Mudanças climáticas nos oceanos abrem a Reunião Magna 2026

A primeira manhã da Reunião Magna 2026 focou na relação de mão-dupla entre os oceanos e as mudanças climáticas. No centro dos debates esteve a situação da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), corrente marinha responsável por levar águas quentes para o Atlântico Norte e trazer águas frias para o Atlântico Sul. Essa troca é responsável, entre outras coisas, pela habitabilidade de cidades como Helsinki e Estocolmo em latitudes que, em outros lugares, seriam impeditivas para a ocupação humana. A AMOC foi o tema da primeira Conferência Magna, ministrada pelo físico Edmo José Campos, Acadêmico e professor da Universidade de São Paulo (USP).

“Esta reunião nasce, portanto, de um compromisso: tornar visível o papel essencial do oceano e afirmar que não há futuro sustentável sem oceanos saudáveis. A Academia Brasileira de Ciências reafirma, neste encontro, seu compromisso histórico com a produção de conhecimento de excelência e com sua aplicação em benefício da sociedade”, abriu a presidente da ABC, Helena Bonciani Nader.

Colapso da AMOC: risco de desequilíbrio para todo o planeta

“A água é o elemento com maior capacidade térmica do planeta, isto é, para aquecê-la ou esfriá-la é necessário uma troca de energia muito grande. É por isso que os oceanos são fundamentais para segurar a temperatura, porque aprisionam 90% do calor em excesso gerado pelos gases do efeito estufa”, iniciou o Edmo José Campos.

Mas os oceanos não são estáticos, pelo contrário, são cortados por correntes marítimas que circulam águas e nutrientes por toda a Terra. Nessa dinâmica, a AMOC cumpre um papel central. “Ela é parte de um sistema maior que distribui energia e recursos por todas as bacias oceânicas, num padrão lento mas constante. Esse padrão é, sem nenhuma discussão, o que mantém o clima do planeta como ele é. Qualquer estrago terá consequências”, alertou Campos.

É aí que entram as mudanças climáticas. Estudos vêm mostrando que, com o aumento da temperatura média do planeta, a AMOC está perdendo força numa velocidade inédita. “É um efeito gangorra. Se você aquece demais o planeta, esse padrão de circulação enfraquece e o resultado é um represamento do calor nos trópicos e um hemisfério norte mais frio e até glacial”, explicou o Acadêmico. “Por mais absurdo que seja, o filme ‘O Dia Depois de Amanhã’ entendeu o processo de forma correta”, brincou.

No filme, um colapso abrupto da AMOC gerava tempestades de gelo titânicas que soterravam os arranha-céus de Nova Iorque. Na vida real, o processo é gradual e repleto de incertezas. Segundo Edmo Campos, os estudos mais recentes ainda não convergem numa data específica, mas, seguindo os níveis atuais de aquecimento, projetam um colapso da AMOC para a virada do século. “Há uma variabilidade natural do sistema climático. Para termos precisão precisaremos de acompanhamento científico continuado”, reforçou o pesquisador.

Um dos principais sistemas de monitoramento da AMOC carrega um acrônimo tipicamente brasileiro. O South Atlantic Meridional Overturning Circulation Basin-wide Array (Rede SAMBA) é um sistema de sensores distribuídos pela latitude 34.5°S que acompanham as mudanças físico-químicas na circulação das águas entre o Atlântico Sul e Norte. O Brasil faz parte do conjunto de países responsáveis por manter a Rede SAMBA e, segundo Edmo Campos, sua participação deve ser reforçada.

“No Brasil, um colapso da AMOC teria consequências profundas: redução das chuvas na Amazônia; aumento no nível do mar; fortalecimento das enchentes no Sul; prejuízos para o agronegócio. Não é problema de cientista, é problema de Estado”, concluiu.

Edmo Campos durante a primeira Conferência Magna de 2026

A AMOC no registro geológico

Como forma de nos prepararmos para as mudanças climáticas, é importante olharmos para outras ocasiões em que a temperatura média do planeta aumentou. Embora alterações sempre tenham ocorrido de forma mais gradual, é possível prever alguns de seus efeitos. Para isso, a ABC convidou o geólogo Cristiano Chiessi, líder do Laboratório de Paleoceanografia e Paleoclimatologia da USP.

Uma forma de identificarmos variações de temperatura no Atlântico é pela análise de microfósseis bentônicos. “Sabemos que em temperaturas mais altas há maior concentração de magnésio nos microfósseis, com isso pudemos reconstruir as temperaturas das águas do Atlântico no passado”, explicou o pesquisador.

