Como está cada bioma brasileiro frente às mudanças climáticas?

A mudança no clima do planeta veio para ficar, mas seus efeitos são diferentes conforme a região afetada. Essa heterogeneidade é de particular importância para o Brasil, que precisará criar políticas adequadas para cada um dos seus seis biomas.

Helena Nader

Pensando nisso, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizou a sessão virtual Biomas Brasileiros e Mudanças Climáticas, reunindo o climatologista e Acadêmico Carlos Nobre com seis especialistas que trouxeram o que há de mais atual no conhecimento científico sobre os nossos biomas à luz das mudanças climáticas. “O Brasil precisa olhar para todos os seus biomas, não só para a Amazônia. O resultado desse encontro será compilado num documento para oferecer à diplomacia brasileira um diagnostico rigoroso com recomendações baseadas em ciência”, afirmou a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader.

Amazônia, por Ima Célia Guimarães Vieira

Ima Célia Vieira

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e, por isso, é o bioma brasileiro que recebe mais atenção internacional quando o assunto são mudanças climáticas. Mas a capacidade de estocar carbono da floresta está se perdendo. Conforme apresentou a ecóloga e Acadêmica Ima Célia Guimarães Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), as regiões mais a leste da floresta, onde fica a fronteira agrícola, já deixaram de ser sumidouros para se tornarem emissoras de carbono para a atmosfera. “Em 2023, essa região foi responsável por 30% de toda a perda de carbono das áreas tropicais”, alertou.

Naquele mesmo ano, pela primeira vez a temperatura média da Amazônia ultrapassou os 1,5°C acima do período pré-industrial. Região com estações chuvosas e secas bem delimitadas, desde a década de 80 o que se observa é um crescimento no período de estiagem, com quatro secas extremas neste século. “Isso faz com que a floresta não consiga se recuperar de uma seca para a outra, perdendo resiliência”, explicou a pesquisadora.

Outro efeito são o aumento nas queimadas, que em 2025 foram 117% acima da média histórica, respondendo por metade de todas as queimadas do país no ano. O fogo não ocorre naturalmente na Amazônia, 99% dos casos foram fruto da atividade humana. Com isso, ocorre um processo de secundarização da floresta, que já conta com 38% de áreas degradadas. Essas regiões possuem cerca de 25% menos biomassa, logo, armazenam menos carbono.

A soma das pressões do aquecimento e desmatamento fazem com que os limites críticos – quando não há mais retorno – sejam menores. Outro problema é que o maior desmatamento se dá justamente na Amazônia oriental, de onde sobe a umidade que vai desabar nas partes ocidentais, criando um ciclo vicioso. “Minha mensagem à COP 31 é que nem todo hectare vale o mesmo. O mapa do caminho para zerar o desmatamento precisa começar por onde o sistema é mais frágil: a região oriental da Amazônia brasileira”, resumiu Ima Vieira.

Foto: Wikimedia Commons

Caatinga, por Aldrin Martin Pérez Marín

Aldrin Pérez Marín

Bioma único ao Brasil, a Caatinga muito presente no imaginário nacional desde a época dos clássicos de Euclides da Cunha ou Guimarães Rosa. Mas obras como “Os Sertões” ou “Grande Sertão Veredas” criaram a imagem de um bioma estéril, condenado à escassez. Para Aldrin Martin Pérez Marin, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido e líder na criação do Segundo Plano Brasileiro de Combate à Desertificação, é preciso mudar essa ideia. “É uma terra seca de ciclos, mas que, ainda, não virou deserto”, afirmou.

A Caatinga é a terra seca mais habitada do mundo, possui quase 3 mil espécie de plantas das quais 42% são endêmicas. Estima-se que nas últimas quatro décadas o bioma tenha aquecido entre 0,5°C e 1°C, o que levou o semiárido a se expandir em 160 mil km2. Nesse ritmo, a projeção é que as primeiras áreas de deserto surjam após 2070. Além disso, 46% da área original já foi desmatada e 11% está degradada. “A Caatinga é uma aliada climática, mesmo na seca ela possui uma vegetação que mais puxa carbono do que emite, está entre os biomas mais eficientes no estoque de biomassa do planeta”, alertou o pesquisador.

