Universidades brasileiras perdem espaço nos rankings internacionais

Leia artigo publicado no site The Conversation de autoria dos ex-afiliados da ABC Claúdia Figueiredo* e Marcelo Mori* e dos Acadêmicos Abilio Baeta Neves* e Concepta Mc Manus* :

Os rankings universitários internacionais tornaram-se uma das principais ferramentas utilizadas para comparar instituições de ensino superior em escala global. Nesta primeira semana de junho, foi divulgada a edição de 2026 do Center for World University Rankings (CWUR), um dos principais rankings globais de universidades. Os resultados mostram uma tendência preocupante para o Brasil, com especial destaque para a queda de rendimento das instituições federais do Estado do Rio.

maior parte das universidades brasileiras perdeu posições em relação ao ano anterior, especialmente no componente de pesquisa, que responde por 40% da pontuação total do ranking.

Uma análise dos indicadores mostra que a principal diferença entre as universidades brasileiras mais bem posicionadas e as instituições que lideram o ranking mundial não está necessariamente na produção científica, mas sobretudo nos componentes relacionados ao sucesso acadêmico e profissional de seus egressos e ao acúmulo histórico de prestígio acadêmico.

Sete indicadores e quatro dimensões

A metodologia desse ranking combina sete indicadores agrupados em quatro dimensões principais. Qualidade da educação (25%), medida pelo sucesso acadêmico de ex-alunos laureados; empregabilidade (25%), baseada na presença de egressos em posições de liderança nas maiores empresas do mundo são alguns dos itens.

Além destes, estão também a qualidade do corpo docente (10%), avaliada a partir da presença de professores agraciados com importantes distinções acadêmicas internacionais; e a pesquisa (40%), composta por indicadores de produção científica, publicações de alta qualidade, influência científica e impacto por citações. O resultado é um retrato institucional fortemente orientado por métricas de desempenho acadêmico e científico de longo prazo.

Entre as três universidades brasileiras mais bem colocadas (USP, Unicamp e UFRJ), observamos perfis bem distintos.

USP destacou-se principalmente pela pesquisa, ocupando a 82ª posição mundial nesse indicador, muito à frente de seus resultados em Educação (549ª), Empregabilidade (390ª) e Corpo Docente (203ª).

Unicamp apresentou padrão semelhante, com desempenho mais forte em Pesquisa (117ª) do que em Educação (854ª), Empregabilidade (516ª) e Corpo Docente (266ª). Esse perfil reflete uma consolidação da Unicamp como uma universidade de excelência científica e tecnológica.

UFRJ, por sua vez, apresenta um perfil distinto. Embora ocupe a 407ª posição em Pesquisa, alcança colocações relativamente melhores em Corpo Docente (176ª) e Educação (504ª), enquanto figura na 489ª posição em Empregabilidade.

Esses resultados refletem a importância histórica da antiga Universidade do Brasil na formação de lideranças científicas, intelectuais e acadêmicas ao longo do século XX. Mas mostra, comparativamente à USP e Unicamp, um desempenho abaixo em pesquisa.

Competitividade maior é em Pesquisa

O contraste no histórico de evolução desses indicadores entre as duas mais bem colocadas no ranking levanta a questão de até que ponto a UFRJ tem conseguido converter sua tradição acadêmica e sua capacidade de formação de recursos humanos em competitividade científica internacional.

Enquanto universidades como Harvard ocupam a primeira posição mundial em Educação, Empregabilidade, Corpo Docente e Pesquisa, as instituições brasileiras apresentam desempenho relativamente mais competitivo apenas em Pesquisa.

A posição de Harvard se dá por conta dos indicadores associados à formação de laureados internacionais e à presença de ex-alunos em posições de liderança nas maiores empresas globais.

Esses indicadores refletem efeitos de longo prazo e dependem de uma massa crítica ainda maior de produção científica de alto impacto para se traduzirem em reconhecimento internacional.

Essa distinção é importante porque nem todos os indicadores do ranking capturam a mesma dimensão temporal do desempenho universitário. Os componentes Educação e Corpo Docente refletem, em grande medida, o legado acumulado pelas instituições ao longo de décadas.

E baseiam-se no sucesso de ex-alunos e no reconhecimento internacional de seus docentes – um desafio adicional para universidades brasileiras, em geral mais jovens e ainda em consolidação.

Já o componente Pesquisa está associado à capacidade contemporânea de geração de conhecimento, sendo construído a partir de indicadores de produção científica, publicações de alta qualidade e impacto por citações acumulados ao longo de aproximadamente uma década.

Esses indicadores, por seu maior peso no ranking, refletem o desempenho científico das universidades e sua capacidade de sustentar protagonismo no futuro.

Atenção aos resultados de 2026

Os resultados de 2026 merecem atenção e refletem uma tendência dos últimos anos. Quando se observa especificamente a classificação em pesquisa (“Research Rank”), as seis mais bem posicionadas universidades brasileiras apresentaram, em sua maioria, perda de posições acumulativa desde 2020.

(…)

Ainda assim, é difícil ignorar que o desempenho relativamente mais fraco das instituições fluminenses coincide com um período de forte instabilidade no sistema estadual de financiamento à pesquisa. Enquanto a Fapesp manteve uma trajetória de crescimento, previsibilidade orçamentária e apoio continuado à pesquisa científica de longo prazo, a Faperj atravessou sucessivas mudanças institucionais e períodos de incerteza associados ao contexto fiscal e político do estado.

(…)

O desafio brasileiro não é escolher entre pesquisa básica, pesquisa aplicada ou inovação. É compreender que essas dimensões são complementares e que o desenvolvimento sustentável de um país depende do fortalecimento simultâneo de todas elas.

Sem uma base científica robusta, internacionalmente competitiva e capaz de formar novas gerações de pesquisadores, dificilmente será possível sustentar, no longo prazo, a capacidade inovadora que o país almeja construir.

*Claudia Pinto Figueiredo é professora associada do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (INBEB). Foi membra afiliada da ABC entre 2014 e 2019.

*Abilio Afonso Baeta Neves
Sociólogo, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professor Emérito, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É membro titular da ABC.

*Concepta McManus
Professora titular da Universidade de Brasília (UnB) e membro titular da ABC.

*Marcelo Alves da Silva Mori
Professor titular do Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi membro afiliado da ABC entre 2017 e 2022.

(Abilio Baeta Neves, Concepta Mc Manus, Claúdia Figueiredo e Marcelo Mori | Foto: Tania Rego/Agência Brasil)