Leia artigo do Acadêmico Hernan Chaimovich, professor emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq, publicado no Jornal da USP em 18 de junho:
Mandei há alguns dias por e-mail um arquivo para Sergio, um amigo cubano ao qual me unem anos de trabalho internacional conjunto. Hoje recebo, por WhatsApp, um longo texto que, numa parte, dizia: “pero no pude descargarlo hasta ayer por las dificultades de cobertura telefónica y electricidad. Este fin de semana há sido especialmente difícil pues tuvimos roturas secuenciales en tres de las mayores plantas generadoras termoeléctricas”. Estas frases secas, isentas de drama, refletem a situação de Cuba hoje.
Por décadas, nos encontramos em muitas reuniões de organizações internacionais onde Sergio representava Cuba. Através dele, fui conhecendo o esforço científico cubano, a Academia de Ciências de Cuba e, claro, Havana, onde estive algumas vezes. Longe de mim fazer uma análise sobre a natureza política do regime cubano. Pretendo somente, de forma sucinta, contar histórias que me tocam relacionadas com o Sergio e a Academia de Ciências de Cuba.
Mas, antes, creio ser necessário, cientista que sou, colocar alguns dados. O bloqueio, ou embargo, que os Estados Unidos da América (EUA) exercem sobre Cuba teve início de forma gradual a partir de 1960, e lá se vão sessenta e seis anos. O bloqueio total é formalizado em 1962, meses antes da crise dos mísseis, e endurecido após. O embargo foi reforçado em 1992 e logo, em 1996, aplicado a países que comerciassem com Cuba. Mais recentemente, o presidente Trump, que também parece odiar o PIX brasileiro, impôs o bloqueio a navios-tanque que se dirigem à ilha. Além de receber poucos insumos farmacêuticos, a falta de petróleo, determinada pelo bloqueio naval dos EUA, produz uma crescente paralisação do transporte e crítica falta de energia na ilha.
Em 2002, participei de uma reunião da Organização de Estados Americanos (OEA), na qual se propunha organizar uma comissão de experts das Academias de Ciência do continente para assessorar a organização em questões de ciência, ensino superior e tecnologia. Cuba, expulsa da OEA em 1962, permanece até hoje, por opção própria, como o único país das Américas que não integra a OEA, apesar da resolução de 2009 que revogou a decisão de expulsão de 1962. Pareceu-me inaceitável a exclusão da Academia de Ciências de Cuba, a mais antiga academia do continente americano, fundada em 1861, num comitê científico que deveria representar todas as academias do continente.
Pensando em como integrar todas as academias, e com o apoio de vários colegas latino-americanos, da National Academy of Sciences e do InterAcademy Partnership (IAP), fundamos a IANAS (InterAmerican Network of Academies of Science) que inclui todas as Academias de Ciência do continente americano e do Caribe. Presidi a IANAS por seis anos. Os programas científicos de IANAS sobre Águas, Gênero, Ensino de Ciências, Energia, entre outros, construídos por cientistas das Academias de Ciência do continente, continuam a ser referência para a formulação de políticas públicas. A Academia de Ciências de Cuba participa ativamente destes programas.
Meu amigo Sergio, que hoje tem dificuldades para ler meus e-mails, mora num país que está sendo afogado por um total bloqueio naval. São tempos escuros e os raros raios de luz vêm da cooperação entre academias e cientistas que, por dever de ofício, acreditam que o contato e o diálogo são o caminho para a humanidade poder avançar e, agora, sobreviver.