O maior evento científico da América Latina foi aberto na noite de 27 de julho. A 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que vai de 27/7 até 1/8, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, tem como tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão.”
A mesa oficial de abertura foi composta por Francilene Garcia, presidente da SBPC; Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF); Rodrigo Neves: prefeito de Niterói; e Rodolfo Carvalho, secretário-executivo do Ministério da Educação (MEC).
Ciência como instrumento de liberdade
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, abriu sua participação cumprimentando a comunidade científica e destacando a importância da 78ª Reunião Anual da SBPC como espaço de reflexão sobre os desafios do país e de fortalecimento da ciência brasileira. Em sua fala, reafirmou o compromisso do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com a recomposição do orçamento da área, o fortalecimento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e a consolidação de políticas públicas voltadas para uma ciência comprometida com a solução de problemas sociais, a soberania nacional, a transição ecológica e a inovação inclusiva.

“Avançamos muito, mas precisamos fazer com que os jovens brasileiros reconheçam que ciência é esperança. Ciência é um instrumento de liberdade. Porque sem ciência não há inovação, não há desenvolvimento. Só a ciência pode garantir a soberania e fortalecer os laços entre a ciência e a sociedade”, afirmou a ministra.
Luciana Santos também ressaltou o protagonismo feminino na ciência brasileira, destacando a atuação da presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, cuja trajetória classificou como uma referência na defesa da ciência, da tecnologia, da educação e da democracia. A ministra enfatizou ainda o papel histórico desempenhado pela SBPC e pela ABC na construção e na defesa do patrimônio científico nacional.
Ao abordar as políticas do governo federal para o setor, destacou a parceria permanente entre o MCTI, a SBPC e a ABC na formulação de ações estruturantes para a ciência brasileira. Entre os avanços recentes, mencionou a recuperação dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), a recomposição do orçamento da ciência, o reajuste das bolsas do CNPq e da Capes e a elaboração da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, orientada por eixos como transição ecológica, descarbonização, soberania em saúde e transformação digital.
A ministra defendeu que a produção de conhecimento esteja cada vez mais conectada às demandas da sociedade e à redução das desigualdades regionais. Também destacou iniciativas voltadas à promoção da inclusão, da diversidade e da equidade no sistema científico, com programas e editais destinados a ampliar a participação de mulheres, pessoas negras e povos indígenas nas carreiras científicas, além de reconhecer o crescente protagonismo das pesquisadoras brasileiras na liderança de instituições e grandes projetos de pesquisa.
Encerrando sua participação, Luciana Santos fez um chamado à união entre universidades, institutos de pesquisa, setor produtivo, governos e sociedade civil em torno do fortalecimento da ciência nacional. Reafirmou que o desenvolvimento sustentável e a soberania do país dependem de uma ciência forte, pública e comprometida com o interesse da sociedade, agradecendo à diretoria da SBPC, à Academia Brasileira de Ciências e à comunidade científica pelo trabalho conjunto em defesa da ciência brasileira.
Homenagens às trajetórias científicas
Foram homenageados pela SBPC na sessão de abertura três cientistas brasileiros de grande destaque, todos membros titulares da Academia Brasileira de Ciências.
- Ciência para combater a fome
A primeira indicada, pela área das ciências da vida, foi a Acadêmica Mariangela Hungria (Embrapa). Engenheira agrônoma e microbiologista, dedica mais de 40 anos à Embrapa e ao estudo da fixação biológica de nitrogênio, um procedimento que permite substituir fertilizantes químicos por substâncias da própria natureza, com ganhos enormes para o meio ambiente. Em 2025 se tornou a primeira mulher brasileira a receber o World Food Prize, considerado o Nobel da alimentação.
Hungria contou que seu trabalho começou pelo desejo de mitigar a fome das pessoas. Por isso se envolveu em pesquisas para aumentar a produção de alimentos com menos fertilizantes químicos, trabalhando na Embrapa, uma empresa pública, com produtores de todos os portes. A partir dessa vivência, Mariangela declarou que não se deve confundir grandes produtores com criminosos ambientais. “O verdadeiro agricultor ama a terra, quer a saúde da terra, vem perguntar sobre novas tecnologias.
A Acadêmica destacou que o cientista trabalha para ter retorno na sociedade, não para ganhar prêmios, mas declarou sua alegria e gratidão pela honra da homenagem. “Dedico esse reconhecimento às mulheres. Para a segurança alimentar e nutricional da sociedade, o papel das mulheres é muito mais importante do que o dos homens, mas muitas vezes é invisível”, afirmou Mariangela, a partir de sua observação longo dos seus muitos anos de trabalho. “Não é só produzir alimento. São as mulheres que fazem as hortas domésticas, que passam os saberes de geração em geração, que preservam as plantas medicinais. São as nossas educadoras, as merendeiras nas escolas, as comunicadoras que vêm até nós, querendo divulgar nosso trabalho”, ressaltou. E reforçou: o país precisa de investimento real em educação.
