“A desinformação científica produz mercados”, a frase é da comunicóloga Thaiane Oliveira, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e uma das autoras do livro “Desafios e Estratégias na Luta contra a Desinformação Científica”, publicado pela Academia em 2024. A publicação foi fruto de um grupo de trabalho que contava com Thaiane e o vice-presidente da regional São Paulo, Glaucius Oliva, entre os coordenadores. Ambos participaram da mesa-redonda “A Economia da Desinformação Científica: Plataformas, Lucro e os novos desafios para a Ciência” durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

A desinformação sobre ciência segue um problema no pós-pandemia. Enquanto a maior parte da literatura foca no conteúdo, como as formas de linguagem e estratégias utilizadas, ou nos indivíduos, como as crenças e valores que tornam as pessoas mais propensas à cada tipo de desinformação, Thaiane pede mais atenção a outro aspecto importante: a forma como a desinformação proporciona oportunidades de mercado. “A natureza da ciência exige a incerteza, e desinformadores se aproveitam disso para gerar uma economia da incerteza, financiando falsas controvérsias, produzindo ‘especialistas alternativos’, recebendo patrocínio de think tanks e produzindo campanhas coordenadas”.
“Quando olhamos pela lente da legitimação epistêmica, há uma série de atores que são legitimados a falar de ciência, mesmo que com mentiras. Isso é um problema da infraestrutura informacional atual”, continuou a Acadêmica. Em outras palavras, as redes e plataformas permitem que desinformadores copiem a estética da ciência, ou mesmo capturem seus instrumentos, no que ficou conhecido como fake science. Um exemplo disso são médicos influencers que promovem – e lucram – com tratamentos “alternativos” e promovendo a hesitação vacinal.
Médicos antivacina usam redes para lucrar com “tratamentos alternativos”
Presente na mesa, o jornalista Bernardo Costa, do Estadão, produziu uma série de reportagens em 2025 denunciando médicos famosos nas redes sociais que espalhavam a ideia da “síndrome pós-spike”, um conceito sem nenhuma comprovação científica. “A alegação era de que a proteína spike, presente nas vacinas, causava os efeitos que na verdade são associados à covid longa. Eles haviam, inclusive, publicado um artigo na revista IDCases, da Elsevier, sugerindo um protocolo de tratamento. O artigo trazia relatos de casos que não comprovavam a hipótese, com apenas cinco pacientes. Eram aplicados uma série de medicamentos sem nenhuma forma de medir seus efeitos. Em suma, um estudo bastante frágil”, contou Costa.
Nas redes sociais, esses médicos iam além, associando as vacinas à mortes por doenças cardiovasculares, câncer e morte súbita, sobretudo entre jovens. Esses alarmes vinham acompanhados de recomendações para uso do protocolo alternativo. Isso tudo em perfis que chegavam a um milhão de seguidores. Ao final, vinha o lucro. “Os médicos vendiam cursos que chegavam a custar R$ 600 e consultas que chegavam a R$ 3 mil. Também ofereciam ‘detox vacinal’ e grupos secretos onde divulgavam, segundo eles, conteúdos não permitidos nas redes”, continuou o jornalista.
Segundo Costa, após a publicação das reportagens os posts e cursos foram retirados do ar e o Ministério da Saúde abriu processos contra os médicos envolvidos por charlatanismo e estelionato. A Elsevier, editora que havia publicado o artigo, também fez uma retratação e retirou o conteúdo do ar. “Como uma editora como a Elsevier permitiu esse conteúdo de ir ao ar? Isso mostra que mesmo revistas sérias estão sujeitas à vista grossa. O artigo foi retirado, mas os prints são eternos”, lamentou.

Jornalismo perde espaço nas negociações publicitárias
O caso desses médicos é apenas um exemplo de como a desinformação científica pode ser monetizada na internet. Marcelo dos Santos Alves, professor do Departamento de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio), argumenta que a economia da atenção que existe nas redes explica parte do problema, mas não o todo. “É preciso qualificar esse debate, até porque a economia da atenção já existia quando o ecossistema era dominado pelas mídias tradicionais”.
O problema, segundo ele, está na mudança da forma como se monetiza a atividade jornalística atualmente. “Antes, uma marca pagava diretamente ao veículo para aparecer nos intervalos da programação. Com a internet, essa relação passou a ser intermediada, sobretudo pela Google. Quando acessamos o site do Globo ou Folha, os anúncios não são mais negociados com eles, mas com a Google. O jornalismo deixou de ser um player relevante na troca”, afirmou.
Com a inteligência artificial, Alves acredita que o ecossistema informacional caminhe para um novo modelo, ainda desconhecido. Isso porque os números já mostram uma diminuição de 50% no tráfego e cliques a partir dos buscadores, visto que eles já oferecem resumos gerados por IA. “O cenário hoje é incerto. Talvez piore, ou talvez estejamos observando uma nova transformação, em que a plataformização da web esteja findando, abrindo espaço para pensarmos outras formas de promover a informação de qualidade”, afirmou, com esperança.
A jornalista Nina Fernandes dos Santos, mestra em Comunicação pela Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora do INCT em Democracia Digital, defendeu que discursos anti-tecnologia são contraproducentes. “A internet gerou fenômenos nocivos, mas também pluralizou espaços, incluiu grupos que não podiam produzir informação. Não podemos jogar o bebê fora com a água do banho”, resumiu.
Ela lembrou que a desinformação não serve apenas para lucros financeiros, mas também para lucros políticos. “O poder de decidir quais informações serão apresentadas está cada vez mais concentrado nas mãos das plataformas, e estas estão assumindo um papel político, elas estão claramente se aproximando de grupos políticos que defendam a sua independência”, afirmou.
Sugestões para o Futuro
Como sugestão de caminhos a seguir, Thaiane Moreira trouxe quatro diretrizes: (I) reduzir a dependência de plataformas comerciais e fortalecer infraestruturas públicas; (II) regular os algoritmos para que os mecanismos de recomendação sejam transparentes; (III) responsabilizar judicialmente as plataformas por eventuais danos; e (IV) financiar a comunicação pública da ciência, formando comunicadores e os empregando através de editais específicos. “Hoje somos reféns das ferramentas das próprias plataformas, os APIs, para fazer pesquisa, isso compromete nossa soberania. Outro ponto é que precisamos de agências profissionais de assessoria de imprensa nas universidades, capazes de identificar notícias e oferecer releases”.
Outra sugestão, trazida por Marcelo Alves, é da criação de fundos públicos para financiar o jornalismo profissional, já que os modelos de negócio jornalístico estão cada vez mais estrangulados. Alguns exemplos são a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a Deutsche Welle (DW), da Alemanha.
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