Dessa forma, foi possível observar que da última vez que o Atlântico esteve tão quente, também houve enfraquecimento da AMOC. “Notamos que, durante o período de aquecimento, a diferença entre os microfósseis do Atlântico Sul e Norte cresceu, o que é compatível com um cenário de estagnação das águas”, continuou Chiessi.

O pesquisador alerta que, para além da alteração na temperatura e circulação das águas, o enfraquecimento da AMOC traz uma consequência crucial para o norte da Amazônia. Isso converge com o esperado para a mudança no padrão de chuvas, que tornará aquela região mais seca. “Registros de pólem e microcarvões mostram um aumento nas vegetações sazonais e nos incêndios. Isso numa área menos vulnerável ao desmatamento, mais distante da fronteira agrícola. Essa é uma região que poderia ser um refúgio para a Amazônia, mas é justamente a mais afetada por um colapso da AMOC”, lamentou.

Cristiano Chiessi olhou para a AMOC a partir do registro geológico

Oceanos polares no centro do debate climático e geopolítico

O glaciologista e Acadêmico Jefferson Cardia Simões, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), trouxe os oceanos polares para o centro do debate. Esses biomas, tão distantes de nossa realidade tropical, influenciam muito mais no clima do Brasil do que costumamos imaginar. “As enchentes de 2024 ocorreram porque as frentes frias da Antártica não conseguiram avançar sobre o território nacional devido a uma onda de calor, resultando nas chuvas históricas”, exemplificou.

Os oceanos polares estão entre os ecossistemas com maior variação sazonal do planeta. Para se ter uma ideia, o gelo marinho antártico alterna entre 1,6 e 20 milhões de quilômetros quadrados de extensão entre o verão e o inverno. Mas mesmo esses ambientes não estavam preparados para o abrupto aquecimento do planeta. “Estima-se que até 2100 o gelo marinho desapareça. Com isso, todo o calor que era refletido pelo gelo branco será absorvido, num ciclo vicioso de aquecimento. Em alguns lugares do Ártico a temperatura média já aumentou em 4°C desde 1960!”, alertou.

Com o fim da barreira de gelo, sobretudo no Ártico, há uma nova corrida geopolítica por rotas comerciais – e militares. Há também a liberação de supercampos de petróleo antes inacessíveis, alvo da cobiça de potências globais. “Já em 2010 tive reuniões com a Marinha dos Estados Unidos, que estavam estudando estratégias para uma nova realidade da guerra. O Pentágono acredita nas mudanças climáticas, só o presidente que não”, brincou.

Jefferson Simões falou sobre os oceanos polares na Reunião Magna 2026

Fuga dos trópicos

A oceanóloga Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) abordou as consequências das mudanças climáticas para a biodiversidade marinha. Entre os efeitos que já podem ser medidos nas águas estão mudanças físico-químicas com impactos significativos para os organismos. “Aumento na temperatura, queda na produtividade primária, queda no nível de oxigênio, acidificação. Tudo isso piorou nas últimas quatro décadas para além da variabilidade natural”, alertou.

Um dos efeitos mais tristes desses fenômenos é o branqueamento dos recifes de corais, verdadeiros santuários de vida marinha. Esse tema foi abordado em profundidade no segundo dia de Reunião Magna. “Os recifes de corais são os ecossistemas mais próximos do ponto de não-retorno, segundo o Global Tipping Points Report 2025”, antecipou Rodrigues.

Outro fenômeno que já ocorreu em outros momentos de aquecimento, com consequências graves para os trópicos, é a migração de biodiversidade para as zonas temperadas. “No Ártico, por exemplo, há uma ‘atlantização’, uma perda de espécies endógenas e a migração de espécies do Atlântico tropical. Mas nas regiões tropicais não haverá nenhuma substituição, não há de onde migrar”, explicou a pesquisadora.

 

 

Regina Rodrigues abordou as mudanças físico-químicas com o aquecimento dos oceanos e seus impactos na biota

 

Em resumo:

  • Com as mudanças climáticas, a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC) está enfraquecendo e pode colapsar, com consequências graves.
  • Sem ela, os países do Norte podem se tornar mais frios e cidades de altas latitudes, como Helsinki e Estocolmo podem ficar inabitáveis.
  • O calor ficará preso nos trópicos, fortalecendo ondas de calor e diminuindo as chuvas na Amazônia e Brasil Central. Com isso, frentes frias ficarão presas ao sul e enchentes como as de 2024 serão mais comuns.
  • Além de mais quentes, os oceanos estão mais ácidos e com menos oxigênio, a perda de biodiversidade é um risco real, sobretudo nos trópicos.
  • O gelo marinho polar pode desaparecer até 2100, acelerando o aquecimento do planeta e o aumento do nível do mar.

Assista às sessões completas:

(Marcos Torres para ABC | Fotos: Mário Marques, 13/05/2026)