Leia matéria de Oscar Lopes para Neo Mundo, publicada em 5 de junho:
Há uma Amazônia que aparece nos discursos de cúpula, nas metas climáticas e nos relatórios de sustentabilidade corporativa — vasta, simbólica, negociável. E há a Amazônia que [a Acadêmica] Ima Vieira conhece: a do leste do Pará com 56% do território desmatado, a das comunidades que viram suas florestas arder por três verões consecutivos, a das capoeiras que tentam se reconstituir sobre solos que guardam a memória do fogo. São duas Amazônias que raramente se encontram — e essa distância tem custo mensurável.
Pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi, doutora em ecologia pela University of Stirling, assessora do presidente da Finep e uma das vozes científicas mais rigorosas sobre regeneração florestal e biodiversidade amazônica, Ima Vieira construiu sua trajetória a partir de dentro do bioma — não das capitais do sul nem dos centros de decisão internacionais. Suas pesquisas com o projeto nacional INCT Nexus, financiado pelo CNPq e Fapespa (FAP do Pará) e a rede 2ndFOR, consórcio de mais de cem cientistas em dezoito países, produziram alguns dos dados mais incômodos sobre o tempo real de recuperação das florestas tropicais. A conclusão central: a regeneração existe, tem escala e absorve carbono — mas não desfaz o que foi destruído. Floresta secundária não é floresta primária, e confundir as duas é um erro com consequências que vão muito além da taxonomia.
Em 2024, a Amazônia registrou os maiores índices de incêndios florestais já documentados — mais de 16 milhões de hectares queimados, com emissões que superaram em 2,5 vezes as do desmatamento convencional. Na COP30, em Belém, Ima Vieira apresentou uma resposta que a política pública ainda não aprendeu a ouvir: a restauração que funciona não começa com mudas nem com contratos de carbono. Começa com as comunidades que sempre viveram na floresta e que, por isso, são as únicas que sabem como ela se reconstitui.
Florestas secundárias recuperam até 80% das espécies, mas a composição original pode levar séculos. O que esse dado diz sobre a narrativa de que restauração florestal resolve o problema do desmatamento?
Florestas secundárias se destacam por sua capacidade de acumular biomassa e recuperar riqueza de espécies em escala de décadas. Mas riqueza de espécies não é o mesmo que composição. A floresta que voltou (restauração) não é a floresta que foi perdida. As espécies raras, as de ciclo de vida longo, as que dependem de dispersores específicos e de condições microclimáticas construídas ao longo de séculos — essas não voltam em vinte anos, e muitas não voltam nunca se o contexto da paisagem estiver destruído.
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Ima Vieira não oferece consolo. Seus dados sobre regeneração florestal são, ao mesmo tempo, uma evidência de resiliência e um alerta sobre os limites dessa resiliência — e ela recusa a tentação de transformar um no outro. A floresta pode se recuperar, mas não no ritmo que o desmatamento impõe, não na escala que os mercados de carbono prometem e não sem as comunidades que sempre foram sua memória viva. Essa distinção, aparentemente técnica, é na verdade política: ela define quem lucra com a narrativa da restauração e quem de fato restaura.
O especial O Planeta Fora de Equilíbrio continua. Da Amazônia e seus rios voadores que alimentam o clima do continente, a conversa se move agora para onde esses rios chegam — o oceano, sistema que regula o planeta e que, como a floresta, acumula dívidas que nenhum relatório ainda sabe precificar inteiramente.
Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido por Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias — em parceria com Amanco Wavin e Redemar Brasil.