agora, esse processo será feito no CNPEM”, apontou o cientista.
As inovações em saúde digital e a digitalização dos dados em saúde, no que o Ministério da Saúde vem investindo, é crucial. “Temos que ter capacidade de atender as demandas internas. Para tanto, precisamos ter nossas próprias plataformas biotecnológicas. É o que nos dará soberania tecnológica na área de saúde e sustentabilidade ao SUS”, apontou Glaucius.
O Centro de Tecnologia de Vacinas e a inovação em saúde no Brasil

Médico, bioquímico e imunologista, o diretor clínico do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Helton da Costa Santiago, foi membro afiliado da ABC entre 2013 e 2018. Sua apresentação buscou explicar por que o Brasil não está conseguindo transformar sua capacidade científica em inovação na velocidade compatível com os desafios nacionais.
“Há uma cobrança – justa e necessária – de vários setores da sociedade para que a ciência e o setor farmacêutico nacionais transformem o conhecimento em produtos/serviços inovadores que atendam a nossa população”, apontou Santiago.
Helton Santiago falou sobre o chamado “vale da morte” da inovação. “Em geral, o processo de desenvolvimento de um produto ou serviço tem excelente pesquisa básica. No entanto, há uma lacuna, apelidada de ‘vale da morte’, que é a forte deficiência na transição da pesquisa básica para a pesquisa aplicada”, explicou o cientista. Quando este é ultrapassado, entramos numa fase de excelente pesquisa clínica, seguida por indústria já estabelecida.
No contexto da dependência externa do Brasil em inovação farmacêutica, ele apresentou um exemplo de um produto que saiu da bancada para o mercado, processo chamado de translação: a vacina SPIN-TEC, desenvolvida na UFMG com apoio do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. “É uma vacina genuinamente brasileira, que protege contra o SARS-COV-2 mesmo na ausência de anticorpos neutralizantes”, explicou o pesquisador.

Após a descrição de todo do desenvolvimento das etapas de ensaios clínicos, Santiago apontou que o processo deixou lições e trouxe conquistas para a ciência brasileira. Dentre as lições, ele destacou o mais fundamental: o investimento em capacitação de recursos humanos, pois são as pessoas que fazem tudo acontecer. E identificou outros gargalos básicos para a inovação em vacinas no país, que envolvem questões regulatórias, de formulação, de produção de lotes-pilotos para testes clínicos e falta de cultura de boas práticas. “A regulação é a ponta do funil: burocracia, processos lentos e excesso de exigências estrangulam o processo. Sem agilidade regulatória, a inovação não chega ao seu destino.”
O cientista acrescentou que a falta de tradição brasileira em inovação traz consigo uma insegurança regulatória e um processo de destruição criativa. “Há uma necessidade vital de uma nova mentalidade em relação à inovação em saúde.”
Entre as conquistas, ressaltou que foi criado um percurso para se fazer a transição da pesquisa básica para a pesquisa clínica que pode servir de modelo para outras vacinas. “Foi um passo importante na soberania brasileira na inovação em saúde”, pontuou o especialista.
“O Brasil possui matéria-prima, mas pouco realiza o desenvolvimento tecnológico”

A diretora do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Maria Augusta Arruda, farmacologista e vencedora do Programa L’Oréal-Unesco-ABC Para Mulheres na Ciência em 2008, destacou o tema. Ela apontou que o país tem a maior biodiversidade do planeta, mas tem 90% de dependência externa em insumos farmacêuticos (IFAs).
Maria Augusta focou sua apresentação no Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde (PNIRS), parceria estabelecia entre o CNPEM e o Ministério da Saúde, visando utilizar o acelerador de partículas Sirius para apoiar a inovação em saúde no Brasil. “Ele pode transformar ‘vales da morte” em oportunidade”, apontou Arruda.
Apresentando o equipamento, ela explicou que ele é a mais avançada infraestrutura científica do país. Gerido pelo CNPEM, o acelerador de partículas de quarta geração produz um tipo especial de luz de altíssimo brilho, usada para desvendar a estrutura microscópica da matéria, como um supermicroscópio capaz de mapear estruturas biológicas em escala atômica e molecular.
Na parte de diagnósticos, o Sirius pode ajudar na quantificação de biomarcadores com alta acurácia e precisão; pode proceder análises de amostras biológicas em grande escala. Em seu pré-lançamento, em fevereiro de 2026, onde houve uma consulta às empresas, as três áreas de maior interesse para colaboração são a descoberta de fármacos, seguida por biotecnologia e produção de IFAs e biofármacos, entre outras.
As principais necessidades identificadas foram o acesso à infraestrutura e plataformas avançadas; desenvolvimento conjunto de P&D e inovação; apoio regulatório e científico para o desenvolvimento de produtos; formação e acesso a talentos especializados; apoio para escalonamento e transferência de tecnologia.
Para tanto, está sendo planejada no CNPEM a construção do Arandus, primeiro polo de inovação do PNIRS. “Arandus é um termo de origem indígena, tupi-guarani, que significa ‘saber’, ‘conhecimento’ ou ‘sábio’” explicou Maria Augusta. “Será uma infraestrutura de pesquisa multiusuária, com foco no atendimento à indústria e potencialização de projetos de inovação da academia e start-ups. Está projetada para acomodar até 50 projetos concomitantes, conselhos e gestão”, destacou Arruda.
“Esta é a missão do CNPEM”, sublinhou Arruda. “Gerar valor e impacto para a sociedade.”