Oceano é perspectiva de energia renovável para o país

A necessidade humana de geração de energia renovável colocou os recursos do mar profundo em foco entre todas as nações. O oceano pode ser usado de muitas formas para esse fim. Mas será que é esse o caminho, ou ao contrário, pensarmos em como consumir menos energia?

O segundo dia da Reunião Magna da ABC 2026: Oceano do Amanhã, 6 de maio, teve como tema geral “O uso e o mau uso do oceano no Antropoceno”. A tarde começou com a Conferência Magna do pesquisador Luigi Jovane, professor associado do Departamento de Oceanografia Física, Química e Geológica do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). Ele é especialista em propriedades magnéticas com aplicações no estudo das variações climáticas e eventos globais, integrando o grupo de experts (PoE, sigla em inglês) das Nações Unidas.

O geoquímico Luigi Jovane em Conferência Magna da Reunião Magna da ABC: Oceano do Amanhã

Jovane abordou os recursos do mar profundo, diretamente relacionados à economia azul. Esta foca no uso sustentável dos recursos oceânicos e costeiros para o crescimento econômico, gerando empregos e melhorando meios de subsistência, ao mesmo tempo que preserva a saúde dos ecossistemas.

Mas a informação sobre o mar profundo é rara. O especialista apresentou números: no início de 2026, menos de 30% do mar global havia sido mapeado, usando tecnologias de sonar de alta resolução instalada em navios. Mais de 95% dos mergulhos de exploração de águas profundas ocorrem a menos de 200 milhas dos litorais, deixando os vastos mares em grande parte inexplorados. Atualmente, 99,99% do oceano profundo permanece visualmente desconhecido. “Conhecemos mais a superfície da Lua do que o fundo do mar”, ressaltou Jovane, explicando que é muito mais caro desenvolver veículos para explorar o fundo do mar do que para explorar o Universo.

O maior desafio, no entanto, é científico. “Quais são os processos geobiológicos e suas interações? Desconhecidos. O risco é muito alto. Pressão altíssima, temperatura baixíssima. É muito perigoso, sendo que os impactos no fundo do mar são globais, não são localizados, e são cumulativos”, esclareceu Jovane.

Além disso, o cientista relatou que a percepção da sociedade sobre a exploração do mar profundo é negativa, assim como existe confusão legislativa ambiental e internacional. Embora haja perspectiva de se encontrar muitas riquezas, a possível exploração desses recursos é ainda muito difícil e controversa. Ele apresentou diversas propostas de furação do fundo do oceano com objetivos estratégicos e estratigráficos, mas que não foram autorizadas pela Marinha.

O fundo do mar está emergindo como uma fronteira estratégica para múltiplos setores – recursos minerais, energias renováveis, biotecnologia e gestão de carbono – em um momento em que os recursos continentais aumentam custos, riscos e impactos. No entanto, mais do que qualquer outro ambiente, caracteriza-se por uma baixa resiliência a qualquer impacto, visto que os processos físicos, biogeoquímicos e ecológicos são extremamente lentos e, muitas vezes, irreversíveis em escala humana.

“Sob quais condições o fundo do mar pode ser estudado, avaliado e utilizado de maeniras cientificamente rigorosas, ambientalmente responsáveis e socialmente aceitáveis? A resposta não é simples nem imediata”, apontou Jovane. Assim, ele destacou a necessidade de um acordo entre instituições, governo, fundações, academia e indústria para fazer crescer a economia azul no país de forma sustentável, em equilíbrio com os oceanos.

IV Sessão Plenária: Enenrgia Azul e Prosperidade

A seguir, a quarta Sessão Plenária, coordenada pela diretora de Infraestrutura e Operações do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) Janice Trotte-Duhá, teve como participantes Segen Estefen e Cristiana Simão Seixas.

A oceanógrafa Janice Trotte-Duhá coordenando a quarta Sessão Plenária da Reunião Magna da ABC: Oceano do Amanhã

Ela registrou a ausência do coordenador da rede de Biotecnologia Marinha, o Acadêmico Carlos Ricardo Soccol. Ele falaria sobre as potencialidades do oceano como última fronteira de recursos naturais para vida humana. Janice deixou clara a ilusão de fragmentação: “Não existem oceanos, no plural, existe apenas um sistema contínuo, um só oceano”. Este oceano, segundo ela, é o motor da descarbonização global.

