Nota de Pesar: Elza Salvatori Berquó

Faleceu no dia 16 de julho a membra titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Elza Salvatori Berquó, pioneira no estudo da demografia no país e um dos mais importantes nomes das ciências sociais brasileiras no século 20.

Elza Berquó se formou em matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) em 1947 e concluiu mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949. Nesta última, começou a atuar em 1950 na Faculdade de Saúde Pública (FSP), onde foi pioneira no estudo e ensino da bioestatística. Em 1959, embarcou para os Estados unidos para doutorado na área pela Universidade de Columbia.

De volta ao Brasil na década de 60, fundou o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) na USP, primeiro centro formal de estudo de demografia no país e um farol para a área na América Latina. Durante a ditadura militar, foi afastada da USP e cassada pelo Ato Institucional nº 5 por seu posicionamento crítico e, especialmente, pela sua insistência em abordar o problema da mortalidade infantil no país.

Persistente, fundou o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em 1969, para ser, nas suas próprias palavras “um centro de resistência intelectual com responsabilidade pública”. Nele, criou um programa de formação voltado para pesquisadoras negras e deu continuidade às suas pesquisas em reprodução humana e fecundidade no Brasil. Também ajudou a criar a Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep).

Mudou-se para Campinas onde, na década de 80, fundou o Núcleo de Estudos Populacionais da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp), centro que hoje carrega seu nome. Sua produção acadêmica é referência internacional. Pioneira nos estudos de fecundidade, transição demográfica, gênero, raça e saúde reprodutiva, Elza coordenou grandes pesquisas nacionais e formou dezenas de mestres e doutores que hoje lideram a demografia e as ciências sociais no país e internacionalmente.

Premiada nacional e internacionalmente, Elza unia excelência científica a um profundo compromisso com as políticas públicas e com a formação de quadros para o país e para a universidade pública. Agigantou – se sempre na defesa da democracia, da igualdade e da justiça social.

Por ocasião do seu centenário em 2025, a Unicamp lançou um site em sua homenagem, visando manter vivo o seu legado.

“Para além de uma grande cientista, Elza Berquó foi uma grande mulher, que lutou ativamente pelos direitos sociais e das mulheres”, sumarizou a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader.

“Sentimos muito a passagem da querida Elza Berquó, depois de cem anos bem vividos e em prol da ciência brasileira. Elza é a mãe da demografia brasileira, teve uma trajetória excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes na área, como a criação da ABEP, do NEPO e da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento do Governo Federal (CNPD). Tive a oportunidade de presidir a ABEP e a CNPD graças ao seu incentivo e exemplo, o mesmo ocorrendo quando ingressei na ABC. O meu é só um exemplo de vários profissionais que trilharam as inúmeras temáticas demográficas e de ciências sociais aplicadas que foram pioneiramente desenvolvidas pela Elza. Fará falta, mas resta a certeza que seu legado é eterno”, afirmou o Acadêmico Eduardo Rios Neto, que trabalhou junto a Elza na ABEP.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) manifesta suas condolências a familiares e amigos da célebre Acadêmica. Seu trabalho desbravou caminhos antes inexplorados que ajudaram enormemente o Brasil a conhecer a si mesmo.

(GCOM ABC, com informações de Jornal da USP e NEPO-Unicamp | Foto Divulgação/Eduardo Nobre)