Desequilíbrio de ecossistemas pode levar o Brasil para o epicentro da próxima pandemia

Leia artigo de opinião do Acadêmico Renato Cordeiro, professor emérito, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado no The Conversation, em 16 de junho:

Enquanto o mundo tenta, de forma quase obstinada, virar a página da Covid-19, a humanidade ainda carrega as cicatrizes físicas e sociais do trauma. O saldo dramático de milhões de vidas perdidas no Brasil e no mundo não ficou no passado. Ele se estende silenciosamente no presente por meio da chamada “Covid longa”. Milhares de pessoas enfrentam diariamente sequelas crônicas, neurológicas e cardiovasculares. Essas vítimas nos lembram de que os impactos de uma pandemia não se encerram com o fim da emergência sanitária. A maior lição da Covid-19 deveria ter sido a preparação. Contudo, o cenário global aponta para o oposto.

Ameaças latentes, como o ressurgimento e a gravidade do vírus Marburg e de cepas do vírus Ebola na África, mostram que o risco de uma nova crise hemorrágica global é real e iminente. A OMS já até ampliou a advertência mundial em relação ao Ebola Bundibugyo. O tempo de trânsito de um patógeno entre um vilarejo isolado e qualquer metrópole global é tragicamente menor do que o seu período de incubação. E por outro lado, assistimos hoje a uma asfixia deliberada das defesas sanitárias globais. A decisão política de países como os Estados Unidos e a Argentina de se retirarem ou cortarem severamente os laços com a Organização Mundial da Saúde (OMS) empurra a instituição para uma situação de penúria financeira crônica.

Retirar o financiamento da OMS no momento em que a vigilância epidemiológica global precisa ser expandida é um ato de sabotagem contra a segurança coletiva. Esse isolacionismo se agrava com o desmonte interno promovido pelo atual governo americano na saúde pública. Sob a liderança do secretário Robert F. Kennedy Jr., assiste-se a um enfraquecimento ideológico e orçamentário de pilares da ciência mundial: o National Institutes of Health (NIH) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), além do sufocamento de grandes universidades americanas. Quando a maior potência científica do planeta boicota suas próprias agências de controle, a humanidade inteira perde seus olhos e sentidos na linha de frente contra os vírus.

A vitória da ciência contra o negacionismo

No Brasil, conhecemos bem o preço do negacionismo institucionalizado. Marcus Lacerda, pesquisador da Fiocruz na Amazônia, enfrentou severa perseguição política e ameaças de morte no governo anterior simplesmente por cumprir seu dever científico e mostrar a ineficácia da cloroquina e da ivermectina na Covid-19. A história, contudo, costuma ser justa com a ciência: hoje, Lacerda foi acolhido internacionalmente e assumiu o destacado posto de diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da OMS. Esse reconhecimento demonstra que a dignidade acadêmica resiste ao obscurantismo. A urgência de manter a guarda alta ganha contornos dramáticos no solo brasileiro.

Recentemente, um estudo coordenado pela cientista [e Acadêmica] Ester Sabino da USP e publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases reacendeu um alerta crucial sobre o vírus Sabiá. Causador de uma febre hemorrágica e neurológica gravíssima, com quatro casos fatais históricos no estado de São Paulo, descobriu-se que esse Arenavírus circula silenciosamente no ecossistema brasileiro há pelo menos 142 anos. E um alerta importante é que o vírus apresenta variações genéticas preocupantes ao longo do tempo. O perigo não é hipotético. Ele está sob os nossos pés e é ativamente alimentado pela degradação ambiental.

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Leia o artigo completo no site The Conversation

(Renato Cordeiro em The Conversation, 16/6)