Presidente da Academia Brasileira de Ciências, a biomédica Helena Bonciani Nader participou, no dia 1º de junho, do II Fórum de Ensino Superior da Fundação Getúlio Vargas (FGV), realizado na sede da FGV, no Rio de Janeiro. O encontro buscou discutir aspectos do ensino superior brasileiro que precisam ser modernizados e adaptados às demandas do século 21. “O Brasil não tem uma reforma no ensino superior desde 1968, quando menos de 5% da população chegava à faculdade. Está na hora de repensarmos esse conjunto”, sumarizou o também Acadêmico Simon Schwartzman, durante a primeira sessão.
Expansão mudou o perfil das universidades
As últimas duas décadas marcaram uma significativa expansão do ensino superior brasileiro. Hoje, 18,4% dos brasileiros possuem um diploma, contra apenas 7% no ano 2000. O grosso desse crescimento veio da explosão de instituições do setor privado, impulsionadas por programas federais de financiamento estudantil como o Fies e o Prouni. Mas o setor público não ficou para trás, observando um crescimento de 64% no número de universidades federais, além da criação de ações afirmativas que mudaram o perfil dos alunos das faculdades brasileiras.
Em sua fala, a presidente da ABC valorizou a expansão, sobretudo da pós-graduação, onde é formada a mão-de-obra da ciência nacional. “Antes, os programas de excelência estavam muito concentrados no Sudeste, hoje você já encontra muitos programas notas 6 e 7 (a avaliação máxima da Capes) no Nordeste e Norte. A expansão precisa estar aliada à qualidade”, afirmou.
Nader defendeu o modelo Ensino-Pesquisa, que norteia a atuação das universidades federais, como um marcador da excelência das mesmas. Comparando com os países da OCDE, a presidente da ABC rebateu os argumentos de que o país já forma doutores suficientes. São 10 doutores brasileiros por 100 mil habitantes, contra uma média de 30 nos países desenvolvidos. “Não há universidade de excelência sem pesquisa, o Brasil precisa formar mais doutores para competir na economia do conhecimento”, frisou.

Jovens do século 21 demandam outros tipos de formação
Agora, os problemas são outros. Embora ainda sejam sinônimo de qualidade, as universidades federais sofrem para preencher todas as vagas e se afastam da demanda dos jovens por uma trajetória de ensino mais dinâmica e adaptada ao mercado de trabalho. Dos 10 milhões de estudantes de nível superior, 4 milhões estão em cursos de Gestão e Administração e 3 milhões em Pedagogia, áreas que apresentam uma baixa correlação entre curso e profissão, com a vasta maioria dos formados desempenhando atividades não relacionadas à sua formação. “Essa característica da baixa correlação é comum em países que massificaram seus sistemas de ensino superior”, contextualizou Simon Schwartzman.
Outro problema são as altas taxas de evasão, com apenas 40% dos ingressantes dos cursos chegando a se formar. Para enfrentar esse problema, o Acadêmico acredita que a Reforma de Bolonha, realizada na Europa, pode ser um exemplo. “Uma criação fundamental de Bolonha foi uma saída certificada intermediária aos três anos de curso, o que não existe no Brasil. Aqui as pessoas abandonam o curso sem obter nenhum tipo de certificação. Estudantes mais voltados para o mercado de trabalho poderiam se enquadrar nessa certificação intermediária”, avaliou.
A pandemia da covid-19 impulsionou a educação à distância (EaD) e, pela primeira vez em 2005, o número de pessoas matriculadas em graduações EaD ultrapassou o número de alunos presenciais. Segundo a secretária de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), Marta Abramo, entre 2018 e 2024 o número de pólos de EaD espalhados pelo país subiu de 15 mil para 50 mil, a grande maioria sem a certificação de qualidade adequada. “Essa expansão desordenada criou artificialmente 24 milhões de vagas, sobre as quais não podemos atestar qualidade”, alertou. Para a secretária, a solução passa pela valorização de modelos semipresenciais. “Não se trata de desconsiderar o EaD, mas de consolidá-lo com qualidade. Precisamos diversificar o ensino superior e pensar em modelos híbridos inovadores”.