Após mais de seis décadas de contribuição à ciência brasileira, Eloi de Souza Garcia encerrou uma das trajetórias mais marcantes da pesquisa biomédica nacional. O cientista faleceu nesta quarta-feira (8/7), aos 81 anos.

Dono de uma trajetória singular, marcada pela formação de novos mestres e doutores e pela defesa da pesquisa pública, Eloi deixa um legado que permanece vivo e transcende os muros de Manguinhos. Sua história se entrelaça à do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da própria Fundação Oswaldo Cruz, onde dedicou grande parte de sua vida e se tornou destaque nas áreas de bioquímica, imunologia e parasitologia.
Presidente da Fiocruz entre 1997 e 2000, Eloi de Souza Garcia ingressou no IOC em 1982, mas sua ligação com Manguinhos começou ainda na juventude. O interesse pela pesquisa já o levava ao campus quando cursava medicina veterinária: semanalmente, visitava a biblioteca do castelo mourisco para acompanhar a chegada de novas publicações científicas.
Sua paixão pelos livros e pelas publicações científicas o levaria, anos mais tarde, a se tornar editor da centenária revista “Memórias do Instituto Oswaldo Cruz”, um dos mais prestigiados periódicos da América Latina.
Natural da pequena Santa Rita do Sapucaí (MG), Eloi se tornou gigante. Após concluir a graduação em medicina veterinária na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em 1967, prosseguiu na carreira acadêmica com o doutorado em biologia molecular na Escola Paulista de Medicina. Alçando voos ainda maiores, realizou pós-doutorado nos Estados Unidos, no Laboratório de Doenças Parasitárias do Instituto Nacional de Saúde (NIH).
De volta ao Brasil, fundou, no IOC, o Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos, o primeiro do país dedicado à área, onde desenvolveu pesquisas de impacto internacional em colaboração com instituições como a Universidade de Bochum, da Alemanha, e a Universidade de Swansea, do Reino Unido.
Seu reconhecimento dentro e fora do país o levou a integrar comissões de agências como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Também participou de missões oficiais de cooperação científica e tecnológica promovidas pelos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia, representando o Brasil em iniciativas com países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Rússia, México, Índia e nações do continente africano.
Tornou-se membro da Academia Brasileira de Ciências em 1987 e, em 2012, foi eleito para a Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS). Atuou, ainda, no Ministério da Ciência e Tecnologia, foi consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e diretor de Desenvolvimento Científico da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro.
No hall de prêmios e homenagens, Eloi acumula as mais prestigiadas honrarias da ciência brasileira e internacional. Foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito Científico, recebendo o grau de Comendador em 2000 e promovido a Grã-Cruz em 2002.
Possui ainda os títulos de Professor Emérito pela UFRRJ e de Pesquisador Emérito pela Fiocruz.

Em depoimento, o cientista contou que conduzir as celebrações pelos 100 anos da Fiocruz foi um dos momentos mais marcantes de sua vida.
“Ser o presidente durante o centenário da instituição criada por Oswaldo Cruz foi uma das maiores emoções de minha vida”, frisou na época.
No mesmo relato, fez questão de destacar uma lembrança que guardava com carinho: o ingresso da filha, Gabriela Azambuja Garcia, na Pós-graduação do IOC. Mestre e doutora pelo Programa de Pós-graduação em Biologia Parasitária do Instituto e, atualmente, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, Gabriela perpetua na prática a trajetória científica do pai.
“Quando faço a retrospectiva da minha vida, é com muita emoção e felicidade que tenho a sensação de que a ciência continua dentro de minha casa, nas mãos de minha filha, e que a continuidade do trabalho que realizo no IOC tem prosseguimento pelo entusiasmo de meus estudantes”, declarou.
Botafoguense de carteirinha, Eloi deixa uma marca profunda na ciência brasileira, na saúde pública e na história do Instituto Oswaldo Cruz e da Fiocruz.
