“COP 30 impediu retrocessos”, avaliam Acadêmicos na 78ª SBPC

A COP 30 em Belém do Pará foi realizado com altas expectativas. A “COP das COPs”, como foi apelidada nos meses que a antecederam, aconteceria na Amazônia, o bioma mais central para o enfrentamento às mudanças climáticas no planeta, num país historicamente ligado aos debates ambientais, e no momento em que pela primeira vez as temperaturas médias começavam a ultrapassar os 1,5 °C acima da média pré-industrial. A COP 30 não poderia falhar.

Mas o resultado final, como ano após ano se tornou comum, deixou um gosto amargo. Enquanto observamos eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e devastadores, a sensação de “mais do mesmo” não parece afinada com o nível da urgência. Em debates realizados na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, oito meses após a conferência, cientistas e diplomatas que estiveram em Belém defenderam que é preciso avaliar a COP 30 no contexto em que ela ocorreu. Num mundo que se afasta do multilateralismo, evitar retrocessos, por si só, já pode ser considerado um avanço.

A matemática Thelma Krug, titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e líder da comissão científica de assessoramento à presidência brasileira da COP 30, terminava sua fala durante a mesa-redonda “O Legado da COP 30”, quando a sessão precisou ser interrompida pela queda de energia causada pelos fortes ventos que atingiram o estado do Rio de Janeiro. O evento extremo causou muitos transtornos e algumas tragédias, sendo um lembrete concreto do que está em jogo na questão climática.

Evitando a debandada

A COP 30 aconteceu sem a participação da nação mais poderosa do mundo. Sob nova direção, os Estados Unidos se retiraram do Acordo de Paris e adotaram o negacionismo climático como diretriz governamental. Para além da perda de força da reunião, a ausência dos EUA representava um risco ainda maior: inspirar outros países a fazerem o mesmo. Mas isso não ocorreu. “Enquanto os EUA se retiram do Acordo de Paris, 195 países reafirmam seu compromisso”, reforçou a embaixadora Liliam Chagas de Moura, do Itamaraty, em fala que antecedeu Krug.

O Acordo de Paris prevê que os países entreguem relatórios periódicos sobre as suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). A última atualização antes da COP estava prevista para ser entregue em fevereiro de 2025, mas apenas 15 países cumpriram com o prazo, incluindo o Brasil. “Isso dava a sensação de que as coisas não estavam caminhando, e foi em cima da hora que começamos a receber os relatórios. Para mim, o avanço estaria caracterizado se nós conseguíssemos manter vivo o multilateralismo num momento tão complexo, e conseguimos”, defendeu Krug.

Belém e a COP 30

A escolha por Belém foi simbólica, mas problemas logísticos dominaram o noticiário nos meses que antecederam. A falta de uma malha hoteleira capaz de absorver a demanda do evento fez com que os preços de acomodação fossem às alturas, gerando a preocupação de que algumas delegações ficassem de fora. Após o evento, o comentário depreciativo do chanceler alemão levou a respostas acaloradas de autoridades brasileiras. Para a Acadêmica Ima Célia Vieira, Belém expôs contradições da questão climática. “Discutimos o clima do planeta no lugar onde o clima do planeta será decidido”, resumiu.

Para Krug, foi importante mostrar ao mundo uma parte do Brasil com a qual ele não está acostumado. “Ter a Cop em Belem foi fantástico. As instalações eram simples, não havia a exuberância de Dubai, mas eram bonitas, aconchegantes. Tivemos problemas, mas os estrangeiros com quem converso gostaram de ver esse lado diferente do Brasil”, argumentou.

A falta de um mapa do caminho para sair dos combustíveis fósseis

Uma das principais frustrações ao fim da COP 30 foi a falta de um mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis. A ideia foi ventilada pelo presidente do Brasil em falas que antecederam o encontro, o que acabou elevando expectativas. Para as palestrantes, a crítica é injusta, pois a ideia nunca esteve na agenda, que sempre é acordada antes mesmo da reunião começar. “Quem estava lá dentro sabia desde o momento inicial que isso não iria acontecer”, afirmou Ana Toni, CEO da COP30.

Historicamente, os combustíveis fósseis são a principal contradição da COP. Responsáveis por quase 80% das emissões de gases do efeito estufa, o termo só apareceu pela primeira vez num documento oficial na COP 28, e assim mesmo de forma genérica. O tabu para falar do assunto ocorre porque países produtores ou fortemente dependentes do petróleo bloqueiam qualquer menção, o que é fatal para um colegiado que só toma decisões por consenso. Para as palestrantes, a falta de menção cria a falsa sensação de que nada está sendo feito. “A COP 30 inaugurou um caminho paralelo, independente de consenso, para tratar de temas sensíveis. O que não foi possível fazer com negociação, como os mapas do caminho para combustíveis fosseis ou desmatamento, está em andamento e deve vir à tona antes da COP 31”, afirmou a embaixadora Liliam de Moura.

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre

Uma das principais inovações da presidência brasileira foi a ideia do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, da sigla em inglês), recebida com entusiasmado por uma parte da comunidade internacional. Mais uma vez, o problema se deu nas expectativas. O governo brasileiro anunciou uma ambição astronômica, US$ 125 bilhões, mas ao final da COP, o total prometido foi de R$ 6,4 bilhões, dos quais US$ 3 bi vieram da Noruega. “Não é pouca coisa. Para se ter uma ideia, o Fundo de Perdas e Danos lançado na COP 27 teve valores iniciais por volta dos US$ 800 milhões”, afirmou a embaixadora.

Foco na adaptação climática

Um dos principais compromissos estabelecidos na COP 30 foi o de triplicar os valores investidos em adaptação. Historicamente, os países desenvolvidos preferem investir em programas de mitigação climática nos países em desenvolvimento, visto que os benefícios da mitigação são globais. Mas com a intensificação dos eventos climáticos extremos e a pressão exercida pelos países mais vulneráveis, sobretudo as pequenas ilhas, essa lógica pela primeira vez se inverteu.  Esse resultado se expressa no estabelecimento de 59 novos indicadores para adaptação, que visa solucionar um dos principais gargalos para o investimento que é a falta de métricas compartilhadas que permitam uma escolha mais consciente de onde se investir.

Participação da sociedade civil

“Se a COP 30 mostrou que será muito difícil acabar com os combustíveis fosseis, mostrou também uma mobilização sem precedentes da sociedade civil brasileira”, afirmou o Acadêmico Paulo Artaxo ao abrir a mesa-redonda “Avaliação da COP 30”. A mesa contou com a presença da pedagoga Altaci Rubim Kokama, primeira professora indígena da Universidade de Brasília (UnB). Durante a COP 30, a professora apresentou reinvindicações pela preservação das línguas indígenas como fator indissociável da preservação ambiental. “A participação na COP30 reafirmou nosso compromisso de levar a voz dos biomas para o centro das agendas globais”, afirmou Kokamba.

O exemplo da professora é apenas um das centenas de representações que compuseram o mutirão convocado pela presidência brasileira para que setor privado e sociedade civil se juntassem aos governos nas discussões. Essa foi a primeira vez que esse modelo expandido foi adotado, e a expectativa é de que ele continue. “Esse foi o grande legado da COP 30”, resumiu Thelma Krug.

Assista às sessões:

(Marcos Torres para ABC, 31/07/2026 | Foto: SBPC)