Estima-se que, preservada, a Caatinga possa estocar 12 bilhões de toneladas de carbono. Para alcançar esse potencial, Marín defende que iniciativas de restauração e de pagamento de créditos de carbono priorizem as comunidades locais e tradicionais, que fazem uso de sistemas agroflorestais, e não as monocultura de commodities. Defende também que programas de acesso aos recursos hídricos, como cisternas e açudes, tenham esse foco social. “Precisamos restaurar as caatingas, no plural, e valorizar as comunidades que a mantém de pé. O Brasil tem mais de uma carta na manga na questão climática”, resumiu.

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Cerrado, por José Alexandre Felizola Filho

José Alexandre Felizola

O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e o mais afetado pela agropecuária atual, pois é por onde se estende a maior parte da fronteira agrícola. O bioma é um mosaico complexo de vegetação e possui uma variação climática alta. “O que observamos é um gradiente norte-sul no aumento da temperatura, com as regiões mais ao norte sendo as mais afetadas”, explica o ecólogo José Alexandre Felizola Filho, Acadêmico e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Com o aquecimento mais intenso nos habitats ao norte, o nicho ecológico viável para as espécies do Cerrado está se deslocando para o Sudeste do Brasil, justamente a região do país de maior ocupação humana. “As espécies estão migrando para o Sudeste, onde não há mais os habitats necessários para recebê-las, é a tempestade perfeita. Em termos genéticos, o que observamos é a perda progressiva da variabilidade”, lamentou o pesquisador.

Mas pesquisas com plantas específicas apontam uma luz no fim do túnel. A castanha-de-baru, espécie de importância econômica para o Cerrado, apresentou capacidade de adaptação rápida que a permitiu sobreviver em nichos sub-ótimos. “Normalmente não consideramos respostas evolutivas às mudanças climáticas pelo tempo ser muito curto, mas cada vez mais estamos observando casos de ‘resgates evolutivos’”, Felizola destacou.

Ou seja, num cenário mais pessimista, ou nas regiões mais afetadas ao Norte, a castanha-de-baru deve desaparecer. Mas há uma zona intermediária onde ela pode se manter e, inclusive, recuperar variabilidade genética. Para o Acadêmico, as pesquisas precisam passar a considerar essa possibilidade de adaptação e investigar seus fatores genéticos. Mas isso não substitui a preservação e mitigação das mudanças climáticas. “Biodiversidade é muito mais do que genética, há muito mais fatores que são alterados quando alteramos o clima”, alertou.

Foto: Wikimedia Commons

Mata Atlântica, por Simone Aparecida Vieira

Simone Vieira

Floresta litorânea onde historicamente se concentrou a maior parte da população brasileira, a Mata Atlântica é o mais ameaçado de todos os biomas nacionais. Por conta dessa degradação histórica, a engenheira agrônoma e cientista florestal Simone Aparecida Vieira, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alerta que ainda há pouca produção de conhecimento sobre o impacto das mudanças climáticas nesse ecossistema. “Sempre pensamos a importância das florestas tropicais pela Amazônia, mas olhamos pouco para a Mata Atlântica”, lamentou.

80% da Mata Atlântica já foi perdido para a ocupação humana, e o que resta está bastante fragmentado. Devido às barreiras humanas entre os trechos de floresta, surgem mais espécies endêmicas. Outra característica do bioma é a grande variação de altitude, por conta das serras litorâneas brasileiras. “Isso faz com que a Mata Atlântica seja um laboratório natural para o estudo de espécies em variação de temperatura e chuva”, resume a pesquisadora.

Por serem regiões de menor habitabilidade, os picos das montanhas são as partes mais conservadas da Mata Atlântica, respondendo também pelo maior número de espécies endêmicas. Por serem mais frios, são também as regiões mais afetadas pelo aumento nas temperaturas. “27% das espécies conseguem migrar para cima, mas apenas 13% conseguem migrar para baixo”, explica Simone Vieira. Outro problema da fragmentação é a perda de biodiversidade. “Quanto menor o fragmento, menores as espécies de animais, que dispersarão sementes menores, que darão origem à plantas menores. Há uma perda na biomassa e por consequência na armazenagem de carbono”, complementa.

A temperatura média da Mata Atlântica já aumentou 1°C nas últimas décadas, fenômeno acompanhado por uma redução no nível de chuvas, com isso, a frequência de incêndios aumentou. O aumento de temperatura é o principal fator para a perda de biomassa, na vegetação e no solo. Quando comparada à Amazônia, a Mata Atlântica perde em capacidade de estocar carbono nos troncos e folhas, mas consegue estocar mais carbono no solo. Esse fator é importante para considerações climáticas. “Hoje temos núcleo de produção de conhecimento espalhados, mas precisamos integrá-los”, terminou Vieira.