- Ciência para combater doenças negligenciadas
O segundo homenageado, na área das ciências exatas e tecnológicas, foi o Acadêmico Vitor Francisco Ferreira. Químico de trajetória brilhante e professor da UFF, dedicou sua carreira à síntese orgânica e à busca de moléculas capazes de combater doenças como o câncer, tuberculose e a doença de Chagas. Tem mais de 400 trabalhos científicos publicados e foi um dos criadores do Programa de Pós-graduação em Química da UFF. Ele agradeceu à UFF, sua universidade, onde trabalha há 42 anos; aos alunos desde os de iniciação científica até o pós-doutorado, aos colegas e técnicos; à SBPC, que dentre tantos nomes destacados escolheu o meu. À minha presidenta da Academia Brasileira de Ciências, Helena Nader, que vem conduzindo tão bem nossa ciência e nossa Academia, e à minha família: minha mulher, minhas filhas, netas e netos”. Ele subiu ao palco com uma neta e justificou: “Aqui está o futuro do Brasil. Essas crianças, de todos os recantos do Brasil, é que estarão aqui nesse lugar nos próximos anos e merecem ser cuidadas.”
- Ciência para conhecer o pensamento social brasileiro
O último homenageado do evento, da área de humanidades foi o Acadêmico Otavio Alves Velho é um dos antropólogos de maior renome no Brasil, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Museu Nacional, dedicou sua vida ao estudo da antropologia da religião, do campesinato e do pensamento social brasileiro. Trabalhou sobre temas como globalização, ciência e sociedade, política e movimentos sociais.
Presidente de honra da SBPC, o primeiro da área de humanidades, Otavio Velho foi representado pelo também Acadêmico e presidente de honra da SBPC Ildeu de Castro Moreira, que agradeceu em nome do homenageado que, impedido de comparecer por questões de saúde, se declarou muito honrado com o reconhecimento e a premiação.
Soberania, desenvolvimento e inclusão
A presidente da SBPC, Francilene Procópio Garcia, deu as boas-vindas a todos os presentes, ressaltando o papel da SBPC em congregar a comunidade científica brasileira, estudantes e a sociedade. Apelou pela consolidação de financiamento contínuo para a educação e CT&I, enfatizando que a inovação e o conhecimento científico são os pilares para um desenvolvimento justo, inclusivo e soberano. Agradeceu aos organizadores, à universidade anfitriã, às autoridades – em especial o reitor da UFF Antonio Claudio da Nóbrega e o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves – e às entidades parceiras, com um convite a todos os participantes para se engajarem nas atividades, conferências e debates ao longo do evento.
Ela falou sobre o tema escolhido para a reunião deste ano, Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão, observando que ele envolve tudo que mobiliza o setor. “Não é só um slogan, é um projeto para o país que queremos construir. Nossas reuniões promovem a interação entre ciência e sociedade”.
Falando sobre o recente encontro com o presidente Lula na sede da SBPC, no dia 24/7, destacou a parceria com Helena Nader – presidente da ABC e a única representante do Sul Global na Academia Chinesa de Ciências (CAS) – nessa reunião. “Levamos a ele as principais preocupações da ciência brasileira. Ouvimos seu compromisso de estar aqui presente amanhã.”
Francilene Garcia ressaltou que um chefe de Estado procurar a comunidade científica não é apenas um gesto protocolar: é um reconhecimento de que nenhum projeto de país se sustenta sem ciência”. Ela ressaltou que a SBPC dialoga com quem tem a responsabilidade de conduzir um projeto de país e o faz sempre em nome da ciência e da defesa da democracia. E isso é importante que isso fique bem claro aqui”, declarou Francilene.
Falando sobre a palavra soberania, citou o geógrafo baiano Milton Santos, homenageado na sessão por seu centenário de nascimento e também pela ABC, que lançou recentemente uma animação sobre ele. Procópio apontou que Santos nos fez ver o território não como um simples palco como algo vivido, feito de escolhas. E alertou sobre a globalização que visa manter os países da periferia como meros fornecedores de matéria prima. “Vejam a atualidade desse alerta”, observou.
Garcia apontou que “o Brasil está sentado sobre imensas reservas de minerais estratégicos, de uma das maiores biodiversidades do planeta, dos minerais e moléculas que movem a transição energética, a IA e a medicina deste século. A pergunta que está colocada por esta reunião ao país é muito decisiva: seremos, mais uma vez, exportadores de matéria bruta, ou seremos, enfim, produtores de conhecimento, de valor e de soberania.
Sobre desenvolvimento e inclusão, Garcia apontou a desigualdade que existe no Brasil. “Não é um acaso: é uma construção política feita com escolhas. Mas o que foi construído com escolhas pode ser desfeito com escolhas também”.
Enfim, Francilene Garcia destacou que nenhum dos grandes desafios brasileiros será enfrentado por um único setor. A universidade cumpre sua missão quando ela institui a comunicação entre as várias áreas da ciência – e é sobre isso que vão girar todas as atividades da semana.
Contamos com sua presença.