Precisamos de uma “super-COP”, afirma Carlos Alfredo Joly

Carlos Alfredo joly durante a Reunião Magna de 2025 (foto: Marcos André Pinto)

O 22 de maio marcou o Dia Internacional da Biodiversidade, instituído pelas Nações Unidas para conscientizar sobre a importância da variedade de espécies e ecossistemas do planeta e os riscos que essas correm perante as pressões da atividade humana. Para marcar a data, o biólogo e membro titular da Academia Brasileira de Ciências Carlos Alfredo Joly, coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), escreveu um novo artigo para o portal Neomundo, do Estadão, sobre a importância de integrar as agendas das convenções ambientais.

No artigo “Da fragmentação à integração: por que o Brasil e o mundo precisam alinhar as agendas de biodiversidade, clima, desertificação e oceanos”, o autor defende que reconhecer a interdependência entre os ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos é um imperativo científico e uma necessidade econômica, social e política para enfrentar as crises da atualidade. Para aprofundar o assunto, Joly aceitou responder algumas perguntas da Comunicação da ABC sobre sua visão para um futuro mais integrado.

Carlos Joly acredita que as Nações Unidas caminham para a integração das Convenções sobre Mudança do Clima (UNFCCC), sobre Diversidade Biológica (CDB) e sobre Combate à Desertificação (UNCCD). “Entendo que quando essas três Convenções foram assinadas ainda não havia a maturidade científica e política para entender o quão integradas são essas crises. Hoje já sabemos que não adianta olhar para uma sem olhar para as outras, por isso, a ideia é justamente que essas três convenções trabalhem e produzam relatórios conjuntos”.

Apesar do cenário geopolítico adverso, o Acadêmico enxerga que existe impulso à integração nos debates entre os países. “Há um movimento internacional bastante forte entre os pontos focais das convenções, no nosso caso o Itamaraty junto a comunidade científica. Foi por isso que o Brasil liderou a luta pela inclusão da biodiversidade na COP 30. Já existem iniciativas conjuntas, por exemplo, entre as Plataformas Intergovernamentais sobre Biodiversidade e sobre Mudanças Climáticas (IPBES e IPCC), claro que existem dificuldades devido à conflagração política, mas isso não significa que não devemos continuar pressionando”, afirmou.

Perguntado se essa integração significaria, no futuro, termos uma “super-COP”, incluindo também os painéis sobre o combate à  desertificação e a proteção dos oceanos, Joly se mostrou otimista. “É a minha esperança que isso aconteça e é algo plausível. Já há toda uma movimentação para que as três sejam consideradas em conjunto, mas que ainda não engloba os oceanos. Seria fundamental incluí-los”.

Isso porque, conforme foi abordado a fundo durante a Reunião Magna ABC 2026, os oceanos são os maiores reguladores térmicos do planeta, chegando a absorver 90% do calor em excesso produzido pela atividade humana. Mas também estes ecossistemas estão no limite do que podem aguentar e efeitos severos, como o colapso da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC) e o branqueamento em massa de corais, já estão sendo observados. “Sem incluir os oceanos não chegaremos a nenhuma solução”, resumiu o Acadêmico.

Voltando ao cenário nacional, Joly manifestou desânimo com o noticiário ambiental brasileiro recente. “O problema é que, quando conseguimos avançar milímetros, vem o Congresso e recua quilômetros”, lamentou. “Tudo o que vem sendo aprovado vai no sentido de fragilizar a legislação ambiental. Não querem permitir o sensoriamento remoto para identificação de desmatamento ilegal, proibindo a multa com base em imagens de satélite. Querem tirar a vegetação nativa não arbórea, o cerrado incluído, da Lei de Proteção à Vegetação Nativa, e querem alterar o limite de Unidades de Conservação para atender interesses econômicos, como a construção da Ferrogrão. Há uma pequena parcela do agro que quer continuar tratando o meio ambiente como se estivéssemos no século 19. Infelizmente é uma parcela com força no Congresso”, complementou.

Para o Acadêmico, se o Brasil se recusar a regular a destruição do meio ambiente, o próprio mercado o fará, mas talvez seja tarde demais. “O que vai acabar acontecendo é o mercado se recusar a comprar produtos que não respeitem a conservação ambiental, ou que sigam uma legislação fraca que permite a destruição. A Europa já faz isso, e a partir de janeiro será ainda mais rigorosa com a entrada em vigor da Lei Antidesmatamento da União Europeia. A China cada vez mais se mostra preocupada com as metas climáticas e de biodiversidade, passando a ser mais exigente quanto a origem das commodities que importa. É algo que pode acabar se impondo, mas a questão é: podemos esperar?”, indagou.

No artigo, o Acadêmico elogiou o avanço nos mercados de crédito de carbono com foco em reflorestamento, mas afirma que o mesmo precisaria ocorrer para as atividades costeiras e oceânicas. “Se conseguirmos restaurar manguezais e quantificar o quanto isso influencia no balanço de carbono armazenado, poderíamos começar a trabalhar uma remuneração. Mas estamos de novo indo no sentido contrário, autorizando a exploração de petróleo na área com os maiores manguezais contínuos do planeta”, falou sobre os recentes desdobramentos na exploração da Foz do Amazonas.

Apesar de focar suas críticas no Legislativo, Joly não isenta o Executivo Federal. “Estou bastante decepcionado com esse governo, a expectativa é de que fosse um governo de vanguarda na questão ambiental. Mas o que acontece é que o presidente vai para o exterior, faz um discurso de hiper-vanguarda e quando volta ao Brasil faz o contrário. Prega o abandono dos combustíveis fósseis, mas pressiona pela aprovação da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Há uma posição nacional e outra internacional”. Perguntado sobre o Arco da Restauração, iniciativa ambiciosa de reflorestamento amazônico sinalizada no início do governo, Joly precisou de uma frase: “Nunca mais se falou disso”.

Leia o artigo completo de Carlos Joly para o portal Neomundo.

(Marcos Torres para ABC, 25/05/2026)