Mulheres pioneiras são homenageadas em sessão especial da Reunião Magna 2026

Para encerrar a Reunião Magna 2026, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) organizou uma sessão especial em homenagem a duas pioneiras da instituição: a física Marie Curie, cuja visita à ABC completa 100 anos; e a oceanógrafa Marta Vannucci, primeira membra titular da ABC, eleita em 1966.

Centenário da visita de Marie Curie à ABC

Para relembrar a histórica visita de Curie, foi convidado o físico e historiador da ciência Ildeu de Castro Moreira, co-autor do livro “Ciência no Brasil: 100 anos da ABC”. “A visita repercutiu muito na imprensa brasileira à época e Marie Curie esteve sempre rodeada por outras mulheres”, contou o Acadêmico.

O Acadêmico Ildeu Moreira apresentando palestra especial sobre centenário da visita de Marie Curie à ABC, quando recebeu o título de membro correspondente

A cientista francesa foi recebida pelo psiquiatra Juliano Moreira, segundo presidente da história da Academia e homem negro, numa época em que teorias racistas ainda circulavam no ecossistema científico. Em sua fala de recepção, bastante à frente de seu tempo, Juliano Moreira fez uma defesa da participação feminina e do impacto das mulheres na ciência.

“Minha grande satisfação justificada não apenas por receber hoje a cientista Madame Curie, cujos méritos dispensam elogios, mas também partidário convencido que sou do movimento igualitário das mulheres, estou verdadeiramente orgulhoso da recepção que os centros científicos brasileiros deram a esta insigne representante feminina do conhecimento humano”, afirmou o então presidente da ABC.

“A invariabilidade das constantes radioativas” | Conferência na Academia Brasileira de Ciências | Revista Electron, Anno 1, n. 16, set. 1926, 3-5

Como de costume com visitantes ilustres, Marie Curie proferiu uma palestra magna. Na ocasião, a plateia contou com alta presença feminina. “Um terço dos ouvintes eram mulheres. Além de familiares de Acadêmicos, estavam presentes representantes de um movimento pioneiro de mulheres cientistas”, afirmou Ildeu Moreira. Tratava-se da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, da qual já faziam parte Bertha Lutz, zoóloga e pioneira do feminismo brasileiro; Carlota Pereira de Queiroz, que viria a ser a primeira deputada federal brasileira em 1933; e Maria do Carmo Vaughan Bandeira, pesquisadora do Jardim Botânico e uma das mulheres que acompanharam Curie pelo Brasil.

Além do Rio de Janeiro, Marie Curie visitou também São Paulo e Minas Gerais. Durante sua estadia, a pesquisadora esteve à vontade, inclusive para falar com a imprensa, algo que raramente fazia na França. Outro marco da visita foi sua titulação como membra correspondente, se tornando oficialmente a primeira mulher a entregar a Academia. “Para vocês terem uma ideia, essa é uma honra que ela jamais recebeu da academia francesa”, destacou Moreira.

Homenagem a Marta Vannucci, pioneira da oceanografia brasileira

Ao fim da apresentação, foi convidado ao palco o coordenador da Reunião Magna 2026, Luiz Drude de Lacerda, que homenageou a oceanógrafa Marta Vannucci, primeira membra titular da ABC. “Trabalhei com a Marta de 1992 até o fim da vida dela”, contou Drude.

Nascida em Florença, Itália, em 1921, filha de um médico antifascista, Vannucci emigrou para o Brasil em 1930 fugindo da perseguição política. Aos 19 anos ingressou no curso de História Natural da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em 1943. Em 1951, com apenas 30 anos, foi fundamental para a criação do Instituto de Oceanografia da USP.

“Marta Vannucci: desbravadora de mares, mangues e culturas, misteriosa e fascinante como os oceanos que estudou”, segundo o apresentador.

“Ela fez coisas que nenhum homem fez. Não foi só a primeira oceanógrafa, ela criou o primeiro instituto de oceanografia do Brasil, do qual foi diretora. Foi a principal responsável pelo primeiro navio oceanográfico brasileiro, não só intermediando a compra, mas acompanhando todo o desenvolvimento. Isso nenhum outro oceanógrafo brasileiro fez”, destacou Luiz Drude.

Seus estudos eram voltados ao plâncton e fitoplâncton, participando, por exemplo, das primeiras expedições à Ilha de Trindade, território brasileiro mais distante do continente. “Numa época em que não haviam navios civis de oceanografia, você dependia do bom-humor dos almirantes. Por isso, Vannucci foi a primeira a propor um navio civil, um marco na oceanografia”, adicionou Drude.

O Acadêmico Luiz Drude de Lacerda, coordenador da Reunião Magna da ABC 2026 e colega de Vannucci até o fim da vida dela

Na década de 1970, Vannucci deixou o Brasil e passou a atuar na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), onde passou a se dedicar a manguezais. “Quando comecei a trabalhar com ela, na década de 90, já era conhecida no mundo todo e estabeleceu uma rede global de pesquisadores em manguezais. Ela transformou os manguezais no seu próximo desafio, da mesma forma como havia feito com a oceanografia”, explicou Drude.

“Marta Vannucci era uma pessoa extremamente complexa e importante. Foi muito significativo quando a USP deu seu nome ao principal prêmio de oceanografia da universidade”, finalizou o Acadêmico.

(Marcos Torres para ABC, 19/05/2025 | Fotos: Mário Marques)