Blue One Health: saúde humana e oceano são inseparáveis

A relação profunda entre saúde humana, equilíbrio ambiental e preservação dos oceanos esteve no centro da Sessão Especial realizada em 6 de maio, durante a Reunião Magna 2026 da Academia Brasileira de Ciências (ABC).  O convidado foi o médico psiquiatra Paulo Gadelha, pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição que presidiu entre 2009 e 2016 e na qual atualmente coordena a Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030.

Ao longo da palestra “Blue One Health: uma abordagem holística sobre saúde e oceano”, Gadelha argumentou que os desafios ambientais e climáticos transformaram definitivamente a saúde em um tema planetário. “Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável [ODS] são expressões de determinantes que afetam a qualidade de vida e a saúde, cada vez mais conectadas com a questão climática”, afirmou.

Saúde, clima e oceano: uma mesma agenda

Com trajetória marcada pela atuação em saúde pública, Paulo Gadelha destacou que a Organização Mundial da Saúde considera o aquecimento global a maior ameaça à saúde humana contemporânea. Nesse contexto, segundo ele, o oceano ocupa posição estratégica na agenda internacional. “A degradação oceânica tem impactos fisiológicos e socioambientais diretos, como segurança alimentar, toxicologia, florações de algas, eventos extremos e saúde mental. Tudo isso impacta a saúde humana”, observou.

Gadelha lembrou que o conceito tradicional de saúde foi sendo ampliado nas últimas décadas até incorporar a interdependência entre saúde humana, saúde animal e equilíbrio ecossistêmico. Esse movimento originou o conceito de One Health — ou saúde única — inicialmente desenvolvido no campo da medicina veterinária e posteriormente adotado por diferentes áreas do conhecimento.

Diversos organismos internacionais e instituições da União Europeia passaram a utilizar esse conceito, que também foi incorporado pelo Brasil em iniciativas conduzidas pelo Ministério da Saúde e por comissões interministeriais. “É um referencial que permite fazer encontros de atuações que antes eram fragmentadas”, explicou o pesquisador. Foi dessa convergência que surgiu o conceito de Blue One Health, criado para enfatizar especificamente a interdependência entre saúde e oceanos.

O oceano como fronteira da inovação biomédica

Um dos pontos centrais da palestra foi o potencial da chamada “biotecnologia azul”, campo emergente que explora recursos biológicos marinhos para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores. “A biotecnologia marinha envolve pesquisa em biologia marinha, bioprospecção e desenvolvimento de produtos que podem ter aplicações em saúde, veterinária, meio ambiente, agricultura e biorremediação”, explicou.

O pesquisador apresentou exemplos já consolidados no mercado farmacêutico, como a Ziconotida (Prialt®), analgésico derivado do veneno do caracol-cone (Conus magus) considerado mais potente que a morfina, e a Citarabina (Ara-C), quimioterápico originalmente descoberto em uma esponja caribenha (Tethya crypta).

Para Gadelha, o potencial econômico e terapêutico desse campo ainda está longe de ser plenamente explorado. “Menos de 5% do ambiente marinho foi explorado até hoje. O oceano permanece como a última grande fronteira da inovação científica e farmacêutica”, destacou.

Fiocruz na Antártica

Durante a apresentação, Gadelha também destacou o projeto estratégico FioAntar, desenvolvido no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pelo CNPq e pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm).

A iniciativa mantém, na Estação Comandante Ferraz, na Antártica, um laboratório NB2 operado pela Fiocruz para pesquisas em vigilância patogênica e bioprospecção polar. “Monitoramos os impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas virais, bacterianos e parasitários locais, além de realizar bioprospecção de moléculas e enzimas altamente adaptadas ao frio extremo”, explicou.

Justiça ambiental e ciência cidadã

Outro eixo importante da palestra foi a defesa da justiça ambiental como princípio orientador das políticas de adaptação climática. Segundo Gadelha, populações social e ambientalmente vulneráveis são as primeiras a sofrer os impactos da degradação oceânica e das mudanças climáticas. “A erosão costeira e os eventos extremos não afetam a todos da mesma forma; a resposta precisa ser pautada pela equidade”, ressaltou.

Como exemplo prático, apresentou a Rede Marangatu, plataforma coordenada pela Fiocruz que articula conhecimentos científicos e saberes tradicionais em ações de governança territorial costeira e marinha. A iniciativa reúne mais de 200 comunidades tradicionais, incluindo povos indígenas, quilombolas e caiçaras. “É uma rede de ciência cidadã para governança territorial”, resumiu.

Uma agenda possível para esta década

Ao concluir sua apresentação, Paulo Gadelha afirmou que a convergência entre avanços tecnológicos, compromissos internacionais e novos instrumentos de financiamento torna viável a implementação concreta da agenda Blue One Health nos próximos anos.

Segundo ele, ferramentas como sensores avançados, inteligência artificial e mapeamento de alta resolução se combinam hoje com marcos regulatórios, compromissos multilaterais e mecanismos de financiamento azul. “Blue One Health não é mais apenas uma visão. É uma agenda realizável para 2026-2030”, concluiu o especialista.

Uma trajetória ligada à saúde pública brasileira

Além de sua atuação na Fiocruz, Paulo Gadelha teve participação importante na consolidação de instituições voltadas à saúde pública no Brasil. Em 1985, participou da elaboração do projeto que deu origem à Casa de Oswaldo Cruz (COC), unidade técnico-científica da Fiocruz dedicada à preservação da memória institucional e à pesquisa sobre a história da saúde pública e das ciências biomédicas no país. Gadelha dirigiu a instituição entre 1987 e 1997.

Ao longo de sua carreira, recebeu distinções como o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de York (Reino Unido), a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, da Presidência da República, e a Ordem de Rio Branco, concedida pelo Ministério das Relações Exteriores.

(Elisa Oswaldo-Cruz apra ABC | Fotos: Mário Marques)