Novo livro de Acadêmico aproxima samba, blues e jazz

O que une o samba ao blues surgido no sul dos Estados Unidos e ao jazz de Nova Orleans? Muito além de gêneros musicais que conquistaram o mundo, eles nasceram de experiências históricas semelhantes, marcadas pela escravidão, pela urbanização, pelas desigualdades raciais e pela invenção de novas identidades culturais. É dessa surpreendente convergência que parte o novo livro do antropólogo Ruben George Oliven, “Samba, Blues and Jazz – Love, Money and Race in Brazilian and American Music”, recém-lançado pela editora Routledge (166 páginas).

Um dos mais importantes nomes da antropologia brasileira, professor emérito da UFRGS e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a região Sul, Oliven constrói uma ampla reflexão sobre as conexões entre o Brasil e os Estados Unidos a partir de três gêneros musicais que, embora tenham surgido em contextos distintos, compartilham trajetórias marcadas pela criatividade, pelo preconceito das elites e, posteriormente, pela incorporação dessas expressões à cultura nacional.

Ao comparar a formação do samba, do blues e do jazz, o autor mostra como esses gêneros acompanharam profundas transformações vividas pelos dois países entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. A abolição da escravidão, a intensa urbanização, as migrações, a industrialização, o fortalecimento da indústria fonográfica e do rádio e as mudanças nas relações de trabalho, de gênero e de classe encontram eco nas letras e nas sonoridades da música popular.

“A circulação da cultura é um fenômeno constante. Ideias e manifestações culturais originárias de um lugar frequentemente migram para outros locais, adaptando-se a novas realidades. A música brasileira e a americana são bons exemplos. Elas têm presença internacional desde as décadas de 1920 e 1930, quando músicos de jazz e de samba começaram a fazer turnês pela França e a se encontrar. O Brasil introduziu o maxixe na Europa e nos Estados Unidos e, por sua vez, trouxe de volta ao samba a inclusão de instrumentos de jazz que havia aprendido em Paris”, explica o autor.

Um dos eixos centrais da obra é a análise dos processos de apropriação cultural. Criados majoritariamente por músicos negros e pobres, samba, blues e jazz passaram a ser interpretados, difundidos e transformados por artistas brancos de classe média, até se consolidarem como símbolos da identidade nacional de seus respectivos países. Para Oliven, compreender esse percurso significa também compreender as complexas relações entre reconhecimento artístico, desigualdade racial, mercado cultural e poder.

O livro acompanha ainda o intenso diálogo entre as tradições musicais brasileira e americana ao longo do século XX. Do maxixe à bossa nova, do jazz ao rock, do funk às produções contemporâneas, o autor demonstra que a circulação de artistas, repertórios e influências foi decisiva para redefinir continuamente as fronteiras entre o nacional e o internacional, tornando a própria ideia de identidade cultural cada vez mais dinâmica.

Ao colocar a música no centro da análise social, OIiven reafirma uma de suas marcas como pesquisador: mostrar que canções não são apenas entretenimento, mas também documentos privilegiados da vida cotidiana. Amor, dinheiro, trabalho, pobreza, família, raça, gênero e relações de classe atravessam o repertório popular e revelam, em diferentes épocas, as transformações da sociedade.

Publicado em inglês por uma das mais prestigiadas editoras acadêmicas do mundo, “Samba, Blues and Jazz – Love, Money and Race in Brazilian and American Music” sintetiza décadas de pesquisa de Ruben Oliven e oferece uma leitura inovadora sobre as relações entre música, cultura e sociedade nas Américas, estabelecendo um diálogo original entre três gêneros que ajudaram a moldar a história cultural do Brasil e dos Estados Unidos. O autor já prepara uma versão em português do livro, a ser lançada em futuro próximo.

(DIvulgação ABC)