A Academia Brasileira de Ciências (ABC) participou, nos dias 15 e 16 de junho, da reunião do Grupo de Engajamento em Ciência e Tecnologia do G20 (Science 20 – S20), realizada na sede da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em Washington, D.C. A Academia esteve representada por sua presidente, Helena B. Nader, que foi acompanhada pelo diretor-executivo de relações internacionais da ABC, Marcos Cortesão.
O encontro reuniu as Academias de Ciências dos países do G20 para discutir e consolidar recomendações a serem encaminhadas à reunião de Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo dos países do grupo, que será realizada na Flórida em dezembro de 2026. As discussões ocorreram a partir de versões sucessivas de um documento-base preparado pela Academia dos EUA.
Em sua versão inicial, o documento apresentado pela Academia dos Estados Unidos propunha uma declaração do S20 voltada ao fortalecimento da resiliência a desastres naturais por meio do uso de tecnologias emergentes e da cooperação internacional. O texto destacava o aumento da frequência e da intensidade desses eventos, bem como seus impactos econômicos e sociais, ao mesmo tempo em que apontava limitações das estratégias atuais de redução de riscos. Nesse contexto, enfatizava o potencial de ferramentas digitais, inteligência artificial e sistemas de dados para aprimorar o monitoramento, a previsão, a resposta e a recuperação pós-desastre. Também identificava lacunas relacionadas à disponibilidade de dados, infraestrutura e governança, especialmente em países em desenvolvimento, e propunha ações em áreas como uso de tecnologias, compreensão das vulnerabilidades socioeconômicas, apoio à resiliência e fortalecimento da cooperação internacional, ressaltando, por fim, a necessidade de investimentos contínuos, capacitação local e abordagens éticas e inclusivas.
Em etapa preliminar à reunião presencial, a ABC submeteu contribuições ao documento, destacando a necessidade de se reconhecer o papel das ações humanas, em especial as mudanças climáticas de origem antrópica, a degradação ambiental e padrões insustentáveis de uso da terra, como fatores centrais no aumento da frequência e intensidade de desastres naturais. Em sua reação à primeira versão do documento, a ABC também ressaltou a importância de integrar medidas de mitigação e adaptação, articuladas a uma agenda mais ampla de desenvolvimento sustentável e justiça socioambiental.

Outro ponto relevante apresentado pela ABC foi a necessidade de equilibrar o destaque dado às soluções tecnológicas com a consideração dos determinantes estruturais do risco, como as desigualdades socioeconômicas, as capacidades institucionais e as vulnerabilidades locais, especialmente nos países em desenvolvimento. Ressaltou-se, ainda, a importância de incorporar as perspectivas do Sul Global e de valorizar o conhecimento local na formulação de estratégias de resiliência.
Em reação à segunda versão do documento circulada dias antes do encontro em Washington, a ABC levou à reunião presencial novas ponderações. Durante os dois dias de intensos debates, a presidente Helena Nader teve atuação de destaque ao reforçar a necessidade de que o documento final represente uma visão verdadeiramente global, e não restrita às perspectivas dos países do Norte, enfoque ainda predominante na segunda versão do documento. No contexto das discussões sobre infraestrutura compartilhada, a ABC defendeu a centralidade do valor da decisão humana, ressaltando que a inteligência artificial deve atuar como ferramenta de apoio, e não como substituta da tomada de decisão. Nesse sentido, enfatizou-se a importância do conhecimento local e da ciência para a predição de eventos e a recuperação pós-desastres, bem como a necessidade de investimentos em treinamento tecnológico, no uso de tecnologias para monitoramento e no fortalecimento da coleta e integração de dados. A ABC também defendeu que o texto reconheça de forma mais clara o papel das mudanças climáticas como vetor de riscos e a importância de alinhar inovação tecnológica a princípios de sustentabilidade.
Outro aspecto enfatizado foi o próprio impacto ambiental das tecnologias emergentes, como inteligência artificial e grandes centros de dados, cuja expansão demanda crescente consumo de energia e recursos hídricos, exigindo estratégias de eficiência e uso de fontes renováveis.
Como resultado das discussões, será elaborada uma terceira versão do documento, que buscará incorporar as diversas contribuições defendidas pela ABC e acolhidas pelos demais participantes. O texto final servirá de base para as recomendações do S20 aos líderes do G20, refletindo avanços no sentido de uma abordagem mais inclusiva, equilibrada e alinhada aos desafios globais contemporâneos.