Saúde na nova realidade climática é tema de seminário na Finep

No dia 3 de agosto, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), organizou o seminário “Saúde & Mudanças Climáticas”, reunindo pesquisadores e representantes de agências de fomento para debater como a ciência pode preparar o Brasil para a nova realidade climática. “Ainda temos pessoas deslocadas por causa das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. É uma insegurança que permanecerá, sobretudo para as populações mais vulneráveis. Investir em ciência hoje significa antecipar riscos, fortalecer sistemas de alerta e tomada de decisão que salvam vidas”, alertou a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, ao abrir o evento.

Em abril de 2024, os gaúchos enfrentaram o maior desastre natural da história do Brasil. As chuvas que atingiram o estado descarregaram um terço da quantidade de água prevista para o ano inteiro. O resultado foram inundações recordes que deixaram mais de 200 mortos ou desaparecidos e 440 mil desabrigados. Para além dos impactos físicos e materiais, pesquisadores liderados pelo psiquiatra e membro titular da ABC Flávio Kapczinski puderam observar, em grande escala, os efeitos de um evento climático extremo na saúde mental das vítimas no curto, médio e longo prazo.

“O número de suicídios cresceu no estado após o desastre”, apontou Kapczinski. Ao se debruçar sobre as motivações, a equipe foi percebendo um gradiente de sintomas psiquiátricos que surgiam, alguns no primeiro dia, outros até seis meses depois. O primeiro efeito observado foi a interrupção no fornecimento de medicações ou tratamento para pessoas com condições pré-existentes. Por exemplo, a falta de opioides para pessoas com dores crônicas, ou de remédios psiquiátricos para quem já fazia uso, contribuía para novos surtos ou crises de abstinência.

A incerteza agravava essas condições. Os pesquisadores observaram um aumento no alcoolismo e na violência nos abrigos que, pela sua própria natureza improvisada, misturava pessoas das mais diversas realidades e níveis de vulnerabilidade. Em particular, a violência contra a mulher saltou nos meses após o desastre. “Por conta da precarização das acomodações, os casos de violência sexual subiram num primeiro momento, com picos na violência doméstica e feminicídio nos meses subsequentes”, revelou Kapczinski.

Alguns problemas apareciam cinco meses após o evento. “Nota-se um pico para certos problemas psiquiátricos 140 dias após o desastre, que é quando as coisas se assentam e muitas pessoas percebem que não voltarão para casa”, observou o médico e Acadêmico Paulo Saldiva, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Esse dado requer atenção, porque a ciência da adaptação climática já vem repetindo que muitos dos locais afetados no Rio Grande do Sul se tornarão zonas de inundação frequente, desencorajando a reconstrução. É preciso oferecer alternativas e suporte psicológico para essas pessoas.

Além da reconstrução não poder ser feita nos mesmos locais, ela também não pode ser nas mesmas bases. Uma urbanização intensiva em cimento e concreto é particularmente problemática para o pampa gaúcho, pois trata-se de um bioma ainda mais dependente da absorção de água pelo solo. “Mas ainda não há nada planejado para termos cidades-esponja no longo prazo”, criticou Christovam Barcellos, pesquisador da Fiocruz .

Também associados às mudanças climáticas, os extremos de frio ou calor se tornaram mais comuns nos últimos anos, assim como as mortes deles derivadas. O Acadêmico Manoel Barral Netto, pesquisador da Fiocruz, lembrou que, apesar da fama de país tropical, o frio ainda mata mais do que o calor no Brasil. Mas esse cenário está mudando rapidamente, e deverá se inverter nos próximos anos. Essas observações são possíveis graças à Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros, plataforma inovadora da Fiocruz em parceria com o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde (Cidacs), que compila diversas bases de dados em saúde. “Apesar do nome, a base já possui mais de 140 milhões de pessoas”, elogiou Barral.

Durante ondas de calor em São Paulo, o número de mortes por “causas naturais” sobe em 50%, mas não por hipertermia ou insolação. “São mortes por AVC, infartos, agravamento de doenças crônicas, geralmente em pessoas mais velhas. Nesses dias, os técnicos do Instituto Médico Legal já estão preparados para uma maior demanda”, contou Saldiva. Essa realidade, já palpável para os profissionais da linha de frente, só pôde ser averiguada graças aos dos dados públicos brasileiros, fruto do trabalho de instituições públicas. “O protagonismo do Brasil em saúde vem de instituições como Fiocruz, Butantan, das coortes de Pelotas, entre outras instituições”, lembrou o Acadêmico.

O Brasil já possui monitoramento climático para todo o território nacional, mas a tradução dos dados em sistemas de alerta e prevenção ainda é regionalmente desigual. Num ano de mais um super El Niño, cabe aos governos locais fazer bom uso dos dados. “Uma temperatura de 40°C afeta de forma diferente municípios diferentes. Um alerta só funciona se tivermos gestores capazes de implementá-los e orientar a população”, afirmou Louise Maranhão, do Instituto Mamirauá, em Tefé, a 525 km de Manaus. “Os recursos para a região Norte precisam chegar de forma diferente, precisam vir de editais diferentes. É uma região em que o litro da gasolina chega a R$ 9,00, em que agentes comunitários precisam pegar lanchas. Enquanto não houver olhar diferenciado, não vai funcionar”, observou.

Na Amazônia, outro problema tangente às mudanças climáticas é o surgimento de zoonoses associadas à degradação florestal. Patricia Veras, da Fiocruz Bahia, trouxe o exemplo da leishmaniose, cujo aumento no número de casos se sobrepõe às regiões de maior incursão humana sobre a floresta. “Onde a mata é derrubada, a doença aparece”, alertou. Esse cenário é agravado pelo fato de que populações mais isoladas são as mais vulneráveis e mais propensas a abandonar o tratamento.

A pesquisadora Maísa Araújo, da Fiocruz Rondônia, trouxe o exemplo de sucesso do Malakit, um kit de diagnóstico e tratamento de malária pensado especialmente para populações isoladas e de alta mobilidade. O kit é um exemplo de política pública de sucesso que precisa ser valorizada na avaliação de editais. Para o Acadêmico Odir Dellagostin, atual diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs), é preciso também investir na fixação de profissionais. “Sem isso, continuaremos tendo regiões de desenvolvimento e regiões de trabalho de campo”.

Mas as dimensões do Brasil tornam quase impossível que tenhamos especialistas para cada rincão. Nesse sentido, a telemedicina pode ser uma solução. “Já temos dados que mostram um crescimento acima da média nos problemas de saúde mental entre indígenas, o atendimento virtual tem muito a contribuir”, sugeriu Kapczinski.

Por fim, Christovam Barcellos trouxe uma reflexão sobre como as mudanças climáticas devem ser encaradas. “O negacionismo é terrível, mas o alarmismo e o desespero também são muito perigosos. Precisamos combater a sensação de inevitabilidade. Eventos climáticos extremos, principalmente seus efeitos na saúde, são evitáveis”.

(Marcos Torres para ABC, 05/08/2026 | Foto: Finep)