O vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Luis Val, e o ex-afiliado (2020-2024) Fernando de Almeida-Val, publicaram um novo artigo no volume 197(1) dos Anais da Academia Nacional de Medicina. Intitulado “Mudanças Ambientais e Segurança Alimentar na Amazônia: Evidências A Partir dos Ecossistemas Aquáticos”, trata-se de uma revisão narrativa das evidências sobre como as mudanças ambientais, sobretudo a mudança climática e a poluição dos rios, estão afetando os peixes amazônicos, base da alimentação de mais de 30 milhões de brasileiros.
Os autores afirmam que, em algumas comunidades amazônicas, o consumo de peixe ultrapassa 160 kg per capita por ano, uma das maiores taxas do mundo. Além de ser a principal fonte de proteína animal, os peixes também fornecem micronutrientes essenciais, como ferro, zinco, manganês e ácidos graxos ômega-3. Mas o aquecimento do planeta vem modificando os ciclos hidrológicos, elevando a temperatura das águas, alterando o padrão de inundação e de secas e cheias extremas. Essas mudanças afetam diretamente o crescimento e reprodução dos peixes, reduzindo estoques pesqueiros.
Muitas das espécies amazônicas já vivem próximas do seu limite de tolerância térmica, estando muito perto de um ponto de não-retorno. Além disso, o aumento de temperatura reduz o nível de oxigênio na água. Estudos já mostram que a reprodução do tambaqui, um dos peixes mais visados para alimentação, está sendo afetada, com menos peixes nascendo a cada geração.
Outro problema é a poluição, sobretudo pelo mercúrio oriundo do garimpo. Quando liberado nas águas esses minerais se acumulam na cadeia trófica, ou seja, peixes carnívoros maiores, de topo da cadeia, estão entre os mais contaminados, e são justamente essas espécies as mais tradicionais na alimentação da região. A exposição ao mercúrio aumenta o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e neurológicos e, sobretudo em crianças, é extremamente prejudicial ao desenvolvimento e crescimento. Como de costume nas questões ambientais, populações que poluem menos, como os indígenas e ribeirinhos, estão na linha de frente da contaminação.
Diante desse cenário, os autores defendem estratégias integradas de enfrentamento. Entre as principais propostas estão o fortalecimento do monitoramento ambiental e alimentar, o uso de tecnologias de sensoriamento remoto para detectar atividades ilegais, a ampliação da vigilância de contaminantes em peixes e populações humanas e a integração entre ciência, políticas públicas e conhecimentos tradicionais.