*Artigo do Acadêmico Adalberto Fazzio para O Globo, publicado em 28/05/2026
Há um pequeno conjunto de elementos químicos que decide, silenciosamente, o século XXI. São os lantanídeos e alguns vizinhos da tabela periódica — escândio, ítrio — que o mundo convencionou chamar de terras-raras. Eles estão no motor elétrico, no catalisador da refinaria, na fosforescência dos displays, no guiamento de mísseis, na turbina eólica, no laser de fibra óptica e nos sensores médicos. Sem eles, a transição energética não acontece, a indústria de semicondutores trava, e a defesa nacional se fragiliza. Hoje, a China refina 90% das terras-raras do planeta e domina a cadeia global dos ímãs de alta performance. O restante do mundo, inclusive os países mais ricos, está totalmente dependente.
O Brasil é um dos países mais privilegiados geologicamente nesse contexto, com uma das maiores reservas de terras-raras do mundo, num cinturão no interior (Araxá, Catalão, Tapira, Salitre), no centro do país e na cobiçada região conhecida como Cabeça do Cachorro, na Amazônia.
Em 2024, entrou em operação a mina de Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás, primeira produção comercial de terras-raras a partir de argilas de adsorção iônica fora da Ásia, com boas práticas ambientais, eletricidade renovável e previsão de 6.500 toneladas anuais até 2027. Mas o caso exige atenção. A mina não produz óxidos separados, metais ou ímãs. O que sai de Minaçu é um concentrado, sem a etapa decisiva: a separação dos elementos. Exportar concentrado é repetir o erro histórico cometido com ferro e bauxita.
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