A saúde global em um mundo em transformação

“Vivemos num mundo sem regras. Não é mais crise, é mutação. Crise prevê um pico e um retorno, que não acontece mais. Estamos em mutação – mas para onde?”

Esta indagação partiu da socióloga e Acadêmica Nisia Trindade, pesquisadora da Fiocruz e ex-ministra da Saúde, ao iniciar sua palestra durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), na manhã de 29 de julho. A coordenadora da sessão foi a médica sanitarista e pesquisadora da Fiocruz Ligia Bahia.

Um mundo em transformação

Nisia apontou as principais tendências da transformação pela qual o mundo e o Brasil, em especial, estão passando, e seus impactos na saúde. No caso brasileiro, uma grande preocupação é a transição demográfica. “Em 2030, teremos uma população de pessoas com mais de 60 anos maior que a população jovem, de até 15 anos”, destacou a Acadêmica. Essa questão impacta a sociedade pela redução da força de trabalho ativa, pela sobrecarga dos sistemas de saúde e previdência, e pela mudança no mercado de consumo.

A mudança climática é outro ponto, sendo, na verdade, uma questão socioambiental. Ela afeta diretamente a saúde pública por conta da proliferação de doenças infecciosas e os eventos climáticos extremos, que causam perdas materiais e humanas que afetam a saúde mental da população envolvida.

Um terceiro aspecto que Nísia destacou foi a transição digital. “Num mundo cujo modo de produção é o capitalismo financeiro, o valor dos dados se torna crucial”, ressaltou a Acadêmica. “No Brasil, o debate está centrado na regulação, mas precisamos ir além, atuar fortemente no campo da soberania do país nesse sentido”, afirmou.

As mudanças no mundo do trabalho também afetam a saúde mental e física. “A pejotização, por exemplo, tem implicações nos horizontes individuais, causa insegurança”, apontou Nisia. A invasão digital provoca fadiga visual e síndrome de burnout. A falta de ergonomia afeta a postura. E por aí vai. De modo geral, essas mudanças geram sobrecarga mental crônica e enfraquecem as relações sociais, levando à perda de confiança na estrutura política e social.

A persistência das desigualdades é outro fator a que Nisia deu destaque, apontando que a ciência e tecnologia são fatores decisivos na ampliação das desigualdades entre os países, ao concentrarem o conhecimento de maior valor agregado, o controle de patentes estratégicas e a capacidade de inovação em um pequeno grupo de nações. Essa concentração cria relações de dependência, obrigando países com menor capacidade científica a importar tecnologias, pagar licenças e enfrentar a migração de seus pesquisadores para centros mais desenvolvidos.

No campo econômico, o desequilíbrio se reflete em uma divisão internacional do trabalho na qual economias menos avançadas exportam matérias-primas de baixo valor e importam produtos de alta tecnologia, enquanto a corrida por inteligência artificial, infraestrutura computacional e transformação digital amplia ainda mais a distância entre produtores e consumidores de conhecimento. De acordo com Nísia, 1% da sociedade detém 25% da renda.

Soberania: garantia de autonomia e liberdade

Em áreas estratégicas como a saúde, crises recentes como a epidemia de covid-19 evidenciaram que a falta de autonomia científica e industrial torna muitos países vulneráveis ao monopólio de insumos essenciais, comprometendo sua capacidade de resposta em situações de emergência e sua soberania tecnológica. “O novo normal, depois da pandemia, é o pior do antigo. Como construir uma civilização com menos concentração de dados e de renda?”, questionou a palestrante.

Ela frisou que vacinas deveriam ser bens públicos, conforme foi discutido na pandemia, mas não aconteceu. Nísia apontou que dez países detêm produção de vacinas. “No Brasil, o Butantan e Fiocruz garantiram vacinas durante a pandemia”, apontou. De fato, o Butantan produziu a vacina CoronaVac em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac e foi responsável pelas primeiras doses aplicadas no país em janeiro de 2021. Já a Fiocruz produziu a vacina Covishield em parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, sendo que garantiu a transferência de tecnologia para produção 100% nacional do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA).

De todo modo, grandes laboratórios detêm os direitos. “Vejam o caso dos acordos internacionais sobre acesso à informação às pesquisas de AIDS. O Brasil participou da Fase 3 do processo. E onde está o retorno, o acesso?”, indagou Nisia Trindade.

Por conta dessa falta de autonomia, estão em andamento acordos entre países do Sul Global referentes à saúde que investem em equidade, produção local, mais acesso a vacinas e medicamentos, de acordo com a palestrante. Ela afirmou que uma geração de microbiologistas tem alertado que se quisermos manter nosso modo de vida atual, teremos que estar constantemente à frente da evolução dos patógenos. Trindade citou Lewis Carrol, com uma frase da rainha de Copas para Alice: “É preciso correr muito para ficar no mesmo lugar. Se você quer chegar a outro lugar, corra duas vezes mais.”

E além da ameaça dos patógenos, ainda temos que enfrentar o negacionismo científico e ameaças à democracia. “O ataque à ciência vem junto com o avanço da extrema direita, em todo o mundo”, pontuou a socióloga.  Ao que parece, a validação de dados científicos e o conhecimento acadêmico independente desafiam diretamente as estratégias de mobilização populista, os interesses econômicos e a agenda moral desse espectro político.

Propostas para uma agenda da saúde global

Além de combater e mitigar, como transformar? Nisia Trindade destaca que, nas últimas décadas, o conceito de “saúde pública internacional” evoluiu para “saúde global”. Para a consolidação desta visão, ela aponta a necessidade de reconfiguração da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nessa linha, ela apresentou os pontos que considera fundamentais para o desenvolvimento do processo.

O fortalecimento dos sistemas universais de saúde. A experiência internacional, inclusive a brasileira, mostra que a saúde pública e a ação coletiva são essenciais para a resiliência dos países e para o preparo para enfrentar futuras pandemias e problemas de saúde, incluindo doenças transmissíveis e crônicas.

O fortalecimento da CTI para uma nova visão de saúde pública na sociedade do conhecimento. É necessário enfrentar a mãe de toda as desigualdades: a desigualdade do conhecimento, inovação e base produtiva. Além disso, sem uma distribuição mais simétrica das capacidades produtivas e de inovação, a crescente concentração e monopolização da saúde inviabilizará respostas nacionais e globais baseadas na universalidade e na equidade.

O direcionamento, mediante um esforço global, da base econômica, produtiva e tecnológica em saúde, de diferentes países com diferentes níveis de desenvolvimento, para as necessidades sociais e ambientais. As demandas da sociedade e a sustentabilidade do planeta devem orientar todas as políticas públicas e estar integradas ao princípio de que o sentido último do desenvolvimento é a promoção da qualidade de vida e preservação ambiental.

Ciência contra as desigualdades

Para finalizar, Nisia Trindade relatou que esses sete grandes desafios que apresentou foram pensados em conjunto com Carlos Gadelha e publicados num artigo que foi divulgado antes da pandemia. “Esse conteúdo passou pelo G20, pelo BRICS e outras diversas instâncias internacionais, contou Nísia.

Ela pensa que os cientistas precisam estar envolvidos com a política do seu tempo, interferindo nas grandes decisões. “Me parece que essa é uma agenda permanente. O desafio democrático é o desafio fundamental. Vamos lutar juntos para que a ciência e a tecnologia possam ser forças promotoras do enfrentamento às desigualdades no Brasil e no mundo.”

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Fotos: Jardel Rodrigues/SBPC)