“A energia azul não é uma alternativa periférica. É um sistema integrado de tecnologia, economia e respeito ambiental capaz de substituir fontes fósseis em escala monumental”, afirmou a cientista. Janice ressaltou que ao abraçar o oceano como a fronteira definitiva das fontes renováveis e sustentáveis, “redefinimos o futuro da energia e aliviamos as pressões sobre o nosso planeta.”

A contribuição do oceano para a transição energética

 Diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e coordenador do Grupo de Energia Renovável no Oceano (GERO/Coppe/UFRJ), o Acadêmico Segen Estefen falou sobre a contribuição do oceano para a transição e segurança energética. Ele destacou que em torno de 50% da matriz energética brasileira já é de fontes renováveis.

No espaço oceânico, hoje se desenvolve pesquisa em energia eólica offshore e em energia solar flutuante. Considerando as fontes oriundas da água do mar, podem ser usadas as ondas, as correntes oceânicas, a amplitude de maré, o gradiente térmico, a corrente de maré e o gradiente de salinidade. Estefen foi responsável pela construção em 1998, na Coppe, do então maior tanque experimental do planeta. “Em 2002 fomos superados pela China, mas ainda temos o segundo maior tanque hoje.”

O cientista destacou que as recentes mudanças geopolíticas no planeta demonstraram que a energia é uma questão que requer muito cuidado e estratégia de longo prazo. Estefen considera que para o Brasil, as fontes de energia oceânicas podem proporcionar autonomia em médio prazo.

O engenheiro Segen Estefen em Sessão Plenária da Reunião Magna da ABC: Oceano do Amanhã

Ele lembrou o apagão de energia que ocorreu em 2001 no país devido à seca e à falta de previsão de alternativas para lidar com situações críticas como aquela. Foi iniciado então, na Coppe, o grupo de Energias Renováveis do Oceano. Segen Estefen relatou que o grupo da Coppe entendeu que essas energias renováveis poderiam se beneficiar de várias técnicas e dos laboratórios da Coppe que trabalhavam com óleo e gás, que poderiam fazer uma transição tecnológica para a área das tecnologias renováveis.

O INPO está coordenando o desenvolvimento de um Centro de Energia Azul, com participação da Coppe/UFRJ, Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Fundação Getúlio Vargas (FGV), financiado pela Finep. As pesquisas do Centro envolvem, entre outras, a energia eólica offshore, a energia oriunda de ondas, do gradiente térmico – utilizando a diferença de 20º existente entre a superfície do oceano e o fundo em alguns pontos da costa -, e das correntes de maré, utilizando inclusive equipamentos já existentes em laboratórios da rede.

O grupo pretende construir equipamento de alta resolução, com muitos sensores, para conseguir visualizar todo o fundo do mar brasileiro e avaliar os recursos do mar profundo. Para tanto, porém, é preciso fazer estudos de impacto ambiental muito amplos e bem elaborados.

No final de abril último, o MCTI aderiu à Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês) e à OES [sigla em inglês para Sistemas de Energia Oceânica]. “O Brasil já participava como observador, mas agora integra o Comitê Executivo da agência por meio do INPO, que for designado pelo governo brasileiro como seu representante”, ressaltou Estefen.

Para o Centro de Energia Azul pode ser benéfico, por conta de uma possível aceleração do processo entre concepção e protótipos de equipamentos, e ele poderia disponibilizar bancadas de testes para utilização pela comunidade nacional e empresas, assim como criar as condições adequadas para induzir investimentos visando a comercialização.

“De modo geral, o tema das fontes renováveis no oceano pode conseguir maior inserção nas discussões sobre políticas públicas para transição e segurança energética, em função do aquecimento global e das mudanças na geopolítica, assim como oportunidades no âmbito da Nova Indústria Brasil com estaleiros especializados”, destacou o Acadêmico.

Transformando paradigmas

A última palestra da Sessão Plenária foi de Cristiana Simão Seixas, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade Estadual de Campinas (Nepam/Unicamp). Ela abordou a prosperidade vinda do oceano, envolvendo biodiversidade, serviços ecossistêmicos e bem-estar humano.

Bióloga, mestre em ecologia pela Unicamp e doutora em gerenciamento ambiental e de recursos naturais pela Universidade de Manitoba, no Canadá, Seixas colabora com a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, sigla em inglês), sob o auspicio de quatro entidades das Nações Unidas (Pnuma, PNUD, Unesco e FAO). Em nível nacional, ela contribui com a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES).

