Qual o estado do oceano depois de impactado pelo homem?      

Na Conferência Magna realizada na tarde de 5 de maio, durante a Reunião Magna 2026 da Academia Brasileira de Ciências, o geoquímico Lars-Eric Heimbürger-Boavida, do Instituto Mediterrâneo de Oceanografia da Universidade Aix-Marseille (AMU), da França, apresentou um panorama abrangente sobre o ciclo biogeoquímico do mercúrio nos oceanos e os impactos crescentes desse contaminante sobre os ecossistemas marinhos, o clima e a saúde humana.

Em sua exposição, o pesquisador detalhou os mecanismos pelos quais o mercúrio é transportado até os mares, incorporado aos organismos vivos e amplificado ao longo da cadeia trófica, chegando, finalmente, à alimentação humana.

O geoquímico Lars-Eric Heimbürger-Boavida em Conferência Magna da Reunião Magna da ABC: Oceano do Amanhã

Segundo o cientista, um dos principais fatores de preocupação atualmente é o efeito das mudanças climáticas sobre a dinâmica desse poluente. O aumento da temperatura dos oceanos favorece a transformação do mercúrio em metilmercúrio, sua forma mais tóxica e biologicamente disponível. Esse composto apresenta elevada capacidade de bioacumulação e biomagnificação, concentrando-se progressivamente nos organismos marinhos à medida que sobe na cadeia alimentar. Dessa forma, espécies predadoras de grande porte acabam acumulando quantidades muito superiores às encontradas na água do mar.

Lars-Eric explicou que suas pesquisas têm forte foco nas regiões árticas, escolhidas por razões científicas e ambientais específicas. Segundo ele, o estudo em bacias oceânicas relativamente isoladas facilita a compreensão dos processos geoquímicos, já que é possível delimitar melhor as entradas, saídas e transformações do contaminante no ambiente. Além disso, a dieta das populações tradicionais do Ártico é fortemente baseada em pescados e em carne de urso polar — animal situado no topo da cadeia alimentar e que se alimenta exclusivamente de peixes e mamíferos marinhos. Essa condição favorece a identificação da presença e da concentração do contaminante nos organismos vivos.

O pesquisador ressaltou que aproximadamente 90% do mercúrio emitido pelas atividades humanas já está disperso nas águas profundas dos oceanos. Apesar dessa diluição, os riscos permanecem elevados, uma vez que o metal continua circulando pelos ecossistemas marinhos e entrando na cadeia alimentar. Os efeitos mais preocupantes recaem sobre mulheres grávidas e crianças pequenas, especialmente menores de sete anos, devido à alta sensibilidade do sistema nervoso em desenvolvimento aos efeitos neurotóxicos do metilmercúrio.

De acordo com Lars-Eric, praticamente toda a população mundial está exposta ao mercúrio por meio do consumo de frutos do mar. Os níveis mais elevados são encontrados em grandes peixes predadores, como atum, peixe-espada e tubarões, justamente por ocuparem os níveis superiores da cadeia alimentar. Como medida preventiva, o especialista recomendou priorizar o consumo de peixes menores, além de moluscos e crustáceos, reduzindo a frequência de ingestão para, no máximo, três vezes por semana.

Durante a palestra, o geoquímico também destacou a dimensão global do problema. Atualmente, estima-se que cerca de 230 mil toneladas de mercúrio estejam acumuladas nos oceanos, onde podem permanecer circulando por cerca de 300 anos. Embora existam fontes naturais de emissão — como atividade vulcânica, erosão de rochas e processos geológicos —, a maior parte da contaminação contemporânea é resultado direto das atividades humanas. Entre as principais fontes antropogênicas estão a queima de combustíveis fósseis, a mineração, determinados processos industriais e o desmatamento.

Apesar da gravidade do cenário, Lars-Eric destacou que há caminhos concretos para reduzir os impactos do problema. Segundo ele, a diminuição das emissões humanas de mercúrio é uma meta possível e respaldada pela Convenção de Minamata sobre Mercúrio, acordo internacional criado justamente para orientar políticas públicas voltadas à redução da contaminação ambiental e da exposição humana ao metal.

Entretanto, o pesquisador alertou que as mudanças climáticas podem comprometer parte desses avanços. O aquecimento global promove a redução do oxigênio dissolvido nos oceanos e acelera o derretimento do gelo marinho, criando condições favoráveis para a atividade das bactérias responsáveis pela produção de metilmercúrio. No Ártico, por exemplo, o degelo vem liberando quantidades crescentes de mercúrio anteriormente aprisionadas nas geleiras e no permafrost, ampliando a disponibilidade do contaminante no ambiente marinho.

