Resumo:
- Novas tecnologias para monitoramento oceânico estão cada vez mais imediatas e acessíveis, e a ciência está por trás de todas elas.
- A foz do Amazonas e o Atlântico são profundamente interligados, problemas como vazamentos de petróleo e subida no nível do mar podem adentrar por quase mil quilômetros no continente.
- A perda dos recifes de corais é o ponto de não-retorno mais próximo das mudanças climáticas. Esses ecossistemas respondem por 25% da biodiversidade oceânica mesmo cobrindo apenas 1% de sua área.
- Os oceanos devem ser peça chave na diplomacia científica nacional e constituir um verdadeiro soft power geopolítico brasileiro.
Fundamental para a oceanografia, o monitoramento dos mares deu um salto tecnológico nas últimas décadas. Enquanto ao fim do século 20 navegadores e cientistas dependiam primariamente das imagens de satélite para acompanhar os oceanos, hoje em dia, com a criação de sensores cada vez mais modernos e a possibilidade de integrar ferramentas de forma acessível, a gama de possibilidades de análise aumentou muito. Pensando nisso, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) convidou o engenheiro Pierre Bahurel, CEO da Mercator Ocean International, que mantém o sistema Copernicus, da União Europeia.
Além da EU, o rol de clientes da instituição inclui gigantes do comércio marinho, organizações públicas e guardas costeiras nacionais ao redor do mundo. Entre as informações fornecidas estão temperatura da água; salinidade; gelo marinho; nível do mar; migração de espécies; níveis de oxigênio; correntes marinhas e até a radiação liberada pelo acidente nuclear de Fukushima.
Segundo Bahurel, o setor de monitoramento oceânico está passando por uma revolução técnica que deve facilitar muito o trabalho de quem precisa dos dados em tempo real. A profusão de técnicas para além dos satélites, somada a busca de diferentes nações por terem um sistema próprio, gerou uma explosão de dados com qualidade e redundância, que podem ser compilados em ferramentas de visualização cada vez mais modernas.
“Essa é a primeira vez que uma academia de ciências me convida para apresentar nosso trabalho. Gostaria de convidá-los, representantes de cada área do conhecimento, a contribuir. Não há nada mais do que a ciência que vocês fazem nesses modelos”, afirmou.

A foz do Amazonas sob risco
Oceanógrafo e professor da Universidade Federal do Pará, Nils Asp Neto trouxe o foco para a foz do Amazonas e sua relação com os oceanos e as mudanças climáticas. O rio Amazonas é um fenômeno da natureza sem paralelo no mundo, descarregando uma quantidade de água no mar maior do que os outros sete maiores rios somados. “Essa descarga de água forma uma pluma oceânica – uma área de baixa salinidade no Atlântico – com 1,3 milhões de quilômetros quadrados, maior do que França e Alemanha juntas.
Apesar de não ser um rio com concentração particularmente alta de sedimentos, a imensidão de água descarregada faz com que o Amazonas seja responsável pelo depósito de 10 toneladas por segundo de sedimentos nos oceanos, incluindo 85 quilos de carbono orgânico, fundamental para a manutenção da biota. Essa descarga sustenta os recifes de corais da foz do Amazonas, recém-descobertos e ainda pouco estudados, mas já sob risco pelas mudanças climáticas.
Outra característica fundamental é a baixa altitude da bacia amazônica, causadora de efeitos de maré que se alastram pelo interior do continente, chegando até Óbidos, a mais de 800 quilômetros da foz. Isso torna toda essa região, nas palavras de Nils, “um paraíso de manguezais” e também particularmente vulnerável a desastres relacionados ao petróleo. “Um eventual vazamento afetaria toda essa região e formaria uma mancha do tamanho da Suécia”.
Essa capacidade do mar de avançar por sobre o rio também preocupa os pesquisadores devido ao aumento do nível do mar projetado para as próximas décadas. “Já existem municípios no Amapá registrando a salinização dos lençóis freáticos, e isso tende a piorar”, alertou.

Recifes de corais: o “canário na mina de carvão” das mudanças climáticas
De todas as pressões e pontos de não-retorno que a ciência reconhece por conta das mudanças climáticas, nenhum está mais perto do que a perda dos recifes de corais. Esses organismos são mais do que meras espécies individuais, mas responsáveis pela manutenção de verdadeiros santuários da vida marinha, fornecendo alimento e abrigo para ecossistemas complexos desde peixes carnívoros ao fitoplâncton. Estima-se que apenas 1% do fundo marinho seja coberto por recifes, mas estes abrigam 25% da biodiversidade dos oceanos.
Mas esses tesouros ecológicos caminham para desaparecer, conforme alertou o oceanógrafo sueco Björn Kjerfve, professor das Universidades da Carolina do Sul (EUA) e Federal Fluminense (UFF). “Recifes são extremamente sensíveis ao clima, precisando de águas rasas entre 23 a 29°C de temperatura, salinidade e pH estável, e incidência de luz solar. A produção primária nos recifes se deve a simbiose entre os pólipos – estágio imóvel do ciclo de vida das águas-vivas – e as zooxantelas, unicelulares capazes de fazer fotossíntese. Com a alta nas temperaturas, as zooxantelas são perdidas e ocorre o branqueamento”, explicou.
Segundo Kjerfve, o primeiro branqueamento que se tem registro ocorreu em 1998 e desde então outros cinco eventos já ocorreram. “Estão se tornando cada vez mais comuns. Os acordos internacionais não tem surtido efeito para os corais. Limitar o aumento em 2°C já parece impossível, e isso significa extinção”, lamentou. “Os recifes são o canário na mina de carvão, quando eles morrem é porque alguma coisa está indo muito mal”, resumiu o palestrante.

Diplomacia científica oceânica é soft power
Representando o recém criado Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), o pesquisador Andrei Polejack defendeu que a diplomacia científica para os oceanos pode ser um verdadeiro soft power para a geopolítica brasileira. “Isso porque a ciência está em todos os pontos das negociações oceânicas, desde fronteiras nacionais até a biodiversidade. Em outras palavras, se der errado a culpa é nossa”, brincou.
A primeira pergunta que qualquer diplomata deve se fazer num acordo sobre os mares é “meu pesquisador participou desse estudo?”. Isso porque em poucas áreas o interesse nacional e o diagnóstico científico caminham tão conjuntamente. Essa é também a razão pela qual cientistas oceânicos, mais do que nunca, precisam estar afiados em seus princípios éticos. “Já há casos de cientistas que perderam suas carreiras por forjar dados por interesses de Estados”, alertou.
Outro problema é a baixa inserção da ciência de países de desenvolvimentos nas discussões, considerando que esses países estão entre os mais afetados por quaisquer decisões tomadas com relações aos oceanos. “Produzimos muito, mas somos pouco citados, inclusive por nós mesmos”, lamentou Polejack.
É por isso que o pesquisador defende o papel crucial do Inpo nessa defesa da soberania científica nos mares. Citando o recente Acordo sobre Biodiversidade para Além das Fronteiras Nacionais (Tratado BBNJ), o oceanógrafo lembrou que sua instituição vem realizando debates em série sobre o tema. “Esse acordo é uma confusão, porque ele trata de todos os temas possíveis referentes ao Alto-Mar e ainda demanda que cientistas municiem seus diplomatas com soluções para todos eles. Teremos muito trabalho pela frente”, resumiu.
Em 2027, o Brasil sediará a conferência de avaliação da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável da ONU no Rio de Janeiro. “Essa será uma excelente oportunidade de colocarmos nossa visão. O Inpo estará presente”, finalizou.

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