O apresentador e entrevistador Marcelo Lins, da GloboNews Internacional, recebeu em seus estúdios a oceanógrafa brasileira Letícia Reis de Carvalho, eleita em 2025 como secretária-geral da Autoridade Internacional do Fundo Marinho (ISA, sigla em inglês), organização autônoma estabelecida pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982 (UNCLOS) e pelo acordo relativo à Implementação da Parte XI da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Acordo de 1994). Seu foco é mediar a atuação dos países com relação aos recursos minerais marinhos.
Letícia Carvalho esteve no Rio de Janeiro para participar da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências, ocasião em que foi convidada para o programa. A matéria foi ao ar em 10 de maio. Carvalho é formada em oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e mestre em desenvolvimento sustentável pela Universidade de Brasília (UnB). Tem mais 20 anos de experiência na regulação ambiental brasileira, atuando desde 2001 como assessora técnica do Ministério de Meio Ambiente. Em 2019, passou a atuar internacionalmente como assessora especial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), onde negociou e mediou diversos acordos internacionais.
Diante da primeira pergunta do jornalista sobre ser a primeira mulher a ocupar aquele cargo de destaque, Leticia Carvalho disse acreditar que estamos vivendo um momento de mudança de paradigma e que sua competência técnica contribui para abrir portas para outras mulheres em ambientes ainda bastante resistentes à liderança feminina.
O entrevistador abordou a questão do Estreito de Ormuz, que está em evidência por conta do trânsito de cerca de 20 % do petróleo e do gás consumidos no mundo, além de outras mercadorias, impedido pelo Irã em retaliação aos ataques norte-americanos e aliados. Mas além do comércio, a região também possui milhares de quilômetros de cabos submarinos de internet absolutamente fundamentais para a conexão global. “Os cabos estão assentados lá no fundo do mar e passam por áreas que estão além da jurisdição dos países, são de responsabilidade da ISA. O fluxo de informações em águas internacionais torna essas áreas muito cobiçadas, inclusive como novas fronteiras da mineração”, explicou Carvalho.

Perguntada sobre a ocorrência de choques de interesses entre as nações, a oceanógrafa explicou que os cabos submarinos estão sob as regras da liberdade do alto mar, ou seja, eles não contam com uma entidade reguladora. “É tudo uma estratégia de divisão de benefícios”, explicou, esclarecendo que para mineração, por exemplo, a regra é outra: é uma atividade que requer autorização prévia. Eventualmente, as atividades de cabeamento e de mineração podem disputar concretamente o mesmo espaço. Leticia afirmou que a ISA trabalha muito próxima ao Comitê Internacional dos Cabos Submarinos, buscando reduzir, minimizar, prevenir ou antecipar a possibilidade de conflitos entre as duas atividades.
O apresentador ressaltou então o interesse dos Estados Unidos em ampliar a sua fronteira de exploração mineral e perguntou como ela enfrenta isso. Leticia Carvalho afirmou que esse é o desafio da sua vida no momento. Relatou que tem recebido apoio unânime. “Não eu, a minha pessoa ou a minha liderança, mas a Autoridade Internacional em si. Todos os votantes – 171 países e a União Europeia – reiteraram sistematicamente, de forma unânime, em todas as ocasiões em que esse tema foi discutido em diferentes fóruns, inclusive na Assembleia Geral da ONU, o apoio ao multilateralismo e à Autoridade Internacional, assim como ao seu mandato exclusivo nessa área”, declarou Leticia Carvalho.
Ela esclareceu que essa unanimidade é de conhecimento amplo, inclusive dos Estados Unidos, que desafia essa visão no momento. No entanto, anteriormente os EUA faziam parte da Autoridade Internacional, colaboraram durante 30 anos com a construção das regras e do regime, tendo inclusive assinado a Convenção dos Direitos do Mar. Porém, não chegaram a ratificá-la. “Agora estamos em tempos de dinâmicas geopolíticas novas. Precisamos de um multilateralismo ágil e essa é a grande fragilidade, porque o consenso é sempre um elemento costurado, demorado. Mas está sobre a mesa, requerendo decisões rápidas.”
Assista a entrevista na íntegra na Globoplay, só para assinantes