Ao final da apresentação, Lars-Eric reforçou que não é possível impedir completamente a ação natural das bactérias que convertem o mercúrio em sua forma mais tóxica. Por isso, a estratégia mais eficiente continua sendo a redução drástica das emissões humanas do metal. Para o pesquisador, combater simultaneamente a poluição e as mudanças climáticas será essencial para diminuir a contaminação dos oceanos e proteger as futuras gerações dos impactos do mercúrio sobre a saúde e os ecossistemas marinhos.

Sessão Plenária II: mudanças climáticas já forçaram os limites seguros do planeta

Luana Pinho coordenando a segunda plenária da Reunião Magna da ABC

Coordenadora da plenária sobre o estado do oceano no Antropoceno – que seria uma nova era geológica caracterizada pelo impacto significativo e irreversível das atividades humanas sobre a Terra -, a oceanógrafa Luana Pinho, professora e pesquisadora da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, iniciou a sessão.

Ela apresentou o estudo do cientista sueco Johan Rockström relativo aos limites críticos para o planeta continuar habitável, que ele chamou de “limites planetários”, definidos em 2009 – e que já foram amplamente rompidos. Na época, eram sete limites, com três ultrapassados. Em 2025, numa reavaliação do próprio grupo de pesquisa, se tornaram nove — e sete já foram excedidos. Saiba mais em reportagem da Pesquisa Fapesp.

“As mudanças climáticas já provocaram a ultrapassagem dos limites seguros do planeta — e os oceanos estão no centro dessa crise”, alertou Pinho. Ela mostrou a definição da Unesco sobre o oceano. “É um sistema socioecológico complexo e dinâmico, moldado pelas interações entre a terra, a atmosfera, o gelo e os seres humanos”, esclareceu.

Esses últimos, os humanos, têm provocado impactos profundos: sobrepesca, emissão de gases de efeito estufa, contaminação das águas, exploração mineral e despejo de lixo e poluentes emergentes. “As consequências já são evidentes: perda de biodiversidade, acidificação dos oceanos, eutrofização, riscos à segurança alimentar e impactos diretos na saúde humana”, destacou Pinho.

Proteger os oceanos é proteger a vida no planeta

Professor titular da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Carlos Eduardo de Rezende falou sobre a biogeoquímica do mercúrio e do carbono na interface terra–mar. E por que o mercúrio? Porque é um poluente global com aspectos toxicológicos bem conhecidos e que é redistribuído pela circulação atmosférica, que afeta a todos – independente de quem emite.

Carlos Eduardo de Rezende na segunda Sessão Plenária da Reunião Magna da ABC

Suas pesquisas na área da bacia do rio Paraíba do Sul e na bacia de Campos mostraram que a concentração de mercúrio no oceano profundo aumenta muito onde o fitoplâncton floresce e também cresce nas regiões de manguezais. “Ainda não compreendemos plenamente as interações entre a matéria orgânica [fitoplâncton] e os metais, como o mercúrio, e os minerais. Mas sabemos que ela é um excelente suporte geoquímico para o mercúrio e que o desenvolvimento desse conhecimento vai ajudar a prever mudanças nas propriedades da superfície terrestre, além de contribuir para compreender os ciclos globais no contexto do Antropoceno”, afirmou Rezende.

Ele alerta sobre a situação brasileira com a Mata Atlântica. “Era uma floresta exuberante, com alta biodiversidade, que está quase extinta. É um bom exemplo do que pode se tornar a Amazônia se continuarmos lidando com ela como temos feito.

Rezende citou a região do Wyoming, nos EUA, após a revolução industrial – com a produção de cimento para atividades de construção -, e na corrida do ouro, com a mineração. “A  quantidade de mercúrio emitida foi muito aumentada. E essas duas atividades continuam aumentando no Brasil: a produção de cimento na região Sudeste, e a mineração ilegal na Amazônia, botando em risco a população”, alertou.

Ação humana pode ser detectada na geografia submarina argentina

Professor emérito da Universidad de la Fraternidad de Agrupaciones Santo Tomás de Aquino, onde liderou o Grupo de Investigação Ecossistemas, Jorge Eduardo Marcovecchio apresentou o estado da poluição no Mar Argentino, que é a região do sudoeste do Oceano Atlântico. Suas pesquisas demonstraram que a região não é considerado um ambiente severamente degradado em escala global, especialmente quando comparado às regiões altamente industrializadas do Hemisfério Norte, onde os limites de toxicidade aguda são excedidos com maior frequência.