Foto: Wikimedia Commons

Pampa, por Daniela Hoss

Daniela Hoss

O pampa é um ecossistema símbolo do Sul do Brasil, sobretudo do Rio Grande do Sul, estado mais afetado por eventos climáticos extremos até o momento. Biomas campestres como o Pampa cobrem 40% da superfície terrestre do planeta, mas são os menos considerados quando falamos de preservação, pois são os mais facilmente capturados pela lavoura e pecuária. O Pampa gaúcho é casa para 3 mil espécies de flora e 300 de fauna e, junto com o Cerrado, é o bioma brasileiro que mais foi perdido nos últimos 40 anos.

Especialista em ecossistemas campestres, a ecóloga Daniela Hoss, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explicou que a produtividade primária do pampa está atrelada às estações secas e úmidas, que estão se intensificando na região. “Durante a estação úmida, percebemos um aumento de 5% na biomassa, mas nas secas a perda é de 9%”, explicou a palestrante. Ou seja, no balanço final há uma maior perda do que captura de carbono.

Hoss explica também que dentro do bioma há espécies mais ou menos capazes de se adaptar, e isso deve ser considerado nas políticas de preservação. “Hoje já é possível fazer essa identificação com precisão. Minha esperança é que possamos usar isso para medidas de preservação. Estamos perdendo esses campos justamente no momento em que a armazenagem de carbono é mais necessária”.

Foto: Wikimedia Commons

Pantanal, por Leticia Couto Garcia

Leticia Couto Garcia

O pantanal é um dos biomas mais singulares do mundo, e também um dos mais vulneráveis às mudanças ao seu redor. Formado em uma planície que recebe os pulsos de água vindos de planaltos adjacentes, a dinâmica da inundação é crucial para mantê-lo, e essa dinâmica se vê cada vez mais ameaçada pelas mudanças climáticas e pela incursão humana. “O pantanal é uma esponja hidrológica. Sem ele, veríamos inundações muito maiores ocorrendo na bacia do Rio da Prata”, alertou a bióloga Leticia Couto Garcia, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

Atualmente, mesmo com a promulgação em 2025 do Estatuto do Pantanal (Lei 15.228/25), que estipula princípios para manter o equilíbrio hídrico na região, está em curso um projeto para expandir o transporte hidroviário no rio Paraná através de seu aprofundamento. A pesquisadora alerta que, se tiver continuidade, a ideia coloca em risco a viabilidade do bioma. “Essa alteração ameaça a dinâmica hídrica do Pantanal, alterando completamente o fluxo de inundação e diminuindo o seu vazamento”, explica.

Outros projetos que interferem no equilíbrio hídrico são as barragens, que além de diminuírem o fluxo de água interrompem a migração de peixes que são importantíssimos tanto para a pesca quanto para o turismo, dois pilares da economia local. Outra consequência é que um pantanal mais seco aumenta a ocorrência de incêndios, como os que ocorreram em 2024 num período importante para a restauração da vegetação nativa.

Desde a década de 80, a temperatura média do Pantanal já subiu 2°C e a umidade relativa do ar caiu 25%. As queimadas aumentaram em 376%, incluindo em áreas consideradas santuários biológicos. Até 2100, estima-se que a temperatura média regional possa chegar à inacreditáveis 7°C acima do período pré-industrial. “79% dos territórios de onças-pintadas foram afetados pelo fogo nos últimos anos. Essas áreas devem ser prioritárias para restauração, assim como as nascentes do rio”, sugere a pesquisadora.

Foto: Wikimedia Commons

Série “Lições para a Ciência Brasileira Rumo à COP 31”

Este debate inaugurou uma série de eventos organizados pela Academia em preparação para a COP 31. As conversas serão realizadas junto a cada uma das diplomações regionais de novos afiliados no segundo semestre, e tem como coordenadores os vice-presidentes regionais da ABC Adalberto Luis Val, da regional Norte, e Mercedes Bustamante, da regional Centro-Oeste e Minas Gerais. O próximo debate será no dia 13 e agosto, durante a diplomação Norte, com o tema “Água, rios e clima: vulnerabilidades dos sistemas hidrológicos brasileiros”.

Assista ao webinário na íntegra:

(Marcos Torres para ABC, 07/08/2025)