A doutora em gerenciamento ambiental e de recursos naturais Cristiana Simão Seixas na quarta Sessão Plenária da Reunião Magna da ABC

Suas pesquisas focam na conservação ambiental integrada ao desenvolvimento local, através do manejo de recursos de uso comum, gestão compartilhada, administração sustentável dos ecossistemas e governança ambiental; ecologia humana, conhecimento ecológico local e tradicional, e resiliência de sistemas socioecológicos.

Nesse âmbito, ela começou analisando o conceito de “prosperidade”, que etimologicamente significa “obter aquilo que se deseja”. “Não é necessariamente riqueza material. É sobre oportunidades e liberdade para florescer e alcançar bem-estar humano”, afirmou a cientista.

Os serviços ecossistêmicos, ela destacou, podem ser materiais, como pescados e biofármacos; de regulação, como regulação climática e proteção da costa; e imateriais, como lazer, espiritualidade, inspiração e cultura.

A biodiversidade e os serviços ecossistêmicos (BSE) são um sistema de suporte para boa qualidade de vida humana e das economias mundiais e esse suporte é oferecido pelo oceano e pela zona costeira. “O bem-estar humano depende diretamente da BSE, tanto em segurança alimentar como em segurança hídrica, saúde, energia e continuidade dos modos de vida”, apontou Seixas. “Mas a maior parte das pessoas nem percebe isso.”

Infelizmente, vivemos na época da tripla crise ambiental: a perda de biodiversidade, as mudanças climáticas e a poluição. “A população não entende ou não dá importância ao impacto de suas ações e escolhas sobre o oceano e a maioria dos tomadores de decisão, sejam na política ou no setor privado, não reconhecem o valor de conservar o oceano hoje para sustentar economias no longo prazo e o bem-estar das futuras gerações”, alertou.

A seu ver, a nova fronteira para a exploração de recursos, o oceano, é um caso emblemático da tripla crise ambiental. “A zona costeira e marinha já é explorada por meio da pesca e aquicultura, da mineração oceânica e da dessanilização. Serve também aos setores de transporte, defesa e desenvolvimento portuário, assim como a diversos outros setores. Essa exploração levou ao crescimento econômico, à degradação ambiental e a injustiças sociais na maioria das áreas costeiras”, apontou Seixas.

Se o ser humano conseguiu provocar mudanças climáticas tão graves com seu desprezo pelo verde do planeta, por que o crescimento azul seria diferente? A pergunta desconfortável já veio respondida em parte por Seixas, que listou potenciais injustiças sociais decorrentes do “crescimento azul”, como a distribuição desigual de benefícios econômicos, a injustiça ambiental relacionada à poluição e resíduos, a marginalização das mulheres, as violações dos direitos humanos e indígenas e a exclusão da governança.

Para frear esse desenvolvimento evidentemente insustentável e, ao mesmo tempo, promover a prosperidade, Seixas afirmou que é fundamental superar os mitos do crescimento ilimitado e do consumismo. “Nenhum deles reduziu a pobreza ou trouxe felicidade às pessoas em geral. A desigualdade e a pobreza aumentaram mais do que nunca, e enfrentamos uma pandemia de problemas de saúde mental”, destacou.

Ela acredita que ainda é possível uma mudança transformadora e as estratégias para isso incluem a transformação dos paradigmas econômicos e financeiros dominantes, de modo que priorizem a natureza e a equidade social em detrimento de interesses privados.

Para impulsionar a agenda de transformação em todos os níveis, Seixas sugere que se aprenda com o conhecimento e as práticas dos povos indígenas e tradicionais, que valorizam o respeito à natureza, o uso dos recursos de forma sustentável, a cooperação na gestão dos ecossistemas e a adaptação à dinâmica deles, em vez da tentativa de controlá-los.

“E é preciso, também, ampliar nossa ciência”, afirmou Cristiana Seixas. Em sua visão, a maneira como a ciência vem sendo feita não tem sido suficiente para embasar tomadas de decisão a fim de enfrentar as crises ambientais, conservar o oceano e gerar prosperidade. “Sem perder o rigor que nos define, precisamos transformar nossas práticas, visões e valores”, disse.

Ela exortou os cientistas a saírem da zona de conforto, expandir os paradigmas em que operam e abraçar a complexidade dos sistemas socioecológicos em que estamos todos inseridos. “Precisamos promover mais colaboração e menos competição, assim como focar mais nos processos de construção e divulgação do conhecimento e não apenas nos produtos científicos”, concluiu.

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Fotos: Mário Marques)