Jorge Marcovecchio na segunda Sessão Plenária da Reunião Magna da ABC

No entanto, suas investigações científicas confirmam a presença de poluentes — como metais pesados, hidrocarbonetos, pesticidas e microplásticos — em todos os seus subambientes, desde estuários costeiros até sedimentos de águas profundas. Essa presença tem levado ao registro de bioacumulação em peixes, mamíferos marinhos e aves, demonstrando que os poluentes circulam por toda a cadeia alimentar desse ambiente.

Embora as maiores concentrações estejam localizadas próximas aos grandes centros urbanos e industriais, processos atmosféricos e oceânicos dispersam traços desses elementos em direção a áreas aparentemente preservadas. De forma particularmente preocupante, o estuário do Rio da Prata é o único ecossistema da região severamente impactado. Diferentemente de outras áreas, efeitos biológicos deletérios causados por elevadas cargas de poluentes vêm sendo registrados sistematicamente nessa região.

Os pesquisadores recomendam o estabelecimento de um Plano Estratégico Nacional que articule a regulação ambiental com um programa contínuo de monitoramento científico. Esse plano deve priorizar intervenções imediatas no estuário do Rio da Prata, para mitigar os efeitos biológicos já documentados, ao mesmo tempo em que deve fortalecer a fiscalização dos despejos industriais nos principais polos urbanos e industriais, bem como de outras fontes de poluição.

“É essencial que as políticas de conservação estejam fundamentadas em estudos sobre transferência trófica e transporte oceânico, protegendo, assim, as áreas preservadas da plataforma continental externa e garantindo a resiliência do ecossistema marinho diante da propagação da bioacumulação”, defendeu Marcovecchio, que foi empossado na noite de 7 de maio como um dos novos membros correspondentes da Academia Brasileira de Ciências.

Os cientistas defendem a criação de um Plano Estratégico Nacional para fortalecer o monitoramento ambiental, controlar despejos industriais e proteger as áreas ainda preservadas do oceano. “O oceano ainda resiste – mas proteger sua biodiversidade exige ação imediata”, concluiu o palestrante.

Estamos conectados e somos interdependentes

O oceano não funciona sozinho — ele está conectado ao clima, à biodiversidade e às atividades humanas. O pesquisador Huy Dang, da Universidade de Trent, no Canadá, onde atua como codiretor do Instituto Internacional para Estudos Ambientais. Ele alertou para a chamada “tripla crise planetária”: mudanças climáticas, poluição e perda de biodiversidade atuando de forma interligada.

O aumento das pressões humanas e o aquecimento das águas já provocaram a expansão acelerada das zonas com baixo oxigênio no mar, afetando a vida marinha, a pesca e a economia costeira. “Os estuários são a interface entre o continente e o oceano. As atividades humanas despejam resíduos nos rios, que os levam para o mar. É a antroposfera pressionando a hidrosfera [águas do oceano] e a biosfera [animais marinhos] que pressiona a geolitosfera [fundo do mar] e vice-versa”.

Huy Dang na segunda Sessão Plenária da Reunião Magna da ABC

Em estudos realizados em estuários e manguezais do Canadá, especialmente no Golfo de St. Lawrence, foram identificados contaminantes emergentes como Lantânio, intensamente usado nas refinarias de petróleo; Gadolínio, originado de medicamentos e procedimentos hospitalares; e Térbio, que está entre as chamadas terras raras, elemento crucial na fabricação de produtos tecnológicos. “Essas substâncias não são eliminadas no processo normal de tratamento de esgotos e vão parar no oceano”, explicou Dang.

Dang apontou que o aumento das pressões antropogênicas nos ecossistemas costeiro e a influência das mudanças climáticas causou a expansão em 10 mil km2 da zona mínima de oxigênio no sistema de St. Lawrence, numa velocidade maior do que qualquer outro ambiente marinho. Isso provocou um aumento das concentrações de potenciais contaminantes. “Há um conhecimento limitado do comportamento ambiental dos contaminantes emergentes”, ressaltou. “Não dominamos os riscos ao ambiente nem à nossa saúde”. E como o Canadá é um país exportador de frutos do mar, a redução do oxigênio, provavelmente causada pelo aquecimento das águas, provoca o afastamento dos animais das áreas tradicionais de pesca – o que causa significativos impactos econômicos.

Enfim, o que se pode concluir de todas as apresentações é que cuidar dos oceanos é cuidar do equilíbrio do planeta.

(Elisa Oswaldo-Cruz para ABC | Fotos: Mário Marques)