Carta Aberta da delegação brasileira à 75ª Reunião dos Laureados com o Nobel em Lindau

À Academia Brasileira de Ciências, à comunidade científica e à sociedade brasileira

Entre 28 de junho e 3 de julho de 2026, tivemos o privilégio de representar o Brasil na 75ª Reunião dos Laureados com o Nobel, em Lindau, na Alemanha, a edição interdisciplinar que reuniu 71 laureados e cerca de 636 jovens cientistas de 88 nacionalidades. Chegamos até lá pela seleção e pelo apoio da Academia Brasileira de Ciências, a quem dirigimos, antes de tudo, o nosso agradecimento. Somos quatro, vindos de áreas que raramente se cruzam, neurofisiologia, eletroquímica, biologia vascular e química de polímeros, e voltamos com a responsabilidade de partilhar o que aprendemos. Não são conclusões fechadas, mas convicções que oferecemos publicamente, como um convite ao diálogo.

A primeira coisa que Lindau desfaz é a imagem do cientista como um nome impresso na capa de um artigo. Nenhuma das trajetórias que conhecemos de perto foi uma linha reta. Katalin Karikó, laureada com o Nobel de Medicina de 2023 pela pesquisa em RNA mensageiro que viria a sustentar as vacinas contra a COVID-19, nos contou os desafios de uma vida acadêmica feita de recomeços: a saída da Hungria, demissões e rebaixamentos, e a tarefa de conciliar tudo isso com a criação da filha durante o pós-doutorado, em meio a uma rotina de altíssima demanda. Ouvimos isso de quem alcançou o mais alto reconhecimento científico, e também do lugar de quem faz ciência no Brasil, onde persistir e improvisar já fazem parte do ofício. A lição que trouxemos é que a resiliência não é um consolo para quem tem menos: é uma competência científica, e das que a ciência brasileira domina bem.

Essa resiliência, porém, nunca se sustenta sozinha, e foi outro laureado que nos mostrou o outro lado da mesma moeda. De perto, os premiados não são nomes de capa: são pessoas curiosas, falíveis e generosas, e o que mais nos marcou não foram as descobertas, mas os gestos. Omar Yaghi, Nobel de Química de 2025 pela criação das estruturas metalorgânicas (MOFs), materiais capazes de feitos como capturar carbono e extrair água do ar do deserto, falou de seus estudantes como uma prioridade da qual nunca abre mão: faz questão de responder a cada um e de acreditar neles. Reforçou o papel do professor não apenas como pesquisador, mas como líder, gestor e mentor, e lembrou que descobertas extraordinárias saíram das mãos de estudantes que quase ninguém enxergava; como a jovem que vendia flores num semáforo e se tornou uma das descobridoras das MOFs. A ciência, ali, aparecia pelo que de fato é: uma atividade humana, movida por comunidades, mentores e relações de confiança. Cuidar das pessoas que fazem ciência é cuidar da própria ciência.

Daniel Rodrigues, Maria Karolina Ramos, Ana Flávia F. Ferreira e Gabriel Perli

Essas pessoas, no entanto, dedicam a vida a um tipo particular de pergunta. Num tempo que cobra aplicação imediata e impacto mensurável, Lindau reafirmou o valor das perguntas feitas por pura curiosidade. Essa foi uma mensagem recorrente ao longo do encontro: descobertas que hoje fundamentam áreas inteiras começaram como tentativas de responder perguntas. Um exemplo é a descoberta da degradação de proteínas mediada por ubiquitina, reconhecida com o Prêmio Nobel de Química de 2004, que transformou a compreensão de processos como o ciclo celular, a resposta imune e doenças como o câncer e doenças neurodegenerativas. Os grandes avanços do conhecimento quase sempre nascem assim: de investigações que, à primeira vista, não pareciam servir para nada. Defender a ciência básica não é um luxo nem um desvio do desenvolvimento: é sua condição. Um país que deseja colher inovação precisa, antes, plantar perguntas fundamentais e sustentá-las, mesmo quando o retorno não é imediato.

Se as perguntas seguem sendo humanas, as ferramentas para respondê-las mudaram, e sobre isso os laureados foram surpreendentemente diretos. A inteligência artificial esteve em quase todas as conversas, e o tom não foi de deslumbre, mas de responsabilidade. A IA acelera, organiza e revela padrões, e será cada vez mais parte do fazer científico; mas as perguntas certas, o julgamento crítico e a integridade continuam sendo nossas. O que mais nos impressionou foi a convergência: figuras como Craig Mello, Nobel de Medicina de 2006, e Michael Levitt, Nobel de Química de 2013 e um dos pioneiros da biologia computacional, trataram os modelos avançados não como uma tendência passageira, mas como uma transformação já instalada, sem volta. A mensagem foi inequívoca: experimentem a IA, pesquisem em IA, sem terceirizar, no caminho, aquilo que dá sentido à ciência, que é pensar.

Também tivemos a oportunidade de conhecer e conversar com jovens cientistas de diferentes partes do mundo, com histórias de vida, experiências e trajetórias muito distintas. Por se tratar da edição interdisciplinar do encontro, convivemos com pesquisadores de áreas bastante diversas, o que proporcionou uma oportunidade única de troca de perspectivas. Essas conversas reforçaram a importância da interdisciplinaridade e da construção de uma comunidade científica colaborativa para o avanço do conhecimento. Conhecemos pesquisadores que desenvolvem suas pesquisas em países diferentes daqueles em que nasceram, bem como brasileiros que hoje constroem suas carreiras científicas no exterior. Apesar dos diferentes contextos e trajetórias, havia uma mensagem comum: fazer ciência exige persistência e resiliência.

Há, por fim, uma convicção que talvez nos una com mais força, e que aponta para fora dos laboratórios. O letramento científico não pode ser privilégio de poucos: a ciência beneficia todos os níveis da população, e é dever de quem a pratica torná-la compreensível e acessível. Democratizar o entendimento da ciência é o caminho mais concreto para (re)construir a confiança da sociedade nela, uma confiança sem a qual nenhuma política científica se sustenta. Uma ciência que se explica, que dialoga e que se deixa entender é uma ciência mais forte, e mais brasileira.

Voltamos de Lindau convictos de que a ciência brasileira não precisa de menos ambição, mas de mais gente disposta a persistir nela, a defendê-la e a partilhá-la. À Fundação Lindau, seus parceiros e financiadores, agradecemos por tornar possível, ano após ano, que centenas de jovens cientistas vivenciem essa experiência transformadora. À Academia Brasileira de Ciências, agradecemos a oportunidade que nos formou. À comunidade científica, propomos estas convicções como pauta comum. E à sociedade, estendemos a mão: a ciência é de vocês, feita para vocês, e queremos construí-la com vocês.

Assinam,

Ana Flavia F Ferreira
Maria Karolina Ramos
Daniel Rodrigues
Gabriel Perli

(Ana Flavia Ferreira, Maria Karolina Ramos, Daniel Rodrigues e Gabriel Perli)