Brasil cria o primeiro porco clonado da América Latina com o objetivo de fornecer órgãos para o SUS

No final de março, pesquisadores vinculados ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), da Universidade de São Paulo (USP), celebraram um resultado aguardado há quase seis anos. Após diversas tentativas, o grupo conseguiu obter o primeiro porco clonado no Brasil e na América Latina.

O animal nasceu em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba, no interior de São Paulo. O nascimento representa um marco crucial para o avanço de um projeto ambicioso em curso no país: gerar suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes em humanos sem provocar rejeição imunológica (leia mais em: agencia.fapesp.br/29761/).

A iniciativa é liderada pelo cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP, pela geneticista [e membro titular da ABC] Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela Fapesp, e pelo imunologista [e membro titular da ABC] Jorge Kalil, professor da FM-USP.

O projeto teve início em 2019, por meio de uma parceria com a farmacêutica EMS no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da Fapesp, e ganhou escala a partir de 2022 com a criação do XenoBR, um dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) financiados pela Fundação.

“O passo que demos agora é crucial porque a clonagem de suínos é uma das técnicas mais difíceis de serem dominadas para viabilizar o xenotransplante [transferência de órgãos entre espécies diferentes]”, diz à Agência Fapesp Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD.

“Sabíamos que essa etapa representaria um dos maiores desafios no projeto até porque, embora o Brasil tenha vasta experiência na clonagem de bovinos e equinos, ainda não tem com suínos, considerados os animais mais desafiadores para essa técnica por razões biológicas ainda não totalmente compreendidas”, afirma Goulart.

Domínio de tecnologias

A despeito do desafio de cloná-los, os porcos têm sido escolhidos como potenciais doadores para xenotransplante por causa das semelhanças de tamanho e funcionamento de seus órgãos com os dos humanos. Além disso, são domesticados, se reproduzem bem em cativeiro e originam ninhadas grandes em poucos meses.

Se os órgãos desses animais fossem transplantados diretamente em humanos, contudo, seriam rejeitados imediatamente pelo sistema imune humano. Por isso, o genoma do animal precisa ser editado.

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Juntamente com os Estados Unidos, a China foi pioneira na pesquisa sobre modificação genética de animais para xenotransplante em humanos e na realização das primeiras tentativas de uso da tecnologia em modelo chamado de uso compassivo – etapa que precede o estudo clínico, realizada em pacientes cujas possibilidades de tratamento haviam sido esgotadas e o xenotransplante foi avaliado como uma alternativa.

“Os dois primeiros casos foram de transplantes cardíacos e os pacientes sobreviveram por volta de 60 dias. Também teve um transplante de rim cujo paciente sobreviveu meses e veio a falecer posteriormente em razão de um infarto não relacionado ao transplante e outro paciente em que o rim funcionou por mais de 270 dias e depois ele retornou para diálise”, pondera Goulart.

A meta dos pesquisadores é que o custo dos órgãos provenientes de porcos clonados no Brasil por meio do projeto represente uma pequena fração dos que serão comercializados pelos Estados Unidos e pela China.
Leia a matéria na íntegra, aberta, no site da Agência Fapesp

 

(Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/Divulgação)

(Elton Alisson para Agência Fapesp, 23/4 | (Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/Divulgação))